Quase não conversa. Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
O que se pode perceber nesta quarta estrofe é a conclusão à qual chega o eu-lírico, de que o homem que se esconde atrás dos seus óculos e do bigode é forte, pois o fato de manter-se alheio, ter poucos e raros amigos é a marca da força, que o mantém afastado daquilo que o incomoda, mesmo que isso seja o sinal de tortuosidade, assim como o anjo que espia na sombra. Os óculos (lentes usadas diante dos olhos para “correção” visual) podem estar empregados no poema, com o
sentido de apresentar uma visão mais “definida” das coisas, pois ainda que o eu lírico se esconda, ele enxerga muito bem atrás dos óculos, e por sua vez, a origem da palavra vem do latim oculus que significa olhos, isto é, como comumente se diz, o sujeito possui “quatro olhos”, muito embora nesse caso, a conotação seja positiva, uma visão dobrada daquele que observa e fica à espreita.
Ainda nesta passagem, o poeta é sutilmente irônico ao mencionar os óculos e
o bigode. Esse conjunto lembra uma máscara muito usada por comediantes em
apresentações de humor. Logo, uma das defesas do poeta é também através do humor. A própria imagem antiga do poeta nas primeiras edições da Record apresentam a foto de Drummond com os óculos grandes que lembram o “fundo de garrafa” e o bigode bem delineado, isto é, o homem atrás dos óculos e do bigode é um dos disfarces gauche, sem dúvidas.
O fato de o homem se esconder e se fechar simboliza então, a força que encontra em si mesmo, ou o retorno que precisa encontrar em si mesmo para que consiga se “armar” de alguma maneira. O gauche faz esse movimento constantemente, sabe que o fora o afeta sobremaneira, porém, compreende que seu eixo, de alguma forma, está dentro dele, portanto, precisa encontrar o ponto de apoio para se manter à mercê dos acontecimentos, mesmo estando conectado a eles, por isso, o modo de estar confortável é sendo o que é.
O PEQUENO COFRE DE FERRO Arrombado
vazio. Quem roubou? Eu, talvez,
que me acuso de todos os pecados
antes que alguém me acuse e me condene. Não fui eu ou fui eu?
Quem sabe mais de mim do que meu dentro? E meu dentro se cala
omite seu obscuro julgamento deixando-me na dúvida
dos crimes praticados por meu fora. (ANDRADE, 1979, p. 127)
A simbologia de cofre, por Cirlot:
Como todos os objetos cujo caráter essencial é conter algo, pode adquirir o caráter simbólico de coração, cérebro, ventre materno. O primeiro dos significados aludidos é o que se apresenta no simbolismo do período românico. Num sentido mais amplo, desde a Antiguidade os recipientes
fechados representam tudo aquilo que pode conter segredos, como a arca da aliança dos hebreus ou a caixa de Pandora. (CIRLOT, 2007, p. 167)
Conforme Chevalier e Gheerbrant (2012, p. 262): “o simbolismo de cofre tem por base dois elementos: o fato de nele se depositar um Tesouro material ou espiritual: e o fato de que a abertura do cofre seja o equivalente de uma revelação”.
Ambas as significações mantêm entre si um diálogo quanto à noção de fechamento e abertura; manutenção de segredos e entendimento / descoberta destes, por meio de reflexões e constante retorno, no caso dos poemas que se relacionam com tal simbologia ou metáfora que permite a personificação do eu lírico na matéria descrita.
Já o ferro:
[...] é comumente adotado como símbolo de robustez, de dureza, de obstinação, de rigor excessivo e de inflexibilidade – todas essas, aliás, características que as qualidades físicas do metal em questão só confirmam de modo incompleto. Tanto na tradição bíblica quanto na China antiga, o ferro se opõe ao cobre ou ao bronze, assim como ao metal nobre, ou como a água se opõe ao fogo, o norte ao sul, o negro ao vermelho e o yin ao yang. A
idade do ferro é a idade dura, o remate final na solidificação cíclica, da qual a
idade do cobre ou do bronze é a penúltima etapa. As testas de ferro e de
cobre dos heróis míticos e as pranchas de ferro e de cobre da ponte
simbólica da lenda dos Hong exprimem a mesma polaridade. A vulgaridade do metal não é uma noção constante; ao contrário: o ferro teve, entre numerosos povos, um valor sagrado positivo, quer fosse considerado como
caído do céu (e de origem meteórica), quer o considerassem de origem
terrestre; em ambos os casos, ele confirma os dados da embriologia tradicional. Mas o simbolismo do ferro é ambivalente, tal como o das artes metalúrgicas: o ferro protege contra as más influências, e é também o instrumento dessas mesmas influências; é o agente do princípio ativo que
modifica a substância inerte, embora seja igualmente o instrumento satânico
da guerra e da morte. A modificação da matéria pelo instrumento cortante não tem, por sua vez, apenas um aspecto positivo, porquanto os utensílios de ferro eram proibidos na construção do Templo de Salomão; [...] por toda parte, sua ambivalência está ligada à do trabalho da forja. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012, p. 425)
O poeta há de mencionar em alguns poemas sobre o fato de ser tal e qual a cidade de Itabira, viva fonte de minério de ferro. Em “Confidência do itabirano”, poema de Sentimento do Mundo, os versos da primeira estrofe o definem: “Alguns anos vivi em Itabira. / Principalmente nasci em Itabira. / Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro. / Noventa por cento de ferro nas calçadas. / Oitenta por cento de ferro nas almas”. O poeta é “forjado” no ferro de Itabira, sua defesa está nessas palavras. Assim como a defesa de José (de obra homônima) está em ser duro,
apesar de não haver saída para ele em lugar nenhum: “Mas você não morre, / você é duro, José!”.
Referências similares também podem ser observadas no poema “Justificação”, analisado no capítulo 2, pois assim como o “caixote de ferro”, o “pequeno cofre de ferro” representa o próprio menino gauche, que esconde muitos segredos. Ambas as significações caminham juntas, a noção do lugar fechado e protegido pelo ferro, pela dureza.
Os dois primeiros versos do poema indicam a violação do cofre, que só é mencionado no título. Algo foi tirado dele, e encontra-se aberto, como se tivesse sido escancarado algum segredo, e não se sabe quem é o culpado disso. Porém, o eu lírico se questiona sobre a sua possível culpa. Parece, na qualidade de “pequeno” que é, levar a culpa por todos os erros e antes de ser acusado, acusa a si mesmo, embora nem ele mesmo tenha noção do que é certo ou errado ou do que seja “pecado”; esta é uma preocupação constante na poética drummondiana: o que é o pecado? Ele existe? Isto é, não fui eu ou fui eu que cometi? Ele demonstra sua incerteza e acaba por reforçá-la quando, em vez de afirmar que quem sabe mais dele mesmo é o próprio, ele pergunta ao seu íntimo, afinal: “Quem sabe mais de mim do que meu dentro?” E o próprio interior se cala, omitindo o seu julgamento, pois o ato de viver em si, já é uma obscuridade, nunca é possível ter a certeza de tudo, somente das incógnitas. Haverá, pois, a predominância da dúvida pelos “crimes” que se praticam pelo fora, desde as ações mais ínfimas às quais o sujeito se pergunta onde foi que errou, como o escorpião que incomoda dentro dele. O obscuro julgamento pode ser interpretado também como o julgamento de alguém que o espia, como o anjo torto, que vem da sombra, do canto obscuro, esse anjo muitas vezes parece estar dentro da consciência do eu lírico, assim como a predestinação que ficou marcada no gauche através do tempo.
Diante disto, o eu lírico vê à sua frente dois rumos possíveis: o da mentira e o da verdade, embora, o rumo da verdade esteja envolto em mentiras, logo a ênfase maior é no jogo das mentiras e daquilo que se ganha ou se perde jogando.
DOIS RUMOS
Mentir, eis o problema: minto de vez em quando ou sempre, por sistema?
Se mentir todo dia, erguerei um castelo em alta serrania contra toda escalada, e mais ninguém no mundo me atira seta ervada? Livre estarei, e dentro de mim outra verdade rebrilhará no centro? Ou mentirei apenas no varejo da vida, sem alívio de penas, sem suporte e armadura ante o império dos grandes, frágil, frágil criatura? Pensarei ainda nisto. Por enquanto não sei se me exponho ou resisto, se componho um casulo e nele me agasalho, tornando o resto nulo, ou adiro à suposta verdade contingente que, de verdade, mente. (ANDRADE, 1980, p. 45 – 46)
O conceito de verdade, por si só, já leva a uma inquietação, considerando a inexistência de verdades absolutas, pois verdades são criadas pelos sujeitos, de acordo com suas experiências de vida, conceitos adquiridos, que são constantemente reformulados, uma vez que o conhecimento, por sua vez, não é estático, mas sinônimo de movimento, por isso, o eu lírico, diante da mentira, lança o “problema”: mentir de vez em quando ou sempre, por sistema? No entanto, ao colocar-se em primeira pessoa ele não só se coloca no dilema, como se subentende a afirmação de que mente . Mentir por sistema pode indicar, além do ato de mentir constantemente (quase que por esporte), a mentira como um costume “institucionalizado”.
Em seguida, o poeta se pergunta e, por conseguinte, estende esses questionamentos ao leitor, sobre as consequências de ambas as atitudes. Mentir ou mentir? Eis a questão: “Se mentir todo dia, / erguerei um castelo / em alta serrania / contra toda escalada, / e mais ninguém no mundo / me atira seta ervada?” Essas duas estrofes definem o que seria uma mentira sistemática. Caso o eu lírico minta
todos os dias, irá somar pedra por pedra na construção de um castelo, uma fortaleza de proteção.
Na vida real, assim como nos contos e nos sonhos, em geral o castelo está situado em lugares altos ou na clareira de uma floresta: é uma construção sólida e de difícil acesso. Dá impressão de segurança (como a casa, geralmente), mas de uma segurança no mais alto grau. É um símbolo de proteção. Todavia, sua própria localização isola-o um pouco no meio de campos, bosques e colinas. E o que ele encerra, separado assim do resto do mundo, adquire um aspecto longínquo, tão inacessível quanto desejável. Por isso o castelo figura entre os símbolos da transcendência. (CHEVALIER & GHEERBRANT, 2012, p. 199)
De acordo com a definição dos estudiosos e a possível simbologia dos versos, há o fechamento do poeta e o distanciamento dele em relação ao mundo real, um mundo onde estaria livre das acusações, pois pela constância das mentiras contadas, se tornaria forte e nenhuma seta ervada (palavra venenosa) poderia atingi-lo e, mesmo que atingisse não teria efeito, até por que o fato de se tornar recluso evita o contato com o fora. Nesse caso, o poeta estaria livre para encontrar- se consigo mesmo e provavelmente outra verdade haveria de brilhar dentro de si, sim, por que a verdade, como dito, é mutável, a partir das experiências. Desse modo, a tonalidade gauche de escapismo é de caráter transcendental. Contudo, ao mesmo tempo em que a mentira poderia fazê-lo mais forte, poderia torná-lo vil? A dúvida ainda paira, tendo em vista que o poeta se questiona o tempo todo. Afinal, a verdade que rebrilharia dentro do eu seria construída com base na mentira com que edificou o seu castelo.
Já em: “Ou mentirei apenas / no varejo da vida, / sem alívio de penas, / sem suporte e armadura / ante o império dos grandes, / frágil, frágil criatura?” seria a mentira de vez em quando, da qual o sujeito se aproveita para “vender a poucos” (varejo) a sua mercadoria, ou seja, vender suas “mentirinhas” ao império dos grandes, que representam os adultos, principalmente os pais, considerando que o
gauche já tem o costume de se aproveitar das chantagens dos mesmos; uma frágil,
mas nem tão frágil assim, criatura. Com essas mentiras, ele se coloca no plano eu
igual ao mundo, Eu que aprendo com o mundo e suas mentiras, ao contrário do
É possível estabelecer um intertexto entre esse poema e a canção composta por Renato Russo, interpretada pelo grupo Legião Urbana, “Eu sei”24
, no trecho que diz: “Um dia pretendo / Tentar descobrir / Porque é mais forte / Quem sabe mentir / Não quero lembrar / Que eu minto também”. Há uma espécie de julgamento do Eu em relação às pessoas que mentem, considerando-as mais fortes por que sabem mentir, e o mais interessante é que se trata de uma afirmação, a mentira é, pois, sinônimo de fortaleza. Entretanto, o mesmo Eu que afirma isto é aquele que se inclui no rol dos que mentem.
Aparentemente, o gauche deixa de lado essas reflexões, pois interrompe o ciclo de perguntas: “Pensarei ainda nisto. / Por enquanto não sei / se me exponho ou resisto, / se componho um casulo / e nele me agasalho, / tornando o resto nulo, / ou adiro à suposta / verdade contingente / que, de verdade, mente”, entretanto, deixa o paradoxo: toda verdade é passível de reformulação e mesmo a “verdade” estipulada pela sociedade, mente. A verdade é que a mentira está em tudo, paradoxalmente falando, é a esta definição que o poeta consegue chegar. Portanto: adere ele às mentiras sociais e as usa como um meio de sobrevivência ou compõe para si um casulo, e nele se agasalha, permanecendo alheio, tornando o resto “nulo”? Cabe, por fim, ao leitor, concluir qual das “mentiras” cai na graça do gauche.
5) Meu Deus, por que me abandonaste