A representação dos sistemas da carta de vegetação natural e seminatural (Fig.5) foi originada com base nos dados da série Corine Land Cover e as manchas que indicam o valor da vegetação para conservação (valiosa e muito valiosa) são provenientes de uma shapefile elaborada pelo Centro de Estudos de Arquitetura Paisagista (CEAP) do Instituto Superior de Agronomia.
Numa primeira vista sobre a carta de vegetação natural e seminatural, podemos verificar que o território é sobretudo dominado por florestas de folhosas e mista. Apreende-se, também, rapidamente,
Fig.5 Carta de Vegetação Natural e Seminatural ( Corine Land Cover) e o seu Valor Ecológico (CEAP, Instituto Superior de Agronomia).
que a porção do território a Sul do Tejo apresenta maior área florestada, com manchas maiores e mais contíguas. Estas manchas de floresta de folhosas na região do Ribatejo, correspondem sobretudo à distribuição de sobreiro Quercus suber em ecossistemas de montado. Os montados têm um papel muito relevante no território da RLVT, não só pela sua área de distribuição, mas porque constituem sistemas seminaturais de elevada importância ambiental e socio-económica.
Os montados são sistemas polivalentes que abrangem uma quantidade significativa de diferentes habitats, variando entre floresta cerrada até ao campo aberto, albergando uma biodiversidade de elevada riqueza (Silva, 2007). A intervenção do homem, particularmente no subcoberto tem, também, um impacto positivo na diversidade de espécies faunísticas que aqui se encontram (Pereira, Bugalho & Caldeira 2008; Onofre 2007) . Por exemplo, o montado com seara, de subcoberto denso, é um local de caça preferencial para aves de rapina como, o tartaranhão-caçador Cirus pygargus, o peneireiro- cinzento Elanus caeruleus ou a águia-imperial-ibérica Aquilla adalbertii que aqui procuram presas como o rato-das-hortas Mus spretus ou a lebre (Onofre, 2007). Já um subcoberto de pastagem, mantido rasteiro pelo gado, favorece a presença do coelho-bravo e roedores como o leirão Eliomys quercinus e o ameaçado rato-de-Cabrera Microtus cabrerae, que atraem também outras aves de rapina nomeadamente a águia-cobreira Circaetus gallicus, a águia calçada Hieraaetus pennatus, a águia-d’asa-redonda Buteo buteo, a coruja-dos-matos Strix aluco e o mocho-galego Athene noctua (Onofre, 2007). Por outro lado, zonas de matos altos, onde a intervenção humana é mais escassa, propiciam a tranquilidade necessárias para a nidificação da grande maioria das rapinas, nas quais se incluem a águia-de-Bonelli Hieraaetus fasciatus, o abutre-preto Aegypius monachus, os corvídeos, como o gaio Garrulus glandarius e a rara cegonha-preta Ciconia nigra. Ao nível do solo são frequentes o coelho-bravo, o texugo Meles meles e o javali, e répteis como a osga-comum Tarentola mauritanica, a cobra-lisa-bordalesa Coronella girondica e a cobra-rateira Malpolon monspessulanus (Onofre, 2007).
O carácter polivalente do montado, permite que nele se desenvolvam uma série de atividades nomeadamente de extração de cortiça ou lenha, nas zonas de floresta mais cerrada, como também a pastorícia, turismo rural e eco-turismo, nas zonas de campo aberto. A apicultura, outra atividade comum no montado, beneficia de alguma variedade de plantas com flor que aqui ocorrem nos campos, como a esteva Cistus ladanifer, a madressilva Locinera, spp., o rosmaninho Lavandula luisieri, o tojo Ulex spp. e as urzes Erica spp.(Vasconcelos & Branco, 2007). A caça, por seu lado, tira partido de espécies com interesse cinegético, nomeadamente o coelho-bravo Oryctolagus cuniculus, a lebre Lepus granatensis, a perdiz-vermelha Alectoris rufa e o pombo-torcaz Columba palumbus, até ao javali Sus scrofa e o veado Cervus elaphus (Rêgo et al. 2008; Carvalho, 2007).
No que toca à indústria da cortiça concretamente, Portugal tem um merecido lugar de destaque a nível global. Segundo a Quercus, em apenas 8% do território nacional, produz-se mais de metade da cortiça em todo o mundo. No caso da RLVT, o concelho de Coruche é um importante produtor de
cortiça no país. Segundo a página da internet do município de Coruche, neste concelho apenas, é produzida cerca de 10% da cortiça a nível nacional.
Ainda a Sul do Tejo destacam-se na carta, manchas relevantes de floresta mista, espalhada um pouco por toda a área e de resinosas, em contacto com o litoral, mais próximas da Serra da Arrábida. As duas espécies de árvores predominantes nestes dois tipos de floresta são o pinheiro bravo e o pinheiro manso. Na zona do Ribatejo, as manchas correspondentes à floresta mista, constituem sobretudo sistemas de montado misto, isto é uma mistura de sobreiro com pinheiro. De facto, a exploração sustentável do montado, exige medidas que promovam a sua renovação; assim, nos últimos 10 anos foram implementadas uma série de políticas financeiras de incentivo à plantação de sobreiro em sistemas mistos com pinheiro, de modo a que os proprietários pudessem potenciar a rentabilidade das suas explorações florestais (Pereira & Costa, 2007). Embora a área coberta por pinheiro bravo ainda seja significativamente superior à de pinheiro manso, a verdade é que o pinheiro manso tem vindo a ganhar expressão sobretudo devido à valorização da sua semente, o pinhão, que é, atualmente, a sua principal fonte de rendimento (Costa, 2007, p. 111).
De um modo geral a floresta de resinosas é alvo de pouco interesse para conservação já que, a maioria dos pinhais, sobretudo pinheiro-bravo, se destina à exploração de madeira. Assim, naturalmente, a biodiversidade nas florestas de resinosas é significativamente inferior à das florestas de folhosas (Correia, Oliveira & Fabião, 2007, p28). Apesar de tudo, na RLVT existem uma série de importantes pinhais, muitos deles incluídos no regime de Matas Nacionais, dos quais dependem uma diversidade de espécies. A grande variedade de tipologias de pinhal e contextos territoriais onde se encontram inseridos, tem impacto na sua biodiversidade. Por exemplo, enquanto que no Pinhal da Apostiça inserido na Mata Nacional dos Medos, sobre a Paisagem protegida da Arriba fóssil da Costa da Caparica, se podem observar espécies de aves como a Pega-azul, a cotovia-pequena ou o papa- -moscas-cinzento, no pinhal da Quinta da Marinha por outro lado, ocorrem espécies como a toutinegra-de-barrete-preto, o chapim-preto e a felosa-comum (Pena & Cabral 1991, p. 70).
Alguns pinhais importantes da RLVT estão inseridos nas Matas Nacionais: do Escaroupim, das Virtudes, do Cabeção, da Trafaria e Caparica, dos Medos, da Lagoa de Albufeira, da Machada, da Vila do Bispo, da Arrábida, do Vimeiro, das Mestras, do Valado dos Frades, dos Sete Montes e da Quinta da Serra, embora existam outros pinhais relevantes não abrangidos por Matas Nacionais. Num primeiro olhar sobre a carta identificam-se rapidamente duas manchas de floresta de resinosas que se destacam pela sua dimensão. Uma delas, mais a Sul, junto ao litoral, corresponde aos pinhais que envolvem a Lagoa de Albufeira, considerada paisagem protegida. Por esse mesmo motivo, são pinhais com importância ecológica relevante e, portanto, estão marcados (parcialmente) como vegetação com muito valor para conservação. A outra mancha encontra-se junto ao litoral no limite Norte da RLVT. Tratam-se dos pinhais de Alcobaça-Nazaré que, muito embora, não se encontrem
marcados como zonas com interesse para conservação, segundo o relatório de monitorização e avaliação do Plano Regional de Ordenamento do Território do Oeste e Vale do Tejo (2009, p. 83), possuem zonas com valores naturais importantes.
A Norte do Tejo a floresta é constituída sobretudo por pinheiro bravo e, com maior expressão, por eucalipto. Segundo os dados do Inventário Florestal Nacional da DGRF de 1972 e os dados do COS90 de 1990, a expansão da floresta de Eucalipto aumentou cerca de 50% na zona Oeste. Dos vários motivos socio-económicos que fundamentam a expansão deste tipo de floresta, o principal deve-se sobretudo à boa localização da região em relação às fábricas de celulose de Setúbal (fábrica da Portucel), Vila Nova da Barquinha (fábrica da Caima) e Figueira da Foz (fábricas de Celbi e Portucel) (DGRF, 2006, p. 21). Do ponto de vista ecológico, a floresta de eucalipto é pouco interessante. Mesmo quando cultivada em ciclos longos, tendendo a naturalizar-se nos ecossistemas, a espécie continua a ter um carácter exótico estabelecendo escassas relações tróficas sobretudo com as espécies animais (Silva et al., 2007, p. 228). Ainda assim, se atentarmos à carta em questão, podemos verificar algumas manchas importantes de floresta de folhosas consideradas muito valiosas para conservação. Estas manchas de floresta estão geralmente associadas a carvalhais que constituem importantes povoamentos de Quercus suber, Quercus pyrenaica e Quercus faginea broteiroi. Esta última subespécie de carvalho Português está bem adaptada a solos calcáricos que outras espécies como o pinheiro bravo ou o sobreiro tendem a evitar. Na RLVT verifica-se a sua distribuição sob os solos do maciço calcário estremenho, com povoações muito relevantes na Serra da Arrábida, de Sintra, Montejunto e de Aire e Candeeiros (Capelo & Catry, 2007, p. 86).
A variedade de paisagens da RLVT inclui vários biótopos de características singulares, que albergam várias espécies de fauna e flora protegidos. Alguns desses biótopos correspondem à Serra da Arrábida, de Monte Junto e de Aire e Candeeiros. Na carta de vegetação verificam-se importantes manchas de vegetação esclerófila, com valor para conservação (manchas laranja com trama verde clara sobreposta), que se localizam nessas três áreas. De facto, Serra de Montejunto e a Serra de Aire e Candeeiros pertencem à mesma região biogeográfica do Superdistrito Estremenho (Costa et al., 1998) e, consequentemente, partilham quase todos os seus habitats classificados, no entanto, quase metade destes habitats verificam-se também na Serra da Arrábida2,nomeadamente:
5230 - Matagais arborescentes de Laurus nobilis * 5330 - Matos termomediterrânicos pré-desérticos
6110 - Prados rupícolas calcários ou basófilos da Alysso-Sedion albi *
6210 - Prados secos seminaturais e fácies arbustivas em substrato calcário (Festuco-Brometalia) (*importantes habitats de orquídeas)
6220 - Subestepes de gramíneas e anuais da Thero-Brachypodietea * 8240 - Lajes calcárias *
9240 - Carvalhais ibéricos de Quercus faginea e Quercus canariensis 9340 - Florestas de Quercus ilex e Quercus rotundifolia
Embora estas três serras partilhem condições edafoclimáticas comparáveis, não deixam por isso, de ter as suas particularidades. As Serras de Aire, Candeeiros e Montejunto partilham grande parte do seu valor florístico e faunístico. Nas Serras de Aire e Candeeiros é possível encontrar cerca de 600 espécies de plantas espontâneas, que constituem cerca de um quinto da lista total de espécies autóctones que ocorrem em Portugal; por outro lado na Serra de Montejunto ocorrem 400 espécies espontâneas (ICNF). Sabe-se hoje que a intervenção humana na paisagem da Serra de Aire contribui para a manutenção de alguns habitats e espécies mais raras através de atividades serranas, como a pecuária, que mantinham os matos controlados permitindo o desenvolvimento de importantes espécies herbáceas (Martins & Lucas, 2012). Também os vários quilómetros de parcelas de olivais extensivos que caracterizam as Serras de Aire e Candeeiros, constituem um importante sistema de paisagem agrícola de elevado valor ecológico (CCDRLVT, 2008a., p. 119). Os muros de pedras que delimitam as parcelas, as sebes e até as cavidades das oliveiras centenárias, contribuem para o aparecimento de espécies de plantas raras, aves e morcegos arborícolas (Davy, Russo & Fenton, 2007). A Serra da Arrábida, por seu lado, constitui um biótopo único no mundo devido ao facto da sua vegetação partilhar origens paleomediterraneas e/ou paleotropicais (Costa et al. 2005, p. 9–10). Esta singularidade, aliada às condições particulares da serra como a taxa elevada de precipitação anual, ausência de granizo e solos calcáricos, possibilitaram a ocorrência de endemismos que não se encontram em mais nenhuma parte do mundo nomeadamente: Convolvulus fernandesii e Euphorbia pedroi (Costa et al., 2005, p. 9–10).
Verificam-se, também, duas importantes manchas que assinalam vegetação com elevado valor para conservação, que se sobrepõem ao estuário do Tejo e ao estuário do Sado, ambos com estatuto de área protegida. Os sapais, biótopos constituintes dos estuários, caracterizam-se por zonas alagadas de água salgada nas quais se pode verificar uma grande biodiversidade por constituírem habitats de transição entre sistemas terrestres e aquáticos, permitindo a confluência de espécies destes dois meios. A vegetação terrestre associada aos sapais é composta por espécies adaptadas às condições exigentes de salinidade e da ação das marés, que submetem a vegetação a níveis de imersão irregulares. Embora a vegetação halófita (vegetação adaptada às condições de salinidade) desempenhe um papel importante nos sistemas de sapais, por exemplo, proporcionando abrigo às aves estuarinas, são, na verdade, as espécies aquáticas, como as algas, as principais responsáveis pelas transferências de energia que ocorrem nos sistemas de sapal. As espécies aquáticas funcionam como alimento, abrigo e local de reprodução para várias espécies de peixe que participam nas cadeias tróficas e muitos dos quais, com valor comercial (Calvário, 1982, p. 153).
De acordo com o Plano de Ordenamento da Reserva Natural do Estuário do Tejo (ICNF, 2007a.), o sistema de sapal do Estuário do Tejo, desenvolve-se segundo 3 zonas:
- Sapal baixo - é constituído por espécies típicas deste tipo de formação, como a Spartina maritima ou
Spartina stricta (erva-morraça), uma espécie pioneira com elevada tolerância aos períodos de imersão e cuja função de consolidação e congregação dos sedimentos é importante; ocupa os fundos subtidais que só nas marés vivas ficam a descoberto;
- Sapal de transição – ocupa a faixa mesotidal, apresentando espécies como Halimione portulacoides; - Sapal alto – ocupa a faixa supratidal, sendo constituído por um conjunto de espécies designadas
como gramata: Scirpus maritimus, Sarcocornia fruticosa, S. perennis, Arthrocnemum glaucum, Suaeda vera, Aster tripolium, Salicornia nitens, Puccinellia maritima, Inula crithmoides, Limonium vulgare e Atriplex halimus.
Relativamente à Reserva Nacional do Estuário do Sado, inserida no Superdistrito Sadense, que constitui o limite norte Português da ocorrência de comunidades de sapal mediterrânico, podemos ler no plano de ordenamento desta reserva (ICNF, 2007b.) que, no sapal alto, ocorre uma importante comunidade Frankenia laevis - Salsola vermiculata e, nos bancos subaquáticos Cymodoceetum nodosa.
Uma outra zona onde se pode encontrar uma grande diversidade de espécies vegetais, muitas delas com elevado valor ecológico, é a Serra de Sintra. Na Serra de Sintra é possível observar uma coleção significativa de vegetação exótica, importada durante o século XIX, no romantismo, época caracterizada pelo gosto particular pela Natureza e Ciência, com a finalidade de embelezar os parques, quintas e palacetes que constituem hoje em dia as mais importantes atrações turísticas da localidade. É natural, portanto, que o senso-comum associe à vegetação da Serra de Sintra um certo exotismo, muito embora esta região constitua um dos mais importantes sistemas naturais a nível nacional. De facto, os solos siliciosos de origem granítica e sienítica, inseridos num contexto regional de litologia calcária e a proximidade do mar, que lhe confere um clima oceânico, são codições que permitiram o desenvolvimento de vegetação com carácter reliquial como Quercus robur, Acer pseudoplatanus, Ilex aquifolium, Hypericum androsaemum, Polygonatum odoratum, Primula vulgaris, Trachelium caeruleum, Cytisus striatus var. eriocarpus e Ulex europaeus subsp. Lactebracteatus (Costa et al., 1998). Nas zonas húmidas das encostas da serra podem observar-se ainda espécies ameaçadas como o feto dos carvalhos Davallia canariensis, feto-de-folha-de-hera Asplenium hemionitis e árvores da floresta autóctone como freixos, amieiros, aveleiras, salgueiros e mesmo ulmeiros3.
Ainda de acordo com o ICNF encontramos, na faixa litoral, dunas com vegetação de máximo valor para conservação como aquelas em que se verificamiosótis-das-praias Omphalodes kuzinskyanae e no Cabo da Roca, importantes comunidades de cravo-romano Armeria pseudarmeria, de cravo-de- sintra Dianthus cintranus cintranus que, a par com a espécie Silene cintrana, são, segundo Costa et al. (1998) endemismos exclusivos do Superdistrito Sintrano.
Para terminar esta breve interpretação da carta de vegetação da RLVT, não podia deixar de fazer uma referência ao singular sistema natural da ilha da Berlenga. Como se pode verificar na carta, a vegetação da ilha da Berlenga é constituída sobretudo por prados com muito elevado valor para conservação. De facto, fatores como a exposição a ventos fortes carregados de salsugem a que a ilha está submetida, aliados a solos pouco desenvolvidos e superficiais, condicionam a presença de floresta e outra vegetação de maior porte (Tauleigne Gomes et al., 2004). Se por um lado, estes fatores adversos condicionam potencialmente a diversidade de vegetação, por outro, deram origem a espécies altamente adaptadas, muitas das quais endemismos exclusivos da ilha da Berlenga, nomeadamente Armeria berlengensis, Herniaria berlengiana, Pulicaria microcephala. Embora com uma população estável, estas 3 espécies encontram-se em estado de conservação vulnerável dada a sua pequena área de distribuição. Atualmente uma das maiores ameaças ao sistema natural da Ilha das Berlengas é a disseminação da espécie invasora chorão, Carpobrotus edulis que devido à sua capacidade de produção e dispersão de sementes entrou em competição, não só com os endemismos, mas com as espécies autóctones no geral, colocando em causa o equilíbrio dos sistemas (Tauleigne Gomes et al. 2004).