Sem pretender fazer uma análise exaustiva iremos neste ponto focar, sumariamente, os seus diferentes níveis dando uma particular ênfase à prevenção primária, pela relação desta com a promoção da saúde e por considerarmos que é nela que se deve centrar o investimento, não só num âmbito mais alargado, o do sentido das políticas, como também ao nível da intervenção dos profissionais que diariamente as operacionalizam. Assim, defendemos uma intervenção
48A perspectiva ecológica baseia-se em grande parte na Teoria dos Sistemas que defende que as pessoas dependem
de sistemas no seu ambiente social imediato para conseguirem uma vida satisfatória. Este tipo de abordagem centra a sua atenção nos ambientes de mudança, promove a interacção, mostra aos Assistentes Sociais que para atingir um fim não existe apenas um meio. Tenta analisar e descrever as situações de forma ampla para que se tenha uma ideia do todo, não encarando as explicações como lineares e deterministas.
A teoria sistémica, em virtude dos princípios em que assenta, influencia a prática social. Isto torna-se por demais evidente numa sociedade complexa e mutável como a nossa, que exige da parte dos técnicos o domínio de saberes transdisciplinares e interdisciplinares. Só fazendo uso de todos estes conhecimentos, quer práticos quer teóricos, os Assistentes Sociais conseguirão perspectivar os fenómenos sociais e humanos à luz de novos conceitos metodológicos (Payne, 2002).
articulada e complementar, onde todos os elementos (os idosos, a família, a comunidade e as instituições) sejam parte activa no processo.
Pese embora saibamos que, quer a promoção quer a prevenção primária têm um “largo espectro no tempo”, pelo facto dos seus resultados não serem observáveis a curto prazo e esta condição poder parecer contraditória se pensarmos por relação à população idosa, é neste “paradigma utópico49” que objectivamos a intervenção dos assistentes sociais.
Como sublinha Polónia (2003), o espectro dos modelos e estilos de intervenções preventivas são classificadas, mediante as condições existentes e a progressão dos problemas.
Assim, pela revisão bibliográfica efectuada para o presente estudo, verificámos que é um tema estudado na área da medicina, da epidemiologia, da saúde mental, particularmente, e pela psicologia da saúde, não existindo uma consensualidade quanto ao número de níveis de prevenção. Embora a maioria dos autores faça referência a três níveis, primária, secundária e terciária, alguns consideram existirem quatro, acrescentando aos anteriores a prevenção primordial e actualmente há já autores que consideram cinco níveis, com a introdução do conceito de prevenção quaternária.
Sabemos que a prevenção está associada ao risco e em termos globais os seus objectivos, independentemente dos níveis a que nos reportemos, centram-se na redução dos factores de risco e das doenças, assim como na protecção de indivíduos e grupos contra os riscos específicos (Restrepo, 2001:35).
A prevenção primordial, na perspectiva de Almeida (2005:92), relaciona-se “(…) com as doenças crónico-degenerativas e pretende evitar a emergência de estilos de vida que possam contribuir para um risco acrescido de doença. Está associada à prática de exercício físico regular, considerando-se que o seu impacto em termos da saúde pública é elevado e, pelos objectivos que pretende alcançar, está também associada à noção de promoção”
De acordo com o mesmo autor, a prevenção primária caracteriza-se por acções dirigidas a grandes grupos ou a populações. Acções essas que são promovidas antes de uma doença surgir, procurando assim evitar os riscos. Esta pretende num certo período de tempo alterar as condições que potenciam o surgimento do problema, evitando a sua propagação a outros grupos. A natureza de índole prospectiva atribui à prevenção primária uma estreita relação com a ideia de promoção. Pelas características que a definem, na prevenção primária, predominam as acções gerais que extrapolam grupos disfuncionais e que se dirigem também a grupos e a sujeitos que
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não foram afectados, ou a uma parcela da população que já o manifesta (Polónia & Alves, 2003; Almeida, 2004; Negreiros, 1985).
Como exemplos deste tipo de prevenção, Meireles (2008) apresenta a imunização (vacinação) contra algumas doenças infecto-contagiosas; a toma de vitamina D pelas crianças para prevenir o raquitismo; o uso de preservativos para a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis e o uso de seringas descartáveis pelos toxicodependentes, para prevenir infecções como VIH/SIDA e hepatites.
No seu estudo sobre a doença mental de 1985, Jorge Negreiros apresenta a perspectiva de vários autores para definir o conceito de prevenção e refere que, embora mostrem algumas divergências elas são pouco significativas, acentuando todos como objectivo amplo a promoção da saúde. É neste nível de prevenção primária vs promoção de comportamentos saudáveis, como posteriormente referiremos, que pretendemos enfatizar a intervenção do Serviço Social, ressaltando a sua importância junto das outras profissões, no sentido deste também poder subsidiar e contribuir, de igual modo, para a prevenção dos comportamentos sexuais de risco da população idosa.
A prevenção secundária ocorre após a identificação de factores de risco e pretende evitar que o problema se torne crónico, ou diminuir a sua progressão, recorrendo a diagnóstico e intervenção precoces, em indivíduos presumivelmente doentes, mas assintomáticos para a situação em estudo.
Para Meireles (2008), este tipo de prevenção pretende ainda que se apliquem medidas imediatas e apropriadas, com vista ao rápido restabelecimento da saúde ou, pelo menos, ao condicionamento favorável da evolução da situação, com cura e/ou redução das consequências da doença.
A prevenção terciária define-se como o “conjunto de acções que visam reduzir a incapacidade de forma a permitir uma rápida e melhor reintegração do indivíduo na sociedade, aproveitando as capacidades remanescentes. Poderia ser encarada como reabilitação do indivíduo”50. É um tipo de prevenção direccionada para o tratamento, para a reeducação e reabilitação dos sujeitos, quando o problema já está instalado e em crescimento; pretende promover a adaptação dos indivíduos às situações incuráveis. Como referem Polónia e Alves (2003:220), “o seu pilar reeducativo, pretende disponibilizar esforços para a obtenção de conhecimentos científicos e práticas diferenciadas e eficientes, que controlem, de alguma forma, o problema e, concomitantemente, consigam estratégias que evitem e minimizem a sua
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reincidência”. Também Lascoumes (1997 in Polónia e Alves, 2003), sublinha que este nível de prevenção pode designar-se de “prevenção da reincidência” na medida em que pretende evitar que o indivíduo permaneça na disfunção ou no transtorno e, no caso do HIV/SIDA, que seja responsável pela transmissão a outros grupos.
Apesar de ser uma prevenção muito associada à medicina preventiva e à medicina curativa, e por isso muito dependente de terapêuticas médicas, há a necessidade de a articular e complementar com a intervenção de profissionais de outras áreas, cuja acção se centre na “potenciação da capacidade funcional do indivíduo e na melhoria da sua reintegração social e familiar” (Almeida, 2005:93). A autora exemplifica com o caso da realização de sessões formativas/educativas no sentido de eliminar atitudes discriminatórias em relação a indivíduos seropositivos, que podem ser concretizadas por diferentes profissionais, nos diferentes contextos da intervenção. Este nível de prevenção apela a uma das funções do Serviço Social na sua dimensão de reinserção, como adiante abordaremos51. A prevenção quaternária é a mais recente e a menos referida, mas considerada por alguns, o mais elevado nível de prevenção em saúde. Ela surge como uma reacção adversa e como crítica à medicina preventiva pelo excesso de medicalização da sociedade actual. Promove os cuidados médicos, científica e medicamente aceitáveis, necessários e justificáveis com a menor intervenção (Ibidem) e baseia-se num conjunto de evidências inerentes à sociedade actual.
É um tipo de prevenção muito associada ao actual prolongamento do envelhecimento da sociedade e por vezes associado a situações oncológicas, aos cuidados paliativos, em que a finalidade é a melhoria da qualidade de vida dos doentes, prevenindo e aliviando o sofrimento dos sujeitos e dos seus familiares, sendo também sinónima de prevenção do sofrimento
(prevention of suffering) (MacDonald, 1991 in Almeida, 2005).
Designada por alguns autores por “prevenção da prevenção”, pretende atenuar e combater o excesso de “intervencionismo médico”, resultante muitas vezes da pressão dos utentes sobre os clínicos, que se traduz nessa medicina defensiva.
Assim, ela deve ser balizada pelo princípio da proporcionalidade e da precaução, implicando que os ganhos potenciais de uma qualquer intervenção devam ser ponderados face aos riscos. Este nível preventivo visa, genericamente, evitar ou atenuar o excesso de intervencionismo médico − actos desnecessários ou injustificados, "passivos" ou "activos" (Almeida, 2005:93).
51 Pela incursão na produção científica de diversos autores que abordam a prevenção, não se encontrou relação com
o Serviço Social. Percebeu-se que a sua principal competência se relaciona com a reinserção. Ou seja o problema existe, está diagnosticado e é aí que entra o Serviço Social, não se evidenciando o seu papel ao nível da prevenção primária.
Feita esta breve abordagem aos níveis de prevenção, interessa-nos retomar a ideia inicial situando a prevenção por relação aos comportamentos de risco dos idosos, sem nunca perder de vista a relação que pretendemos estabelecer com o Serviço Social e do seu papel na prevenção primária desses mesmos comportamentos. Como vimos no Capítulo I, desde 1989 até ao final de Dezembro de 2009, tinham-se diagnosticado 76 casos de situações de HIV/SIDA no concelho de Cascais e em Agosto de 2008 esse número era de 62 casos. Verificámos também que a maioria dos casos está associada a comportamentos sexuais de risco, facto que per si justifica um olhar atento ao problema e um investimento urgente na prevenção. Embora a promoção da saúde tenha um foco mais abrangente do que a prevenção primária e, não sendo os conceitos sinónimos, eles complementam-se, de certo modo são indissociáveis e ambos têm uma estreita relação com um processo educativo. Assim, sem termos a pretensão de nos centrar na área da educação, iremos no ponto seguinte focar alguns aspectos relacionados com o processo de aprendizagem enquanto algo que é necessário à alteração dos comportamentos e, para o caso que nos inquieta os comportamentos de risco dos idosos.