3.3 Traitement des donn´ees
4.1.1 Approche qualitative des ph´enom`enes
3. O “faroeste caboclo” e a Nova Era: breve histórico e alguns
contrastes de Alto Paraíso
Antes de entrar propriamente na vida da família com a qual convivi, entendo que seja imprescindível um olhar para a história de Alto Paraíso de Goiás e suas diferentes ondas migratórias, que deixaram, cada uma, sua contribuição para o momento atual, produzindo as condições nas quais a família se desenvolve localmente. Não tenho a pretensão de produzir uma história da Chapada dos Veadeiros. Não fiz pesquisa sobre as genealogias de fazendeiros goianos nem sobre as populações descendentes de escravos e garimpeiros, por exemplo. Meu intuito é situar o leitor em um ambiente peculiar, a Alto Paraíso de seus muitos chegantes. Nas palavras do brasileiro/gaúcho Tantro: “uma encruzilhada cósmica”. Um lugar caracterizado pelos encontros e desencontros entre a expansão da fronteira agrícola do Brasil e as aspirações pela nova civilização.
O nordeste de Goiás entra na história do Brasil em virtude das descobertas de ouro no alto rio Tocantins. A corrida pelo ouro no final do século XVIII atraiu os primeiros colonos brancos e mestiços que tiveram suas terras concedidas gratuitamente em regime de sesmarias (Bertran, 1994). A exemplo de outras regiões sertanejas do país, como observa Darcy Ribeiro (1995: 338), distantes do poder central (localizado na costa leste) desenvolveram-se núcleos de poder em torno das figuras despóticas dos latifundiários que se confundiam localmente com o próprio poder público e disputavam as terras entre si.
No século XX, essa porção do “far West” brasileiro foi palco de grandes transformações em virtude da construção de Brasília, da expansão da fronteira agrícola e da criação do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Esse novo
momento intensificou o fluxo de imigrantes brasileiros e estrangeiros para a região, bem como tem provocado o deslocamento de pequenos agricultores para as cidades, proporcionando situações contrastantes. Ainda hoje, em Goiás, desavenças políticas são resolvidas à bala, como me confidenciou um funcionário público: "não importa o cargo do cara, pode ser vereador, prefeito, delegado, se pisar demais no calo dos outros, leva chumbo"!
É nesse ambiente de terras disputadas, habitadas por descendentes de colonos, índios e escravos, um “faroeste caboclo”, como diria o poeta brasiliense Renato Russo, que os buscadores de uma Nova Era instalam seus projetos de transição. Os chegantes de várias partes do planeta carregam seus sonhos e levam à Chapada suas tentativas de vida comunitária, novas práticas terapêuticas e alimentares, uma cultura ecológica e rituais para celebrar o estilo de vida freak. A pequena cidade do interior recebeu bem esses chegantes, mas com ressalvas. Grandes projetos, como um aeroporto e hotéis destinados ao turismo de massa, foram abandonados – dizem que repelidos pelo magnetismo dos cristais. Outros tantos aventureiros chegam sem grandes pretensões e nunca mais vão embora – porque foram cortados (logo aceitos) pelos cristais.
Na biblioteca municipal, em meus primeiros dias de campo em dezembro de 2010, fui atendido por Fátima, funcionária da prefeitura e entusiasta da história local. Ela, que é nativa de Alto Paraíso, indicou-me as leituras disponíveis; invariavelmente, conteúdos produzidos por chegantes. Existe na cidade a separação entre nativos, alternativos e os de fora. Os nativos são aqueles descendentes de famílias já estabelecidas há muito tempo na região; nesse grupo se confundem outros goianos e brasileiros incorporados à sociedade local. Os alternativos ou chegantes são os
estão assimilados à paisagem local, com suas roupas largas e coloridas, seu misticismo e suas línguas estrangeiras. Os de fora são geralmente os turistas, empresários do turismo não associados aos grupos “locais”, viajantes a trabalho, e outros visitantes que passam curtas temporadas sem demonstrar conexão com nativos ou alternativos.
Na primeira metade do capítulo, apresento uma história de Alto Paraíso que tem como eixo central o olhar de escritores chegantes na cidade. Dou especial atenção ao livro de Luiz Lima, “Entre cimos nublados, uma solidão sem fim: uma corografia contemporânea da Chapada dos Veadeiros”35
, resultado de um meticuloso levantamento de dados desde os cronistas das primeiras bandeiras até relatórios de exploradores e viajantes dos séculos XIX e XX, enriquecido com as experiências e testemunhos do próprio autor. Acrescento à narrativa, além das minhas próprias contribuições (fruto de observação, conversas informais e entrevistas), dados de estudos historiográficos, etnográficos e geográficos, para melhor situar os diferentes momentos e trajetórias dos grupos que circularam e circulam pela região. Peço paciência ao leitor para acompanhar uma narrativa um tanto quanto longa na qual a cronologia é flexibilizada pela tentativa de sintetizar o desdobramento das muitas histórias que se entrecruzam.
Na segunda metade do capítulo, discuto os encontros e desencontros entre duas realidades sociais que se atravessam: o mundo dos alternativos e aquele dos nativos. Apresento alguns frutos do encontro entre os diferentes grupos, bem como sinalizo para os conflitos e distanciamentos que existem na cidade. Em Alto Paraíso, as relações entre os estabelecidos e os forasteiros, algo diferente do que preconiza a clássica leitura de Elias e Scotson (1965), não se configuraram enquanto dois grupos !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
antagônicos que disputam influência. O que observei foram dois (ou mais) grupos que se desenvolvem sem controle ou dominação de parte a parte. Nos dizeres do autor/morador Luis Lima, nativos e alternativos coexistem por meio de um acordo tácito de não interação.
Á guisa de conclusão, retomo a ideia alternativa de que Alto Paraíso é uma “encruzilhada cósmica”, traduzindo-a como a convivência entre cosmopolitismos discrepantes (Clifford, 1997). Nas palavras de outro autor lá radicado, Luís Salvi (2008), a cidade é laboratório de um novo modelo de desenvolvimento que daria primazia à “diversidade cultural” e à convivência pacífica entre os diferentes. Reconheço que a não interação dos alternativos com os nativos é uma situação derivada da própria condição fugidia na qual o chegante se situa em relação à sociedade englobante. Considero, contudo, sob a luz do pensamento de Johannes Fabian (1983), que a pouca comunicação efetiva entre os projetos alternativos e a realidade econômica e social dos nativos demonstra sinais de um certo “alocronismo” por parte dos alternativos em relação aos nativos, o que configura obstáculo para uma sonhada “convergência de caminhos” e o “despertar” de uma “nova civilização”.
Mapa 2: A nova “terra prometida” entre os paralelos 14˚ e 15˚ sul !
O Nordeste de Goiás
Fonte: Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes. 2002.
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3.1 - Um lugar de ‘chegantes’.
3.1.1 - Colonização, exploração do território e a urbanização
Luiz Lima, buscador do tipo guru radicado na cidade desde 1983, começa sua história pelos primeiros registros escritos sobre o nordeste goiano, realizados por bandeirantes, datados da última década do século XVI. Os colonizadores somente se fixaram na região a partir do século XVIII, nos tempos das bandeiras do Anhanguera II, reconhecido por ter “descoberto” as Minas do Tocantins. Anhanguera II era