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A cidade analisada é o resultado de um processo de acumulação de tempos, onde o espaço se renova ao passo em que conserva permanências. O novo e o velho coexistem no presente para realçar tal processo. Não nos interessa o passado “por si só” [essa é uma tarefa mais própria dos historiadores], o que de fato nos move é o presente. No entanto, esse “presente” está mesclado tanto de tempo-espaço passados como de prospectivas de um inevitável devir. As rugosidades e/ou as formas mais atuais parecem se unir para difundirem anúncios de novos e atuais acontecimentos, como, também, futuras transformações dos lugares.

Nesse sentido, faz-se mister a análise de períodos pretéritos e de seus processos que desencadearam a evolução do espaço citadino caicoense, suas preservações, suas atualizações, bem como as perspectivas de novos rearranjos territoriais. Nesse capítulo da pesquisa, nos ancoraremos em conceitos, como: períodos, rugosidades, eventos, entre outros.

Comecemos nossa análise pelos períodos que se sucederam um a um, tanto em níveis globais, como em níveis locais. Os processos do desenvolvimento global das técnicas e da consequente evolução da humanidade, que desencadearam as “mutações” nas cidades e no urbano mundial e brasileiro, são, por demais, conhecidos, analisados e descritos por tantos e tantos estudiosos, como é o caso de Milton Santos, Ortega y Gasset, Eric Robsbawm, Henry Lefébvre, David Harvey, Lewis Munford, Carl Mitcham, entre outros.

A história e, principalmente, a geografia do mundo são constituídas de períodos que, a partir de um dado tempo51, podem ser chamados de períodos técnicos e, que, segundo Santos (1999), revelam as sucessões e as coexistências, ou seja, em cada lugar, a relação tempo- espaço se dá concomitantemente de forma assincrônica e sincrônica. Isto se explica, por exemplo, quando ações semelhantes, praticadas por agentes diferentes em espaços também diferentes, acontecem simultaneamente, mas com velocidades distintas. “Cada ação se dá segundo seu tempo; as diversas ações se dão conjuntamente” (Ibid).

A análise de toda e qualquer conjuntura, em especial, no contexto urbano, exibe-nos um conjunto de períodos técnicos que, de um lado, podem ser entendidos como globais e de

51 Estamos nos referindo à Revolução industrial inglesa do Séc. XIX, que marca um novo período na relação

outro como sendo locais, pois cada lugar, ao seu tempo, também exibe períodos próprios em consonância, pela totalidade, com estes períodos globais.

Reportaremo-nos primeiro às periodizações globais que, segundo Ortega y Gasset (1939) estão assim distribuídos: período da técnica do acaso, período da técnica do artesão e período da técnica do engenheiro. Munford (1934 apud SANTOS, 1999) nos apresenta um outro processo evolutivo dos períodos técnicos e os agrupa em: período das técnicas intuitivas (até 1750), período das técnicas empíricas (1750 – 1900) e o período das técnicas científicas (a partir de 1900). O próprio Milton Santos também nos oferece uma noção bastante interessante acerca do que sejam os períodos. Para este autor, “períodos são pedaços de tempo submetidos a mesma lei histórica [...]. Assim, as periodizações podem ser muitas, em virtude das diversas escalas de observação” (SANTOS, 2008, p. 67). As escalas são três: o mundo, o Estado-Nação e a cidade. A divisão dos períodos, feita por este último autor, está, então, assim apresentada: período técnico, período técnico-científico e período ou meio técnico- científico-informacional.

O espaço é uma instância social, portanto, abstrato, e é uma condição e um conjunto de possibilidades para a existência humana, já o território é o uso deste ou daquele espaço e, portanto, concreto (SANTOS, 1999). Quando analisamos os processos formadores do território caicoense, percebemos a íntima relação dos tempos globais com os tempos locais e as suas consequências no espaço. Isso se apresenta pela noção de [a parte e o todo], ou seja, pela ação sistêmica e pela totalidade. Mas para o entendimento deste processo, faz-se mister uma análise de tempos pretéritos, como sendo um presente do passado.

No período da expansão do sistema capitalista, que teve como trilho a conquista de novos espaços/territórios, as terras de além-mar52 dividiam-se em subespaços de primeira e de segunda natureza. Nativos utilizavam-se da maioria dos subespaços conquistados/invadidos pelos europeus, por meio de técnicas, que podem ser classificadas entre o que Ortega y Gasset (1963) chamou de técnicas do acaso e técnicas do artesão.

No caso do Brasil, a partir do século XV, dois diferentes modos de produção, dois distintos conjuntos de “sistemas de engenharia” passavam a coexistir em uma mesma porção do espaço. Os territórios como recurso, comandados pelos agentes que, pretensamente, começavam a mandar, contraponham-se aos territórios como uso, dos agentes que teoricamente deveriam obedecer, mas insistiam na não obediência. É nesse contexto que se implanta um novo e complexo sistema de relações que terminaria por deflagrar esses

52 Visão do mundo a partir do continente europeu. A Europa desencadeava a ideologia eurocentrista e toda

diferentes usos de um espaço que, a “posteriori”, se identificaria como sendo o território brasileiro, dividido em regiões e, estas, por suas vez, repartidas em tantos subespaços. É sobre os processos de formação territorial de um destes subespaços que passaremos a nos deter, a partir daqui.

Na conquista/invasão do litoral, os processos de ocupação e usos do território foram se manifestando, a partir do encontro/confronto dos já referidos povos e seus modos de produção. De um lado, os nativos, as técnicas do acaso e do artesão e um modo de viver e usar o território, caracterizado pelavida comunitária e primitiva, como descrito por Medeiros Filho (1984). Coletores, caçadores e agricultores, os nativos plantavam milho e confeccionavam artesanalmente alguns alimentos, como, por exemplo, pães. O autor destaca também a visível equidade na distribuição das coletas sejam frutos, sejam caças. Por outro lado, os colonizadores com técnicas já mais “avançadas” e um modo de produção baseado na moeda, na divisão de classes e na exploração de territórios e de pessoas e, em especial na divisão das terras em sesmarias e datas.

Figura 12: A ocupação estrangeira do território brasileiro nos séculos XV e XVI

Fonte: Elaborado pelo autor, 2009.

O sistema técnico preponderante em cada fase da história, como, também, o conjunto das tarefas executadas pelas diferentes sociedades, reflete a correlação entre o uso do território e as técnicas disponíveis em determinada época. As técnicas dos nativos iam sendo, aos poucos, substituídas pelas técnicas dos colonizadores. O uso do novo território

“colonizado” anuncia as mudanças, mas denuncia permanências, até porque a coexistência desses povos e suas técnicas durariam ainda algumas centenas de anos.

Não demorou muito e a conquista/invasão se interiorizou. No sertão nordestino, as mesmas coexistências e confrontos se estabelecem. O que mudam são os povos nativos, mas o conflito se dá com os mesmos invasores. A sobreposição de um modo de produção sobre o outro vai aos poucos se perfazendo e as mudanças, nas divisões territorial e social do trabalho, vão também se configurando, isso tudo como resultado de novos usos e (ab)usos do território.

3.2 A PECUÁRIA COMO UM SISTEMA TÉCNICO E O USO/FORMAÇÃO DO

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