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Approches d'adaptation globale des présentations multimédia

Architectures d’adaptation multimédia

2. Classification des approches multimédia

2.1. Critères de classification des approches multimédias

2.2.2. Approches d'adaptation globale des présentations multimédia

A questão do aborto surgiu em três momentos durante os depoimentos colhidos. Um caso, em particular, foi de uma morte materna por aborto provocado e a mãe da mulher falecida descreveu, em detalhes, suas percepções acerca desta causa, assim como da assistência recebida no hospital até o óbito propriamente dito.

A perspectiva de criar outro filho no momento em que os planos de vida incluíam uma mudança para o exterior com o namorado fez com que uma moça, aos 27 anos, com dois filhos de pais diferentes em sua trajetória, interrompesse a terceira gestação, não desejada, em período avançado de gravidez, e isso lhe custou a vida.

Foi colocar sonda pra abortar o neném, porque ela tava mais ele [namorado] com a intenção de ir pra Espanha, já tinha arrumado serviço, que eles falaram. Eu acho que foi incentivo dos dois. Porque os dois ia viajar. Eles tava combinando de ir viajar, pra trabalhar lá [Espanha] e depois ou vim buscar os menino [dois filhos da falecida] ou mandar dinheiro pra mim cuidar dos menino até eles fazer o pé de meia deles.

(caso 5, solteira, 27 anos, ensino médio).

De acordo com Heilborn et al. (2012), quando uma gravidez inesperada ocorre, a determinação sobre seu desfecho ou curso é baseada no exame da situação. Esses processos decisórios sobre o aborto envolvem relações que não vigoram somente na dimensão do casal, mas naquelas nas quais o homem não participa em momento algum da realização ou não do aborto (mesmo sabendo da gravidez) e em outros

casos, onde há participação do núcleo familiar e/ou de amigos. O homem, muitas vezes, constitui um dos meios que viabiliza o repasse de informações e formas para interromper a gravidez. No caso apresentado, conforme sugere o relato da entrevistada, percebe-se que houve uma decisão do casal de interromper a gestação para manter os planos de vida previamente estabelecidos.

A criminalização do aborto leva a mulher a ocultar sua prática até de pessoas mais próximas. Neste caso, a mãe relata o seu total desconhecimento quanto à gestação e aborto da filha.

Eu [mãe da falecida] não sabia nem que ela [falecida] tava grávida. Eu não sabia. Fui saber no dia que ela faleceu. Ela saiu de manhã e falou: Mãe tô sentindo uma dor muito forte, na barriga. Na barriga não, na coluna e falou: eu vou lá [no hospital] e saiu com o namorado dela. E o namorado dela, quando foi nove e meia da noite, eu tava esperando ela pra sair pra fazer compra, comprar as coisa pro menininho dela que era neném, né? Praticamente. O leite, os trem dele. Ela [falecida] falou: Pode me esperar. Nós vamo lá embaixo, que é no cartão. A senhora me espera, fica arrumada. Ela [falecida] saiu era seis e meia da manhã. Ela passou mal a noite inteira, ficou deitada assim no sofá. Eu falei: O quê que cê tem? Ela falou: Tô passando mal. Mas pra mim ela não me disse nada que tava grávida. Ela me escondeu o tempo todo. Porque não tava parecendo que ela tava grávida. Que ela tava tomando remédio pra emagrecer. Quando ela sentia que tava ficando gorda, ela ia pro médico fazer coisa pra emagrecer. Ela não aceitava ser gorda. Então deu naquela época que ela tava tomando aqueles remédio. Aí como que eu ia [saber], né? (...) Nós [familiares] ficou sabendo depois pelo um telefonema do celular dela. Nós pegamo na época, uma ligação perguntando se tinha dado certo. Aí eu falei: a J faleceu. Aí desligou. Aí pela uma colega dela que falou: Ó a J [falecida] falou pra mim que tava grávida. Foi abortar o neném, foi colocar... eu esqueço o nome que a mulher aborta... sonda! (...) Foi através desse telefonema, que nós ficamo sabendo. (...) foi pra fundo de farmácia fazer isso [aborto], um rapaz que fazia aborto de mulheres na época, mas nós não sabia nem aonde, nem local, nem nada.

(caso 5, solteira, 27 anos, ensino médio).

Após seis anos do falecimento a mãe analisa que a assistência recebida pela filha na ocasião da morte não foi suficiente para evitá-la. Ao descrever a sua percepção dos fatos ela menciona que já tinha ouvido dizer que nos casos de aborto provocado, mesmo procurando atendimento médico, a mulher fica “jogada até morrer”. Na sua descrição o aborto é visto criminalizado pelos profissionais de saúde e a não assistência ou atraso de atendimento em momento oportuno acabaram por contribuir para o óbito.

Olha, eu fiquei triste porque eu acho que eles [profissionais da saúde] deixaram ela morrer. Eu penso, sabe porque? Por causa disse que ela ficou

jogada muito tempo, uma moça uma vez falou com a minha menina que teve uma época eu acho que saiu até no jornal, se não me engano que eu vi falando, (...) que quando a mulher provoca aborto, eles deixa as pessoa jogada até morrer. Eu achei que com ela foi muito assim... ela esperou muito. Fiquei sabendo que ela esperou muito. Eu achei assim que... sabe? Ela saiu boa, andando daqui, e disse que ia no médico, ficou o dia inteiro... eu não entendi, disse que tava no médico, né? Então é engraçado, deve ter chegado no médico, feito hora pra poder é... atender ela.

(caso 5, solteira, 27 anos, ensino médio).

Alves (2000) discute essa observação considerando a condução diferenciada de outras intervenções obstétricas pelos profissionais de saúde, e nos casos de aborto provocado ou legal. Contrapondo ao nascimento, considerado positivo, um ganho, existe o aborto, visto como algo negativo, uma perda. E nas situações de indução de aborto a responsabilização recai sobre a mulher e os relatos de descasos, retardo na resolução do quadro clínico, associados às posturas punitivas por parte da equipe de saúde (médicos/as, enfermeiras e auxiliares de enfermagem) são comuns. Outro estudo corrobora essa análise e aponta a existência de uma clara distinção moral entre as candidatas ao abortamento legal, pacientes “legítimas” e as mulheres que chegavam ao hospital com um abortamento incompleto, “clandestinas”. A atitude punitiva de profissionais da saúde com as pacientes que tinham induzido o aborto fazia com que elas fossem esquecidas e deixadas sangrando durante horas (ZORDO, 2012).

Outro momento em que o tema aborto surgiu nas entrevistas foi num caso de gestação na adolescência. Descrevendo as dificuldades vivenciadas por uma jovem após anunciar o diagnóstico de gravidez, uma entrevistada revela a grande pressão do parceiro para realizar o aborto. O depoimento retrata a fragilidade da adolescente diante de uma gestação desejada, mas imprevista e não aceita pelo namorado e pai da criança. A decisão de ceder ou não à vontade do parceiro foi relatada:

O pai [da criança] que é daqui próximo começou a desprezá-la. Ele teve a intenção de abortar e deu a ela [falecida] remédios. Ela [falecida] apareceu aqui com os medicamentos logo no começo [da gravidez]. Nós fomo contra. Eu lembro que o P [marido da entrevistada] falou: Aqui você [falecida] não vai tomar isso! E ela não queria, mas você via que ela tava dando o grito, como se fosse assim: me ajuda, me socorre! Eu tenho que tomar isso, mas se alguém falar não tome, eu não tomarei, sabe? Tanto é que assim que ele [marido da entrevistada] falou ela jogou fora. Era uma bebida, depois apareceu com um comprimido, depois eu acho que ela chegou a tomar um sabe? Mas graças a Deus o A [filho da falecida] é muito inteligente, não teve nada.

Retomando os comentários sobre a perspectiva de uma efetiva abordagem em saúde sexual e reprodutiva, com acesso às informações adequadas, assim como de uma assistência específica no pré-natal, o caso descrito exemplifica uma clara situação de vulnerabilidade às complicações do aborto e gestação. A falta de apoio emocional da mãe e do parceiro fez com que essa adolescente se ancorasse nos tios como um refúgio para dar continuidade à sua gravidez. Nesse sentido, cabe uma reflexão: Em nenhum momento, conforme o relato da familiar, houve, por parte dos profissionais que assistiram essa adolescente, a preocupação para além dos cuidados obstétricos do pré-natal habitual. Onde está o papel da assistência integral em garantir a esta jovem uma maternidade segura, que contemplasse realmente o bem-estar materno-fetal?

O Ministério da Saúde, no Manual sobre a Gestação de Alto Risco esclarece que a adolescência, em si, não é fator de risco para a gravidez. Todavia, na possibilidade de risco psicossocial associado à aceitação ou não da gravidez, como nos casos de tentativa de interrupção, onde há reflexos sobre a vida da gestante, o profissional deve atentar para as peculiaridades desta fase e considerar a possível imaturidade emocional, providenciando inclusive acompanhamento psicológico (BRASIL, 2010b). Em Belo Horizonte, no que tange à gestação adolescente, as recomendações da SMSA-BH seguem essa proposta do Ministério da Saúde (BELO HORIZONTE, 2008a). Entretanto, muito pouco é publicado e/ou avaliado.