4.2 Approximation
4.2.3 Approximation non-lin´eaire sur un domaine Ω
As Abelhas
3.1 – Os Argumentos de Langer
Debrucemo-nos sobre o caso das abelhas – em vista da sua sofisticação comportamental, poder-se-á pensar que possuem consciência. A capacidade mais notável atribuída às abelhas prende-se com o seu alegado sistema de comunicação. De acordo com a interpretação mais comum, elas conseguem, através de movimentos ritmados, circulares ou oscilatórios, veicular informação factual sobre a posição e a qualidade de fontes de alimento, de zonas com água, ou de locais onde fundar novas colmeias. Com um currículo tão impressionante, pertencerão estes insectos ao clube da consciência?
Griffin, impelido pelo princípio da parcimónia para interpretar como consciente
todo o comportamento animal que aparenta sê-lo, admite que, se aceitarmos a
comunicação como evidência de pensamento consciente, teremos que necessariamente atribuir algum nível de consciência às abelhas.24 Steven Wise, um advogado dedicado à
24
«All this communicative versatility certainly suggests that the bees are expressing simple thoughts». D. Griffin, Animal Minds, p. 194. Griffin defende ao todo três tipos de evidência para a atribuição de pensamento consciente a animais não-humanos: a adaptabilidade comportamental face a novos desafios (a qual já foi aqui aduzida); a provável correlação entre sinais fisiológicos cerebrais e mente consciente (o tipo de evidência que procurarei explorar no remanescente deste capítulo e no próximo); e a capacidade comunicativa, através da qual alguns animais parecem veicular os seus pensamentos a outros (como ele acredita ser o caso das abelhas). Cf. D. Griffin, Animal Minds, p. 27.
defesa legal e moral dos animais, é influenciado por Griffin e chega a conceder às abelhas o que denomina de autonomia prática: tal implica a capacidade mental para (1) desejar algo, (2) satisfazer os respectivos desejos de forma intencional, e (3) desenvolver um mínimo de auto-suficiência enquanto entidade consciente dos seus desejos e das suas acções.25
Tanto Langer como Damásio rejeitam este género de interpretações. Langer tende a acreditar que o comportamento dos insectos é puramente reactivo. Os seus movimentos parecem derivar de um extraordinário sistema de actividades reflexas complexas e estereotípicas, capazes de responder a vários desafios homeostáticos específicos, alguns bastante exigentes. Respeitando os estudos de Kenneth Roeder e D. M. Vowles, a autora refere que a inervação dos insectos não é tão integrada quanto a inervação dos vertebrados ou mesmo dos cefalópodes. O seu sistema nervoso é composto por gânglios (pequenos grupos de células nervosas) intervalados ao longo de um cordão nervoso que termina num minúsculo cérebro composto por vários gânglios interligados. Os poucos neurónios motores que possuem encontram-se descentrados na musculatura, o que faz com que os processos de excitação e inibição motora sejam extremamente periféricos. Também os neurónios que suportam os seus orgãos sensoriais escasseiam e não estão muito bem consolidados no sistema gangliónico.26
Os insectos não dispõem, pois, de um mecanismo neural capaz de monitorizar o estado integral do organismo. De tal modo que extensas secções dos corpos de várias espécies parecem não reagir à dor; é mesmo possível extrair parte do abdómen de uma vespa sem perturbar a sua alimentação, da mesma maneira que ser comido vivo por um louva-a-deus não é motivo para interromper a refeição de um gafanhoto.27 Perante tais
25
Cf. S. Wise, Drawing the Line. Science and the Case for Animal Rights, Cambridge/ Massachusetts, Perseus Publishing, 2002, pp. 32, 33, 81-86. A sua noção de autonomia prática é muito similar à noção de autonomia preferencial que Regan desenvolveu duas décadas antes, a qual veremos adiante (na secção 4.1 do primeiro capítulo da segunda parte).
26
Cf. K. Roeder, Nerve Cells and Insect Behavior, Cambridge/Massachusets, Harvard University Press, 1963; D. M. Vowles, «Neural Mechanisms in Insect Behaviour», in W. H. Thorpe e O. L. Zangwill (eds.), Current Problems in Animal Behaviour, Cambridge, Cambridge University Press, 1961, pp. 5-29. Segundo outro estudo referido por Langer (da autoria de A. D. Blest, o qual será abordado já em seguida), os ciclos de excitação ou inibição da actividade dos insectos manifestam pouca espontaneidade, sucedendo-se na sua esmagadora maioria em função de estímulos exteriores. Cf. S. Langer, Mind: an Essay on Human Feeling, Vol. II, pp. 26-30.
27
Cf. S. Langer, Mind: an Essay on Human Feeling, Vol. II, p. 54; D. DeGrazia, Taking animals seriously, pp. 110-112.
factos, os insectos muito provavelmente não acumulam a informação bioeléctrica e bioquímica suficiente para gerar sentimentos acerca das suas afectações externas ou internas. Por esse motivo, não conseguem tomar consciência dos estímulos que captam através dos seus orgãos sensoriais nem do que fazem em relação a esses estímulos.
O que dizer então da dança das abelhas? Se através de uma simbologia gestual elas conseguem realmente transmitir umas às outras factos complexos relativos às circunstâncias sempre variáveis dos desafios que enfrentam para suprir as necessidades da colónia, se assim é, então elas agem de forma sem dúvida flexível e criativa. No entanto, esta interpretação comportamental não pode estar correcta, se tivermos em conta as evidências da constituição corporal dos insectos que acabámos de ver. Baseada nessas evidências, Langer avança uma interpretação comportamental alternativa.
Recorrendo a um estudo de A. D. Blest, ela constata que certas espécies de traça manifestam igual rigidez na relação entre a distância voada e o número de oscilações executadas em cada uma das curtas corridas a direito que incessantemente repetem quando poisam – uma coreografia muito semelhante à das abelhas. Parece assim improvável que tais actos sejam comunicativos, já que ocorrem em animais não gregários.28 Langer avança a sua própria explicação: a dança das abelhas constitui uma
comunhão (communion) de meros sinais, sinais esses que não passam de sub-actos
pertencentes ao fim do acto total da colheita do néctar; esses sub-actos são executados por um ou mais indivíduos e transmitidos aos outros através da partilha de movimentos (cuja natureza depende das características do vôo), do cheiro ou paladar da colheita; os sub-actos percepcionados são assim incorporados na motivação dos indivíduos receptores, o que conduz ao início de novos actos totais, a um novo ciclo de expedições. Tratam-se de actos conjuntos (conjoint acts), algo bem diferente da
28
Cf. S. Langer, Mind: An Essay on Human Feeling, Vol. II, pp. 204, 205. É certo que esta coreografia em particular assemelha-se a apenas uma das duas coreografias que as abelhas executam quando se trata de procurar comida; no entanto, a coincidência não deixa de ser enorme: quer nas traças, quer nas abelhas, encontramos a mesma relação linear entre a distância voada e o número de oscilações. Cf. A. D. Blest, «The Evolution, Ontogeny and Quantitative Control of the Settling Movements of Some New World Saturniid Moths, with Some Comments on Distance Communication in Honey-Bees», in Behavior, XVI, 1960, pp. 188-253.
comunicação (communication) enquanto referência simbólica a actos ou factos –
enquanto transmissão intencional de ideias de um indivíduo a outro ou outros.29
3.2 – Os Argumentos de Damásio
A teoria de Damásio vem colmatar estas observações. Também ele defende que a perícia adaptativa dos insectos resulta de mecanismos homeostáticos automáticos, os quais podem ser desencadeados sem a supervisão do sentimento ou da consciência.30 Tais mecanismos incluem um vasto leque de respostas reflexas, de entre as quais se destacam as emoções. As emoções, para Damásio, são orquestrações de múltiplos processos corporais executados automaticamente quando o organismo reage à detecção de «estímulos-emocionalmente-competentes», isto é, quando se depara com certos objectos ou acontecimentos (no caso da nossa espécie, que somos dotados de memória, a presença desses objectos ou acontecimentos pode ser real ou recordada). As emoções, enquanto ocorrem a nível fisiológico, não devem ser portanto confundidas com os sentimentos, os quais, explica Damásio, emergem ulteriormente a partir das emoções.31
Respeitando esta ordem sequencial, as emoções exprimem o prelúdio operativo dos sentimentos, sendo que os sentimentos equivalem essencialmente a percepções mentais do estado do corpo no momento da sua resposta emocional a determinadas situações. Por sua vez, os sentimentos tornam-se conscientes quando são realçados pelo sentimento que o organismo tem de si próprio no acto de sentir – isto é, quando o proto-si representa-se a si mesmo a ser modificado pelas representações neurais que geram os sentimentos.
Desta forma, se aceitarmos a distinção damasiana entre emoção e sentimento, e se atendermos ao facto da inervação segmentada dos insectos não permitir a
29
Para a argumentação da autora, cf. S. Langer, Mind: an Essay on Human Feeling, Vol. II, pp. 201ss.
30
Referindo-se ao comportamento de moscas, Damásio escreve: «None of this organisms produce these reactions as a result of deliberation.[…]The organisms react reflexively, automatically, in a stereotypical fashion.» A. Damásio, Looking for Spinoza, p. 42.
31
sinalização adequada do que lhes acontece ou do que fazem, o que os torna muito provavelmente incapazes de sentir seja o que for, segue-se que não devemos atribuir a esses animais mais do que emoções: emoções sociais, no caso das abelhas. Isso não equivale a dizer, claro está, que parentes evolutivos tão distantes – o nosso antepassado comum viveu há cerca de 650 milhões de anos! – manifestem «simpatia» quando por exemplo oferecem néctar a larvas ou a outros adultos. Todavia, respeitando a explicação de Damásio, podemos perceber que os preceitos biológicos por detrás dos seus actos de cooperação pouco diferem dos preceitos que modulam as nossas próprias emoções sociais.
No que toca a nós, humanos, os sinais ligados à representação sensorial de um certo grupo de estímulos afectam determinados dispositivos neurais, e automaticamente são activadas as emoções sociais estereotípicas que bem conhecemos (orientadoras da interacção com outros indivíduos; por exemplo, as exibições de inveja, indignação, compaixão, culpa, vergonha, etc.). Damásio confere plausibilidade à hipótese segundo a qual, a um nível formal, os mesmos passos deste processo ocorrem no sistema gangliónico das abelhas e de outros insectos gregários.32
Muito a propósito, a sofisticação anatómica – mas não neural – dos orgãos sensoriais dos insectos apontada por D. M. Vowles e referida por Langer pode ajudar- -nos a compreender a sua desenvoltura emocional, extremamente eficaz na interpretação de estímulos. É aliás nesse sentido puramente somático que Langer reconhece a sensibilidade das abelhas, quando diz que elas «são emotivas, o seu humor é afectado pela temperatura e pela luz, mas sobretudo por actos executados em redor delas».33
Todas estas considerações dão fundamento à proposição empírica atrás avançada – em conclusão do que foi dito, podemos afirmar: Determinados animais não-
32
Sobre essa questão, Damásio escreve: «It remains difficult to accept, for anyone raised on the conviction that social behaviors are the necessary products of education, that simple animal species not known for their culture can exhibit intelligent social behaviors. But they do, and once again, they do not require that much brain to dazzle us. [S]afety in numbers, strength through cooperation, belt-tightening, altruism, and the original labor union. Did you ever think humans invented such behavioural solutions? Just consider the honeybee, small and very social in its hive society.». Damásio, Looking for Spinoza, pp. 47, 48.
33
«Bees are emotional, their moods are affected by temperature and light, but above all by acts going on around them». S. Langer, Mind: an Essay on Human Feeling, Vol. II, p. 206.
-humanos (insectos como as abelhas, e, por inferência, todos os animais que lhes precedem na escala da complexidade neurobiológica) muito provavelmente não satisfazem os requisitos mínimos (quer no plano neurobiológico, visto não possuirem um sistema nervoso capaz de recolher de forma competente os dados do organismo; quer no plano comportamental, já que o seu comportamento, por mais sofisticado que possa ser, parece denotar um carácter puramente reflexo e automático) para a produção de consciência.