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Dans le document THE INTERNET OF THINGS (Page 27-57)

A questão acerca do verdadeiro «resíduo» da redução transcendental é posta de relevo pelos discípulos de Husserl (Fink, Landgrebe, Heidegger e, mais tarde, pela fenomenologia francesa, designadamente Sartre e Merleau- -Ponty). Se o resíduo não for realmente um «sujeito puro» (sujeito que Husserl imputou criticamente aos neokantianos), mas sim a correlação consciência- -mundo, então a redução fenomenológica «longe de ser, como se pensou, a fór- mula de uma filosofia idealista... é-o de uma filosofia existencial...». Sendo assim, o «in-der-welt-Sein» de Heidegger aparece-nos sobre o fundo da redu- ção fenomenológica, e a significação originária emerge do Lebenswelt. É evi- dente que este «mundo» como horizonte (antepredicativo), fonte originária de toda a significação, mundo ao qual «se chega» pela radicalização da própria fenomenologia da consciência transcendental, é bem diferente do «mundo» naturalista que primeiramente se «abandonou» ou suspendeu pela epoché.

O verdadeiro transcendental será então a abertura originária do sujeito ao seu mundo; a um mundo, cujo ser primordial não é «ser-objecto»; a um mundo que se não expõe sem sombras nem opacidades, que precede e excede a sua presentificação (objectivação) na consciência frontal, consti- tuinte. O mundo como «horizonte dos horizontes», fundo inesgotável de sig- nificação, está sempre já aí, numa relação oblíqua com o sujeito, de mútuo envolvimento; relação pre-tética, de familiaridade, dialéctica irresolúvel de forças simultaneamente centrífugas e centrípetas.

O brotar imotivado (in-objectivo) do mundo passa a ser o tema originário de uma filosofia que se queira radical.

A fenomenologia, ao interrogar-se pelo ser do fenómeno puro (evidência

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transcendental idealista), transforma-se numa fenomenologia da fenomeno- logia, em que a transcendentalidade se corresponde com a ek-sistência, coe- xistência ambígua, de familiaridade do sujeito com o seu mundo.

A problemática inerente à inflexão existencial da fenomenologia husser- liana foi por nós estudada na obra Sentido y Ser en Merleau-Ponty. A leitura do primeiro capítulo da segunda parte deste livro inicia o aluno na temática do último Husserl, mostrando simultaneamente a filiação da fenomenologia existencial em tal temática.

De acordo com a afirmação pontyana, o chamado mal entendido entre Husserl e os seus intérpretes (os «dissidentes» existenciais), radica de um certo mal entendido de Husserl consigo mesmo. Em última instância, a ruptura com o mundo – necessária para o olhar despreconcebido – ensina-nos que o mundo esta sempre já aí, sendo a existência uma coexistência ambígua, inob- jectivável, e a reflexão – sempre eminente, jamais efectivada – um movi- mento em perpétuo atraso consigo mesmo. Merleau-Ponty designa tal movi- mento como «o movimento retrógrado do verdadeiro».

O ser originário da significação (bem como a significação originária do ser) não é, portanto, da ordem do ser-objecto. Esta será a grande mensagem do pensar heideggeriano, que preconiza a interrogação como «órgão ontológico» fundamental, instituindo a circularidade hermenêutica. Também para Mer- leau-Ponty, o sentido inaugural – a evidência perceptiva – não é nunca um «pensamento adequado ou evidência apodíctica». É certo que foi o próprio Husserl quem se pronunciou sobre a problematicidade de tal evidência; no entanto, o Mestre jamais renunciou a ela, embora a apresente cada vez mais como meta tendencial, como Ideia Reguladora, no sentido kantiano do termo. A ontologia fundamental heideggeriana e a ontologia pontyana de Visível e Invisível procedem, desde o início, à «despositivação» do ser, na busca de «um novo sentido da palavra sentido, de uma linguagem que diga – sem con- ceptualizações estratificantes – o ser inaugural. Este esforço de despositivação levado a cabo pela ontologia de raiz fenomenológico-existencial tem particular interesse no pensamento de Heidegger e de Merleau-Ponty. A rejeição do redu- cionismo operado pelo «objectivismo reificador» de raiz racionalista tem a sua expressão mais radical no abandono explícito das chamadas «filosofias da consciência», com a consequente defenestração do eu. A Kehre heideggeriana (também presente em Merleau-Ponty) inaugura uma ontologia cuja «lógica»

precede e excede a do pensar «tradicional». Trata-se de «ver» o Ser na inerên- cia a esse mesmo ser; trata-se de uma endo-ontologia cujo universo de discurso se traduz numa linguagem «deslogogizante», eminentemente polissémica, metafórica, simbólica, falante; uma linguagem que diz o silêncio, que desvela o ocultamento, a ausência insinuada na presença, o invisível do visível; enfim, trata-se de uma linguagem, cuja estrutura evoca a verdadeira questão ontoló- gica, significando sem expressar univocamente o ser real da significação.

Deste modo o pensar reencontra a sua função heurística, a pugna pela busca de uma fundamentalidade que se não reduz à capacidade lógico racio- nal de essencialização, a estrutura linguística de signo lógico-formal. «Pensar o ser não é onto-teo-logizar».

O pensamento fundacional (ontológico) não é uma projecção intencional; é transgressão intencional, despossessão intelectual, que não é sinónimo de irracionalismo. Só «vejo» o ser, só «compreendo» o seu sentido, se abandono a fortaleza rígida do Eu, esse lugar invulnerável que apreende por presentifi- cação omni-espacial e omni-temporal, se renuncio ao pensamento de «sobre- voo», falsificador do ser em acto. Ver sem ponto de vista – aspiração husser- liana ao ideal de ciência rigorosa – não é ver desde um Sujeito Infinito, qual Sensorium Dei indevidamente extrapolado a partir de categorias finitas.

A inflexão existencial da fenomenologia husserliana desemboca, assim, no tema ontológico fundamental. No entanto, convém ressaltar que esta ontologia já se não inspira no modelo científico-mecânico (como acontece na modernidade, designadamente em Kant), mas sim no modelo linguístico. O pensamento de Heidegger e de Merleau-Ponty é revelador a este respeito. A fenomenologia é uma Sinngebung, simultaneamente centrífuga e centrípeta, uma correlação diferenciadora. O sentido do ser manifesta-se na estrutura linguística, no organismo vivo que é a fala, no dizer.

6.2. COMPARAÇÃO ENTRE O PENSAMENTO DE HEIDEGGER E

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