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DU CLIMAT AU COURS DU TEMPS

1.3 V ARIATIONS CLIMATIQUES RÉCENTES

O rapto e estupro de mulheres é um tema frequentemente erotizado na história das artes. O conceito de cultura do estupro auxilia na análise crítica das

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Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=l9hHZbuYVnUAcesso em 18/04/2018 Ver https://en.wikipedia.org/wiki/Mattress_Performance_(Carry_That_Weight)

imagens eróticas e revela a mistificação da violência sexual e subjugação da mulher pelo homem. Margaret D. Carrol aborda a ideologia de subjugação da mulher pelo homem presente na arte erótica e sua associação com o absolutismo a partir da análise crítica do quadro de Rubens, Estupro das Filhas de Leucipo, 1615-18, e outros trabalhos semelhantes da época. A composição em tamanho real ilustra a história contada por Teócrito e Ovídio de como os irmãos gêmeos Castor e Pólux (chamados de Dioscuri) sequestraram à força e depois se casaram com as filhas do rei Leucipo.

Figura 23

Fonte: Peter Paul Rubens, Rape of the Daughters of Leucippus, 1615-18, óleo sobre tela, 224x210,5 cm. Munich, Alte Pinakothek.

Carroll examinou as interpretações oferecidas como a sugestão de que Rubens criou essa pintura a mando de um aristocrata que desejava celebrar o casamento duplo de Louis XIII da França e sua irmã Elisabeth com a adolescente Filipe IV de Espanha e sua irmã Anne, todas elas tinham entre onze e quinze anos. Examinou também a interpretação de outro historiador que defendia que o artista estaria promovendo o impulso sexual natural em detrimento da inibição convencional. Examinou também a tese que, talvez Rubens esteja meramente ilustrando a elevação das mulheres ao status divino, à medida que são literal e figurativamente erguidas até as alturas celestes.

O dilema posto pela análise da obra é levado à outra dimensão sob uma lente feminista que revela, através do estudo de outras obras, uma consistência na tradição que surgiu entre os patronos principescos da época de incorporar

cenas mitológicas de grande escala nas decorações dos palácios. Com o surgimento da teoria política absolutista no século XVI, foi alegado que os governantes principescos eram como Júpiter e estavam acima da lei humana.

A representação de Ruben do sequestro é marcada por algumas ambiguidades surpreendentes: um equívoco entre violência e solicitude no comportamento dos irmãos e um equívoco entre resistência e gratificação na resposta das irmãs. A efervescência vigorosa e o apelo sensual do grupo trabalham para anular nossas reflexões mais sombrias sobre a natureza coercitiva do sequestro. Por estas razões, muitos espectadores quiseram diminuir a violência predatória do ato dos irmãos e interpretar a pintura em um espírito benigno, talvez como uma alegoria neoplatônica do progresso da alma em direção ao céu, ou como uma alegoria do casamento. (CARROLL, 1992, pp. 138-153, tradução nossa) O dilema interpretativo presente reside no fato de que qualquer interpretação da pintura é inadequada e não tenta chegar a um acordo quanto ao fato que a pintura é uma representação comemorativa da violência sexual e da subjugação forçada das mulheres pelos homens. Além disso, Carroll alude ao fato que, apesar das intimações de violência estarem embutidas na composição da pintura, Rubens retrata os personagens com expressões mais suaves, causando o efeito que sugere ao espectador a violência e a satisfação do estupro ao mesmo tempo.

Em “Arte de Amar”, Ovídio defendia os prazeres da violência sexual, onde esse estupro retratado por Rubens em particular – pelos Dioscuri das irmãs Phoebe e Hilaira – era citado como um exemplo de como um amante poderia conquistar o objeto de seu desejo usando a força. Carrol incluiu o poema de Ovídio no texto, que passo a traduzir:

Embora ela não os dê, tome os beijos que ela não dá. Talvez ela lute a princípio e grite: "Seu vilão!". No entanto, ela desejará ser espancada na luta. Aquele que tomou beijos, se não levar o resto ao lado, merecerá perder até o que foi concedido. Você pode usar força; as mulheres gostam que você usa da força. Ela contra quem um ataque repentino é tomada pela tempestade está contente. Mas ela que, quando ela poderia ter sido forçada, sai intocada ... ainda estará triste. Phoebe sofreu violência, a violência foi usada contra sua irmã: cada devorador encontrou favor com a que ele violentou.

A interpretação de que estuprar ou tirar as mulheres pela força seja natural na sexualidade humana é equivocada. Carroll analisou outras cenas de estupro e abdução forçada de parceiros sexuais desconsentidos, incluindo a representação de Júpiter raptando a Europa, Netuno raptando Amymone e Plutão carregando Proserpina para o submundo, todas essas as obras de arte foram ordenadas por homens com poder político absoluto. Na falta de mulheres para ter filhos, os primeiros colonos romanos pediram às tribos vizinhas suas filhas em

casamento. Quando recusados, os romanos capturaram à força as mulheres da tribo de Sabine e fizeram delas suas esposas. O valor comum em todas essas imagens é o domínio do gênero, o conceito de que as mulheres são propriedade

dos homens. Rubens havia pintado também A Batalha de Anghiari – imagens da

guerra possui uma composição e cenário semelhantes ao quadro Estupro das Filhas de Leucipo. Assim fazendo, talvez Rubens esteja convertendo as imagens de guerra em imagens da paz. A guerra mortal eminente é convertida em conquista erótica através do casamento. Os impulsos violentos dos antagonistas não são eliminados, mas redirecionados contra as mulheres. Os perigos do combate são trocados pela emoção do estupro.

A violência é absorvida pela sexualidade e tem sido uma estratégia para eliminar a violência entre os homens, redirecionando contra as mulheres. É preciso reconhecer com que violência, antes como agora, essa mistificação da sexualidade, com suas sedutoras ficções de conquista e capitulação, pode deturpar as experiências vividas de homens e mulheres. Frequentemente as mulheres estupradas são acusadas de ter causado o insulto. As questões sobre consentimento são complexas quando o homem causa a embriaguez da mulher, tenta possuí-la inconsciente, inicia as carícias com permissão, mas no meio do ato a mulher muda de ideia. Dentro do casamento ou relacionamento comprometido as linhas de limite se tornam ainda mais apagadas, onde o parceiro se sente no direito de receber serviços sexuais, e a mulher se resigna, se oferece, finge o orgasmo e renuncia sua vontade e prazer. Uma grande maioria das pessoas (mulheres em sua grande maioria) se cala a respeito. As corajosas que denunciam seus atacantes recebem mais ataques. Todas carregam seus cargos e experiências para qualquer lugar que estão.

Na minha vida profissional como médica atendi várias mulheres vítimas de opressão e abuso dos homens. Muitas formas diferentes de vitimização. A vasta maioria das mulheres vítima de abuso que sofreram abusos também na infância nunca se separam de seus abusadores. As mulheres se tornam vulneráveis e a violência e familiar, normalizada.