• Aucun résultat trouvé

Chamamos de “embranquecimento” a tentativa comum de “afastamento” da raça, tentativa essa completamente frustrada na grande maioria dos casos. Porém, essa é uma característica do racismo brasileiro que precisa ser ressaltada, pois é bastante utilizada, inclusive pelo discurso midiático. O desejo pelo embranquecimento de Foguinho é identificado de maneiras diversas, tanto antes como após seu enriquecimento.

A inserção de Foguinho nesse espaço dominado por brancos, se deu antes de garantir a herança, por meio da malandragem conseguiu tornar-se “amigo” do dono da Luxus, chegando ao ponto de tornar-se seu assessor particular. Para Foguinho, aquele era o momento ápice de sua vida, pois ele ainda não imaginava o que o aguardava nos próximos meses. Assim que foi

nomeado ele lança a seguinte frase na língua inglesa: “I’m the King of the World” (Eu sou o rei do mundo). Ele ainda complementa: “Aí que alegria”. Era a oficialização da sua inserção naquele espaço negado ao seu grupo racial.

Imagem 22 – Foguinho descobre que foi nomeado assessor de Omar

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=DP81X2LYkQ4. Acesso em: 20 jul. 2017.

A história de Foguinho na trama é basicamente dividida em dois momentos: o da pobreza e o da riqueza, ao direcionarmos nossos olhares para as imagens 15 e 16 que referem- se a esses dois momentos, é possível identificar que Foguinho muda completamente as suas vestimentas, com o objetivo de se enquadrar nesse novo padrão de vida, mas um elemento ele não abre mão: seu bigode loiro.

Imagem 23 – Foguinho pobre

Fonte:https://maistvmtv.wordpress.com/2013/05/03/relembrando-novelas-cobras-e-lagartos/. Acesso em: 07

nov. 2017.

Imagem 24 - Foguinho Rico

Fonte: https://noticiasdatvbrasil.wordpress.com/author/global3d/page/10/. Acesso em: 07 nov. 2017.

O bigode loiro sempre foi uma estratégia utilizada por Foguinho para se diferenciar no meio de tantos “Zé-ninguém”, mas mesmo após ficar rico e deixando de ser um “zé-ninguém”, ele não abandona sua única marca corporal que teoricamente “o aproxima da branquitude”. A trama nos traz uma série de cenas onde principalmente os familiares e Ellen que antes tinham

repulsa a Foguinho, após ficar rico, passou a ser bajulado por todos, embora no fundo, ainda o reconheçam como um malandro “zé-ninguém”, que enriqueceu por uma sorte do destino.

A tentativa de Foguinho de embranquecimento por meio do enquadramento aos padrões estéticos e hábitos é falha desde sempre, pois suas roupas sempre extravagantes, com cores extremamente vibrantes, acessórios que façam menção às cifras e ao dinheiro que possui, casacos de pele, chapéus e gravatas com estampas bastantes chamativas, entre outros aspectos.

Observemos a Imagem 25 que traz a publicação da Revista Chega Mais, sobre o fato de Foguinho assumir a direção da empresa Luxus, após receber a herança. A imagem conta com três personagens brancos e Foguinho, uma delas, um homem branco interessado em retirar a empresa das mãos de Foguinho dá as “boas vindas” para ele. Foguinho destoa nesse espaço, ele não pertence a Luxus, considerada um local de poder, onde apenas homens brancos devem ocupar os cargos mais altos, ele é um outsider.

Imagem 25 – Foguinho assume direção da Luxus –Revista Chega mais

Fonte: http://revistaamiga-novelas.blogspot.com.br/2013/04/cobras-lagartos-rede-globo-2006.html. Acesso em:

10 mai. 2017.

Nessa trama, nós somos interpelados pela emergência de enunciados de que através do enriquecimento, haveria o “embranquecimento”. Há uma forte defesa de que a pobreza é sinônimo de fracasso, analisemos a Imagem 26, que traz a campanha da Luxus, protagonizada apenas por Foguinho e Ellen. Onde o slogan era falado com veemência por Ellen: “Luxus, eu tenho, você não tem”. No fim, Foguinho complementava com a frase: “Mas pode ter”.

As gravações foram feitas no cotidiano do casal para passar a mensagem de que eles eram um casal rico modelo a ser seguido, um padrão Luxus. Na Imagem, eles estão utilizando os serviços da loja, onde todas as funcionárias são brancas, o que simbolicamente representa uma inversão nas relações de poder. Porém, a mensagem passada pela loja não é que ela é democrática, mas de total incentivo ao consumo e diferenciação, pois “só os melhores usam Luxus e se você se esforçar, você também poderá utilizar, é só querer”.

Imagem 26 – Campanha Luxus encenada por Ellen e Foguinho

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=qzQbnxS3R8w&t=97s. Acesso em: 22 jul. 2017.

A telenovela faz parte do aparato que visa remover o risco ao embranquecimento da nação. Assim, nos deparamos com enunciados onde o homem negro é colocado como a última opção para se estabelecer um relacionamento amoroso. Foguinho era o malandro atrapalhado que sonhava em ficar rico para enfim ser aceito pela mulher (negra) com que sonhava ter um relacionamento, mas ao mesmo tempo, ao longo da trama, tentou se relacionar com mulheres brancas (principalmente após ficar rico, quando Ellen se interessou por ele), sendo essa busca do homem negro pela mulher branca, como afirma Fanon (2008), uma estratégia falaciosa traçada por esse homem para se afastar de sua raça, tornar-se branco.

A Imagens 19 e 20 referem-se a duas cenas representativas em relação a esse desejo de Foguinho por uma mulher branca, que embora tenha firmado em sua fala que não possui interesse afetivo algum no personagem, ele insiste que ela é o grande amor de sua vida. A seguir iremos observar trechos das falas desses personagens que apresentam essa ilusão de Foguinho com a mulher branca, acompanhada por sua repulsa amorosa ao malandro.

Imagem 27 – Foguinho tenta convencer Bel que eles se amam

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=R_ZmflrY9To. Acesso em: 20 jul. 2017.

Bel: Foguinho, eu preciso falar com você, vem aqui, junto, aqui. Olha Foguinho, você já passou a noite aqui, a gente já brincou de casinha, foi divertido, num foi? (tom infantilizado) Agora chega, tá na hora de você voltar para casa! Foguinho: Bel, a minha casa agora é aqui né? Bel: A sua casa, é onde está a sua família, a sua casa é onde está a sua esposa e os seus filhos. Foguinho: Bel, a minha esposa agora é você e os meus filhos, eles estão... (tom de

desinteresse) Ellen (Chega de repente): Seus filhos estão em casa à espera do pai. Foguinho: A Bel me ama, ela ainda não sabe disso, mas ela me ama. Eu to muito bem, eu to numa família feliz, a gente tá feliz, a gente sorri todo dia, a gente é uma família feliz, a gente... você quer ver uma coisa? Por exemplo, o Sushi é praticamente meu filho, a Conceição que tá ali e não me deixa mentir, já é praticamente a minha empregada e a Bel que tá aqui já praticamente a minha esposa.

[...] Bel: O Foguinho, acorda desse delírio. Foguinho, o que eu tenho a te oferecer é a minha amizade, nada além disso.

Além do que é pronunciado, observemos o que as imagens nos apresentam através dos corpos dos personagens. Enquanto Foguinho abraça Bel, na tentativa de forçar um amor inexistente, a mocinha, demonstra todo o seu desinteresse apenas por sua expressão facial, em momento algum ela corresponde a tentativa de Foguinho de realizar seu sonho de homem negro de estabelecer uma família com uma mulher branca.

Imagem 28 – Ellen diz a Foguinho que Bel não gosta dele

Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=wRs4-Gsdszw. Acesso em 15 jun. 2017.

Ellen: Você acha que ela gosta de você, Foguinho? Ela gosta de você como quem gosta de um cãozinho vira-lata. Você tá fazendo companhia para ela enquanto ela está jogada às baratas. Até porque quando ela arrumar um bofe, ela vai te dar um pé na bunda e vai te jogar na rua. Foguinho: Nada disso, ela gosta de mim de verdade. [...] Ela me ama e vai me amar mais ainda se você não atrapalhar. É a partir desses elementos que se constrói o desejo pelo branqueamento na referida representação. Nesse sentido, fica evidente para nós que as imagens estão cumprindo seu papel de lançar aos sujeitos lições sobre os homens negros, a partir dos ideais culturalmente estabelecidos e o de branqueamento é um dos principais existentes.

Documents relatifs