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A visão do mundo deste Movimento é a da fraternidade universal, onde os homens se comportam como irmãos, esperando contribuir, assim, à construção de um mundo mais unido. Por isso, todos são convidados a colocar em prática com decisão aquele elemento que se chama amor e é amor cristão ou, para quem professa outra fé, pode chamar-se benevolência, que significa querer o bem dos outros, atitude ensinada por todos os livros sagrados e presente também homens considerados leigos, que possuem, como todos, na própria natureza, o instinto de relacionar-se com os outros.

De facto, a cada pessoa, apesar das suas fraquezas, é conatural uma cultura propensa mais a dar do que a ter, porque é inclinada a amar os seus semelhantes. E no Movimento dos Focolares é típica a “cultura da partilha”, que desde o início se concretizou numa comunhão de bens entre os seus membros e em obras sociais inclusive de um certo porte.

O amor (ou a benevolência), vivido por várias pessoas, torna-se recíproco e gera, assim, a solidariedade. Solidariedade que pode ser mantida sempre viva só aplacando totalmente o nosso egoísmo, enfrentando as dificuldades e sabendo superá-las.

É esta solidariedade, base de cada acção humana, inclusive da actividade económica, que caracteriza o estilo de vida de quatro milhões e meio de pessoas que assumem diariamente no Movimento dos Focolares e que já se difundiu amplamente além do seu âmbito. (…)

Este estilo de vida concretizou-se, após quase 50 anos, no projecto Economia de Comunhão. Durante um encontro que tive com a comunidade local, em Maio de 1991, ela emergiu em São Paulo, do coração de um país que sofre de forma dramática pelo contraste social entre poucas pessoas riquíssimas e milhões de excluídos. A pobreza já estava presente entre milhares dos 250 mil aderentes ao Movimento no Brasil e as providências tomadas com a comunhão dos bens entre as pessoas eram insuficientes. Daí nasceu a ideia de aumentar as entradas, abrindo empresas dirigidas por pessoas competentes e capazes de administrá-las com eficiência, a fim de obter lucros.

Parte dos lucros produzidos seria reinvestida na empresa; outra parte seria destinada a ajudar aqueles que passam necessidades, dando-lhes a possibilidade de viver com mais dignidade, na expectativa de conseguir um emprego, ou oferecendo-lhe uma oportunidade de trabalho nessas mesmas empresas. A terceira parte seria destinada a desenvolver estruturas para a formação de homens e mulheres motivados pela “cultura da partilha”, “homens novos”, porque sem homens novos não se forma uma sociedade nova…

A ideia da Economia de Comunhão foi acolhida com entusiasmo não só no Brasil e na América Latina, mas também na Europa e me outras partes do mundo.

Muitas empresas nasceram e muitas já existentes aderiram ao projecto, modificando o próprio método de gestão empresarial.

(…) A experiência da Economia de Comunhão com as suas particularidades, que derivam do estilo de vida que a originou, é uma das numerosas iniciativas individuais e colectivas que procurarem e procuram “humanizar a economia”.

As empresas que aderem ao projecto Economia de Comunhão, mesmo agindo no mercado, têm como propósito e como razão de existir, fazer da actividade económica um lugar de encontro no sentido mais profundo do termo, um lugar de “comunhão”. É uma comunhão entre quem possui capitais e oportunidades económicas e quem não as possui; comunhão entre todas as pessoas envolvidas, de modos diferentes, na mesma actividade.

Se é verdade que com frequência é justamente a economia que contribui para criar barreiras entre as classes sociais e entre indivíduos com interesses diferentes, é verdade também que essas empresas, pelo contrário, sem empenha em:

 destinar parte dos lucros para cobrir directamente as necessidades mais urgentes de pessoas que vivem em dificuldades económicas;

 promover no seu interior e com os consumidores, fornecedores, concorrentes, com a comunidade local e internacional, a administração pública… relações de abertura recíproca e de confiança, buscando sempre o interesse geral;

 viver e difundir uma “cultura da partilha”, da paz e da legalidade, atenta ao ambiente (temos que ser solidários inclusive com a criação) dentro e fora da empresa.

Entre as características da Economia de Comunhão, eis algumas muito significativas para nós.  A Economia de Comunhão propõe comportamentos inspirados na gratuidade, na solidariedade e na atenção para com os excluídos, não só em relação a actividades sem fins lucrativos, mas também a empresas cujo objectivo é gerar lucros; esses lucros são colocados em comum numa perspectiva de comunhão;

 As empresas da Economia de Comunhão, além de terem como base um profundo entendimento entre os promotores de cada uma delas, sentem-se parte integrante de uma rede mais ampla, onde já é vivida uma experiência de comunhão;

 Os que se encontram em dificuldades económicas e que são destinatários de uma parte dos lucros, não são considerados simples “assistidos” ou “beneficiários” da empresa. Eles são membros activos do projecto, no âmbito do qual oferecem aos outros as próprias necessidades. Também eles vivem a “cultura da partilha”. De facto, muitos renunciam à ajuda que recebem assim que recuperam um mínimo de independência económica.

Muitas pessoas questionam como conseguem sobreviver no mercado empresas tão atentas às exigências de todos os interlocutores com que lidam e a bem de toda a sociedade. É claro que o espírito que as anima ajuda a superar os contrastes internos que criam empecilhos e, em certos casos, paralisam as organizações humanas. Além disso, o modo como trabalham atrai a confiança e a estima de clientes, fornecedores ou financiadores.

Todavia, não podemos esquecer um elemento essencial que acompanhou passo a passo o desenvolvimento da Economia de Comunhão durante estes anos. Nestas empresas deixa-se espaço à intervenção de Deus, inclusive nas acções económicas concretas. E constata-se que, após cada decisão “contra a corrente”, que a usual prática comercial desaconselharia, Deus intervém com uma facturação imprevista, uma oportunidade inesperada, a oferta de uma nova colaboração, a ideia de um novo produto que faz sucesso no mercado…

Esta é, em linhas gerais, a Economia de Comunhão.

Ao propô-la, não pensava numa teoria. Entretanto vejo que está a atrair a atenção de economistas, sociólogos, filósofos e estudiosos de outras disciplinas. Vários estudiosos vislumbram na categoria da “comunhão” uma nova chave de leitura dos relacionamentos sociais, que poderia contribuir para superar a tendência individualista que prevalece hoje na ciência económica.

Senhoras e senhores, esta foi a minha pequena contribuição para este ilustre Simpósio.