4.2 Influence d’un gradient ionique en face arri`ere d’une cible solide141
4.2.2 Approche th´eorique et d´eferlement ionique
Um dos atos políticos que contribuiu para a insurgência da população do Bairro Dom Bosco foi o anúncio do fechamento da Escola Estadual Dom Orione. A comunidade possuía um elo muito forte com a escola onde se formaram inúmeros moradores do bairro. A mesma já havia sido considerada Escola Modelo de Juiz de Fora, funcionando durante os turnos da manhã, tarde e noite.
O argumento apresentado pela Superintendência Estadual de Ensino de Minas Gerais para o fechamento da escola foi o baixo número de alunos matriculados no ano de 2009. No entanto, o fechamento, bem como o número de matriculas serão entendidos aqui como parte de um processo histórico que envolveu a comunidade, o Estado, os promotores imobiliários e a Igreja. Esta última dona do prédio alugado pelo Estado onde funcionava a escola.
Como foi visto, a área onde se localiza o Bairro Dom Bosco passou por um processo de alta valorização imobiliária a partir da década 1990. Esse processo aguçou o instinto capitalista dos promotores imobiliários, que viram na área onde se localiza a escola, uma ótima oportunidade de ganhar dinheiro. A Igreja, por sua vez, parece ver a valorização da área com bons olhos, afinal o Instituto Profissional Dom Orione, proprietário do prédio da ex-escola Dom Orione não paga Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU), sendo assim ela só tem a ganhar com a valorização de seus bens. O Governo Estadual por sua vez, tem fundamental participação no baixo índice de alunos matriculados na Escola. Como dito, a Escola Estadual Dom Orione carregava consigo a tradição de ser uma das melhores escolas públicas da cidade. E aqui cabem algumas perguntas: Quais seriam os pais que deixariam de colocar seus filhos numa das melhores escolas públicas da cidade? Se a população do Bairro Dom Bosco não diminuiu ao longo dos anos, pelo contrário, aumentou, por que o número de alunos diminuiu?
O processo que levou ao baixo número de alunos matriculados na escola não se deu da noite para o dia, foi fruto de um longo processo de descaso do governo do Estado de Minas Gerais. Até o ano de 2004 a escola possuía mais de 500 discentes. Em 2005 foram fechadas as matriculas para o turno da noite devido à falta de verba. A negligência do Estado fez com que a escola chegasse a tal precariedade física e pedagógica que os pais dos alunos começaram a transferir seus filhos para
outras escolas. Afinal, quem colocaria seus filhos para estudar numa escola sem luz nas salas, sem portas nos banheiros e nas salas de aula, sem merenda e, muitas vezes, até mesmo sem professores? Para esta pergunta a resposta é: famílias que não possuíam condições de locomoverem com seus filhos até as escolas mais próximas. Cabe ressaltar que o número de crianças e adolescentes que não se matricularam em escola alguma cresceu substancialmente no bairro a partir de 2005. No final do ano de 2007 boatos de que a escola iria fechar começaram a rondar a comunidade, que se mobilizou e conseguiu marcar uma reunião com a Superintendência de Educação do Estado de Minas Gerais. Nessa reunião além da comunidade e da superintendência, esteve presente a diretora da escola. Ficou decidido que o Governo do Estado iria revitalizar o prédio no intuito de atrair novos alunos. O ano letivo de 2008 começou e nenhuma reforma foi realizada no prédio.
Em outubro de 2008, ainda na eminência de fechamento da escola, a comunidade realizou um mutirão para pintar a fachada do prédio na tentativa de sensibilizar o poder público estadual. De nada adiantou, as promessas continuaram, até que no ano de 2009, no meio do ano letivo, a superintendência de ensino anunciou que a escola fecharia as portas em agosto, logo após as férias de julho. Para a comunidade não restou outra saída a não ser ganhar as ruas e lutar por seus direitos. Aqui, cabe destacar a participação das mulheres do bairro. Como se não bastasse a jornada dupla de trabalho, estas mulheres se mobilizaram e ganharam as ruas para defender a educação de seus filhos. Assim, começou um grande processo de mobilização da comunidade que contou com o apoio do Conselho Tutelar, de entidades do movimento estudantil, do Sindicato dos Professores Estaduais (Sind- UTE), do Comitê Central Popular, da Associação Beneficente Amigos do Noivo (Aban), da seção local da Associação dos Geógrafos Brasileiros e outras entidades da cidade. Mas e as entidades locais como as Associações de Moradores? Estas sofriam com um grave processo de burocratização e cooptação. Quase todas eram dirigidas por moradores apadrinhados por vereadores ou pelo próprio prefeito. A falta de autonomia política dessas entidades as transformavam em grandes aliadas daqueles que constituem a classe opressora. Essas lideranças não se reconheciam enquanto classe trabalhadora, logo não atuavam em prol da mesma. São pessoas que se conformavam com práticas assistencialistas e colaboravam para a perpetuação da lógica coronelista. Foram realizadas diversas reuniões, algumas chegaram a contar com a presença de mais de 150 pessoas, além de passeatas que
ganharam as ruas do bairro. As entidades locais (exceto a Aban) só compareceram na reunião em que estiveram presentes representantes do poder legislativo de Juiz de Fora.
Em setembro de 2009 a escola deixou de funcionar. Atualmente, O Instituto Profissional Dom Orione, dono do prédio onde funcionava a escola, arrendou a área para uma faculdade particular. Para a comunidade ficou o legado da luta e o desafio de se organizar, pois mais enfrentamentos virão a acontecer.
Atualmente, os jovens do bairro, quando chegam ao segundo ciclo do ensino fundamental, são obrigados a se deslocarem por distâncias consideráveis para buscar vagas em escolas públicas de bairros vizinhos. O que dificulta o dia a dia da vida familiar (Figura 19).
Figura 19 – Deslocamentos realizados na busca por vagas em escolas públicas de bairros vizinhos ao Dom Bosco
4.3 QUANDO O DIREITO DE SE REPRODUZIR PASSA PELA NECESSIDADE DE