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145 Poderíamos acrescentar a “oficina de consenso sexual entre lésbicas” que teve lugar no II FVLV (2012), bem

como nota de pronunciamento do coletivo Vulva la Vida a respeito de uma situação de violência entre mulheres ocorrida na segunda edição do festival e publicada no blog do FVLV. Informação disponível em: <https://festivalvulvalavida.wordpress.com/2012/02/06/nota-de-pronunciamento-do-vlv-sobre-o-caso-de-

violencia-ocorrido-dia-27/>. Acesso em: 26 maio 2013. Também no evento citado anteriormente TodasQueer aconteceu a oficina “Violência Entre Mulheres: Silêncio e Utopia Lésbica”. Informações disponíveis em: <http://todasqueer.wordpress.com/oficinas-e-bate-papo/>. Acesso em: 26 maio 2013.

A começar pela programação dos eventos, nota-se que elas seguem um padrão, sendo as atividades divididas entre, de um lado, oficinas e debates e, de outro, os shows. Os primeiros são em geral gratuitos e realizados durante o dia; o público pode ser livre ou seguir restrições em termos de identidades de gênero e sexual. Os shows em geral acontecem à noite e custam, em média, 10 reais; eles não possuem restrições (explícitas) em termos de público.

É oportuno notar que em alguns casos – no I Festival Emancipar e no Festival Vulva la Vida – o show é realizado em espaço à parte do resto do evento, denotando possivelmente que a conjunção destes dois tipos de atividades exige uma estrutura física híbrida – que suporte equipamento elétrico (amplificadores, mesa de som, instrumentos) e acústica para shows, bem como um espaço amplo e fechado, para o dispêndio de algumas horas em atividades que envolvem o diálogo em grupo (salas simples nas quais se sentava no chão ou em cadeiras dispostas em círculo). A mistura desses elementos denota uma aliança singular entre música e política, diversão e ativismo, isto é, enquanto elementos da práxis, os shows, debates e oficinas são orientados pela ludicidade e fluidez (como na figura da Zona Autônoma Temporária).

A presença da cozinha pode ser somada a esses ambientes, engrandecendo a hibridez. Sua disposição geográfica se dá às vistas do público, deslocando o lugar historicamente destinado a ela. Assim, no Liga Juvenil Anti-Sexo, havia um balcão com cozinha no fundo da sala utilizada para as oficinas, na qual se podia visualizar o preparo dos alimentos. No Festival Emancipar, um balcão estava localizado no corredor entre os espaços para as oficinas e podia- se ver a composição dos pratos sendo feita. No EncontrADA, por ser um encontro realizado numa casa, a cozinha estava disposta num cômodo à parte, mas o fluxo de mulheres passando por ela era intenso e a cada dia novos grupos eram responsáveis pelas refeições.146

A linguagem urbana da cidade permeia e dialoga com os referenciais políticos destes espaços, geralmente situados no centro das cidades ou em bairros de fácil acesso via ônibus ou metrô. Mas também eram frequentados por meio de bicicletas – estacionamento para carros não constituía uma preocupação, de modo que não havia qualquer anúncio público sobre a disponibilidade de estacionamento para automóveis nos meios de divulgação.

A citada “permissividade” se traduz num “afrouxamento” em diversos sentidos: por exemplo, são eventos que não possuem uma regularidade rígida. A primeira edição da Liga Juvenil Anti-Sexo foi realizada em maio de 2010, e a segunda edição, em novembro do mesmo ano; já a terceira edição só foi realizada em abril de 2012. O Festival Emancipar teve

146 Os aspectos relacionados ao manejo direto da alimentação serão abordados no capítulo 3, que trata das

a sua primeira edição em abril de 2012, e, a segunda edição, em dezembro do mesmo ano. O Ladyfestinha teve a sua primeira edição em dezembro de 2012, a segunda edição aconteceu em abril de 2013, 4 meses depois, e a terceira edição, em 01 de junho de 2013.

A mesma fluidez pode ser vista nas programações: não há garantia que todo o conteúdo escalonado acontecerá de fato. Cinco entre os seis eventos contaram com alguma atividade e/ou banda canceladas sem aviso prévio. O horário referente à atividade cancelada pode ser ocupado por outra atividade ou manter-se vago. Ou, ainda, atividades paralelas podem ser organizadas espontaneamente.

Essa rotatividade é também geográfica. Embora os eventos em si aconteçam nos limites de uma localidade (física) específica, eu não era a única saindo do lugar onde resido em direção a outras cidades: alguns rostos se repetiam, seja em Salvador, São Paulo ou Visconde de Mauá (RJ). Esse trânsito envolve a presença de contatos na cidade de destino,

hospedagens solidárias, e conversas prévias, geralmente feitas mediante o uso da internet.

São aspectos que indicam a formação de redes que extrapolam as cidades e estados, e pelas quais circulam pessoas, divulgação de eventos, textos, zines, receitas etc. Elas são um aspecto do modo como a relação entre espaço e tempo é compreendida.

Mas a circularidade também pode sinalizar um pertencimento de classe específico, dado os custos implicados nas viagens, o acesso à internet e mesmo a possibilidade de fugir da rotina por alguns dias. Também o nível de escolaridade – a maioria possui ou está cursando um curso de graduação147 – e as referências à língua inglesa evidenciam o pertencimento às camadas médias urbanas.148 Ademais, é importante notar a ausência da temática racial nesses eventos, o que pode sinalizar o pertencimento racial e a invisibilidade da branquitude e seus privilégios.

Uma forma de contornar os custos está na prática de pegar carona. Ela consiste em, individualmente, ou em grupo de dois (e no máximo três), dirigir-se até pontos estratégicos em estradas que dão acesso à cidade pretendida, portando cartazes nos quais se lê o destino desejado. No III Festival Vulva la Vida houve pelo menos três pequenos grupos que chegaram

147 De acordo com Corrêa (2001, apud GONÇALVES, PINTO, 2011), uma “face igualmente importante do

feminismo brasileiro se constrói na academia, muitas vezes de forma híbrida, com ativistas que principiaram nos coletivos informais dos anos 1970 e seguiram carreiras profissionais nas universidades, sendo pioneiras na constituição de núcleos de estudos e pesquisas em anos subsequentes, além de destacado papel na docência (Corrêa, 2001)” (GONÇALVES, PINTO, 2011). As interlocutoras dessa pesquisa se valem dessa conquista realizada por geração anterior, usufruindo da introdução de questões feministas no currículo acadêmico.

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Afirmação considerando as clivagens sociais de classe que incidem sobre o acesso ao sistema educacional brasileiro, e que vai ao encontro da análise da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) de 2006, na qual mais da metade de jovens frequentando as universidades brasileiras provém dos extratos médios da sociedade (em termos de renda obtida) (OSORIO, 2009).

a Salvador mediante essa prática, tendo como cidades de origem Curitiba, João Pessoa e São Paulo. Porém, essa não é a forma mais recorrente de deslocamento – embora haja referências mesmo em zines149 –, e devemos levar em consideração as inseguranças que envolvem a prática das caronas quando protagonizada por garotas.150

A respeito das posições de sujeito que situam o lugar de fala dessas ativistas, cabe mencionar que, no caso das classes médias, a juventude é vivenciada de forma singular, sendo marcada “por menores responsabilidades, suporte financeiro familiar, e um largo período de preparação para o futuro, compreendendo maior tempo livre utilizado muitas vezes para a manifestação de sociabilidades” (ABRAMO, 2008; SALTALAMACCHIA, 1994 apud CAMARGO, 2010, p. 11).

Voltando a estrutura dos eventos, a organização que subjaz a programação dos mesmos revela que eles não possuem um caráter deliberativo: as atividades que figuram na programação não são necessariamente concatenadas, isto é, não são cumulativas e a participação em todas é optativa. Também não há assembleias finais voltadas à votação de propostas (por exemplo). Assim, como será discutido abaixo, os eventos encerram objetivos imediatos, principalmente por meio das oficinas, que, portanto, ao lado dos coletivos, constituem mais uma peça chave em tal gramática política.

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