5 L’ironie au service de l’argumentation
5.2 Cas particuliers du contraire
5.2.1 Arguments ad hominem
Cabe também ressaltar a forma como as fronteiras das missões com a região da campanha (identificada com a cultura campeira) e com a região da mata (identificada com a cultura dos imigrantes europeus), fez com que houvesse uma multiplicidade de discursos internos ao missioneirismo. Estes diferentes discursos postos frente às tentativas de integração regional traduzem-se em micro-identidades regionais, geograficamente distribuídas (Figura 4), caracterizadas por Muriel Pinto da seguinte forma: 1) identidade missioneira-pampeana; 2) identidade missioneira- reducional; 3) identidade missioneira-europeia.
A interpretação das micro-identidades é uma forma de romper com as visões tradicionais sobre o tema, que apresentam geralmente uma visão coesa da identidade missioneira, desconsiderando as particularidades intra-regionais e contribuindo para a reprodução do discurso missioneiro. De acordo com Pinto (2012):
Esta percepção, de que a identidade missioneira está fragmentada em outras identidades regionais é uma interpretação inovadora do estudo proposto, pois tanto nos estudos do IPHAN, assim como nos trabalhos acadêmicos, a região das Missões é percebida através de um olhar unificado, fechado, cristalizado.
A existência das micro-identidades demonstra diferentes diálogos entre as representações feitas acerca do passado, pois apresentam características de conciliação, mas também de conflito e revisão do passado. Durante a pesquisa presenciei em uma conversa a desconfiança dos missioneiros que assumiam-se descendentes dos guaranis e dos peões de estância, frente aos descendentes de imigrantes alemães, que preservavam a religiosidade católica no município de Roque González. Para os primeiros, os outros “se acham melhores que o resto do povo, só porque vão na igreja no domingo pra beijar a mão do padre”.
A identificação das cidades mais ao norte das missões com a colonização européia pode ser percebida em diversos traços culturais, na arquitetura, na preservação dos hábitos de cuidado com a organização das casas, jardins e da própria cidade. Mas a auto-identificação comum aos descendentes de europeus aparece no uso da expressão “de origem” como forma de referirem-se a si mesmos. A expressão é tão naturalizada na região que é adotada mesmo por integrantes de outros grupos étnicos, porém, não foi encontrado durante a pesquisa nenhum resquício de problematização deste conceito. Compreendemos que o termo seria uma corruptela, expressão popular que traz implícito o complemento “europeu” ou “européia”, ou seja, faz referência a pessoas “de origem européia”. As comunidades das colônias, devido às próprias características da colonização mantiveram traços de ligação com seu local de origem, como o sobrenome, o que fez com que não houvesse um rompimento total com o pertencimento à Europa, assim, determinados grupos identificam-se e são identificados de acordo com as comunidades de origem de suas colônias formadoras, ou seja: alemães, pomeranos, italianos e etc. Para
além deste sentido verbal, há um sentido relacional, pois diferencia os “com origem” dos “sem origem” 24
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Mesmo identificando-se com a origem européia, os descendentes de imigrantes apresentam traços de uma identidade híbrida, um exemplo dessa hibridização e solução da unificação de passados díspares é o “Centro Germânico Missioneiro”, localizado na cidade de São Pedro do Butiá. A cidade faz parte do processo de inserção de colônias na região, sendo que os primeiros imigrantes alemães instalaram-se em 1907. O fato da comunidade, voltada aos traços culturais germânicos, estar inserida na região identificada como missioneira implicou em uma renegociação que se expressa no “Centro Germânico Missioneiro” (Figura 5), que remete a ambas as matrizes identitárias: das reduções e da colonização.
Conforme informações do site da Prefeitura Municipal de São Pedro do Butiá “O “Centro Germânico Missioneiro” é um projeto que foi criado vindo ao encontro do objetivo da região das Missões de criar um roteiro de turismo, mas que ao mesmo tempo visa colaborar para a preservação da cultura legada pelos pioneiros”. Mesmo estando explícito o caráter turístico da elaboração do local, ligando-o à região missioneira, cabe destacar o modo como as casas, em estilo colonial, são alinhadas ao redor da estátua de São Pedro (Figura 5), que remete às representações de santos esculpidas pelos índios Guaranis, configurando um cenário onde a religiosidade aparece como elo unificador entre as identidades.
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No caso das comunidades negras, o processo de escravização e coisificação do escravo implicava em um rompimento destes com suas etnias de origem, bem como na proibição de traços culturais como a linguagem e religiosidade africanas, desfazendo a possibilidade de identificação de origem pessoal ou familiar. Neste sentido, a reconstrução de laços de origem feita pelos movimentos sociais negros no pós-abolição em sua maioria remetem à África, e aos principais locais de exportação de escravos para o Brasil, e não a etnias específicas.
Figura 5 – Centro germânico Missioneiro. Fonte: <http://www.saopedrodobutia.rs.gov.br>.
Stuart Hall (2011) remete à ideia psicanalítica do espelho de Lacan, para explicar a forma como tentamos subjetivamente “juntar os cacos” do eu, de modo a constituir uma auto-imagem coerente, digna de ser reconhecida como uma só figura, na formação das identidades pessoais. A junção da imigração com o missioneirismo em uma mesma identidade - ainda que voltada ao turismo - pode ser em analogia à citação de Hall, uma transposição da ideia do espelho quebrado e reconstruído para a questão da formação das identidades sociais, criando uma forma específica de negociação com o passado25.
Porém tal junção dos “cacos do espelho” não ocorre sem conflitos. Na payada “Precedência”, Noel Guarany demonstra diferenças entre os missioneiros e os imigrantes, chamados pelo mesmo de “gringos”.
Gringo, eu canto primeiro Por direito a precedência Pois cheguei nesta querência Mil anos antes de ti
25 De acordo com Hall (2011, p. 109): “É precisamente porque as identidades são construídas dentro
e não fora do discurso que nós precisamos compreendê-las como produzidas em locais históricos e institucionais específicos, no interior de formações e práticas discursivas específicas, por estratégias e iniciativas específicas.”
Sendo sangue, sou essência Do meu povo guarany
A precedência declamada por Noel reivindica a posse simbólica da região, por herança, pois sendo descendente dos Guaranis, seria seu direito ser ouvido primeiro, o que representa em um sentido mais amplo ter suas demandas consideradas nas discussões pertinentes à região. Mais adiante, na mesma poesia, Noel questiona a concessão de terras indígenas aos europeus, e o confinamento dos indígenas em reservas, recorrendo por fim à uma entidade Guarani – Tupã26 –
como forma de executar a justiça.
Talvez, paisano, o meu verso Em muito te desagrade... É que a tua propriedade "As Sesmarias D‟el Rey" Meus bisavós não venderam São terras que nunca dei E, quando chegaste, gringo, Já levantando alambrado, Te assenhorando do gado Tesouros da redução Nem Tiaraju sonharia Que a tua soberania Magoasse o pampa, pagão O índio vive cativo
Reserva é como prisão O verde campo nativo Cedeu lugar a erosão Gringo, escute o recado
Pra cada crime há um castigo... E ter Tupã de inimigo,
É querer ser castigado...
Da mesma forma que a ocupação da região se deu através de conflitos diversos, há também o conflito e a divergência entre identidades, pois as fronteiras identitárias não são demarcações estáveis, e sim limites que são constantemente construídos e reafirmados. Tanto a construção de um local como o Centro Germânico Missioneiro quanto a criação e declamação dos poemas sobre as missões servem como formas de reafirmar visões próprias sobre a localidade e a identidade.
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Na cultura Guarani, Tupã é o mensageiro dos deuses, representando através do trovão a insatisfação das divindades superiores com as ações humanas.