O termo “ciclo de Jespersen” primeiramente cunhado por Dahl (1979) se refere a um processo histórico de mudança linguística em que o marcador negativo pré-verbal passa a pós-verbal tendo passado por uma fase em que a marcação é bipartida com um elemento na posição pré- e outra na posição pós-verbal. O Ciclo recebe esse nome devido ao trabalho de Jespersen (1917), que foi o primeiro a reconheceu o mesmo padrão de mudança em várias línguas.
Jespersen (1917) observa que em várias línguas há um processo em que o advérbio negativo original é primeiro enfraquecido, tornando-se insuficiente e é, então, fortalecido, geralmente pela adição de alguma palavra. Essa palavra pode adquirir propriedades negativas e passar pelo mesmo desenvolvimento da palavra (negativa) original. Uma explicação para o processo apontada pelo autor é que o advérbio negativo é geralmente não acentuado, já que outra palavra na mesma sentença recebe o acento de contraste. A opacidade do advérbio negativo seria o que poderia levar o falante a
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O termo ‘dupla negativa’ usando nessa tese corresponde ao termo inglês doubling negation e não deve ser confundido com double negation, termo sem tradução no português que corresponde ao fenômeno oposto ao da concordância negativa, ou seja, no fenômeno de double negation dois itens negativos numa mesma sentença se cancelam resultando em uma sentença positiva. Double negation e concordância negativa são, muitas vezes, tratados como duas marcações de um parâmetro (ver Roberts (2007) e Zeijlstra (2004)).
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acrescentar alguma coisa para que o sentido ficasse mais claro, podendo ser uma palavra que tenha a função de reforçar o valor negativo.
O uso de itens de “reforço” da informação negativa é algo que, de acordo com Jespersen, está sempre presente nas línguas e têm a função estilística de tornar a negação mais vívida (not at all, pas du tout, aldeles ikke, durchaus nicht, gar nicht). Muitas palavras que hoje significam ‘não’ em várias línguas significavam originalmente ‘nada’ (inglês, alemão) e apresentavam função puramente estilística.
Segundo Jespersen, muitas das palavras usadas estilisticamente como reforço negativo vêm de minimizadores, ou seja, palavras que expressam pequena quantidade (uma migalha, um vintém). Durante o processo de mudança, essas palavras perdem significado e passam a funcionar como reforço apenas, ou melhor, passam a funcionar como itens de polaridade negativa5 (e.g. “eu não tenho um centavo no bolso” = “eu não tenho nada no bolso”).
O exemplo mais clássico do Ciclo de Jespersen é o francês, cujo marcador negativo original se torna fonologicamente fraco (ne), passando a receber o reforço do pas que em um momento anterior possuía o significado de passo. Depois de algum tempo, pas perde seu sentido de palavra adicional e passa a funcionar como negação. O fim do processo é a substituição da negação original ne pelo pas:
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1º Jeo ne di 2 º Je ne dis pas 3 º Je dis pas
Como mostrado acima, na proposta de Jespersen, o processo de mudança apresenta três etapas. Em outros trabalhos posteriores a Jespersen, no entanto, o processo de mudança é reinterpretado e, muitas vezes, apresenta mais etapas (Dahl 1979, Gelderen 2008, Schwegler 1991, Zeijltra 2004). Dentre os trabalhos mais recentes sobre o ciclo de Jespersen, vale destacar o trabalho desenvolvido por Van der Auwera (2009).
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Van der Auwera trata mais especificamente do papel da ênfase na substituição de itens no Ciclo de Jespersen. Na proposta do autor, o Ciclo apresentaria seis estágios:
(31) Estágios Estratégias 1 Nonneg 2 Neneg 3 Neneg... pasx 4 Neneg... pasneg 5 Nex... pasneg 6 pasneg
Como o esquema acima ilustra, na proposta de van der Auwera, neneg é
enfraquecido a partir da forma antiga nonneg. No estágio 2, somente a forma enfraquecida é
mantida. Entre os estágios 2 e 3, neneg é interpretado como “insuficiente” e fortalecido por
uma palavra adicional (marcada com x). O fortalecimento observado nesse estágio seria tanto formal quanto semântico, já que o acréscimo de uma palavra é uma estratégia formal e a palavra adicional mantém seu significado, que não é apenas negação. No estágio 4, a palavra adicional adquire significado negativo e o efeito de fortalecimento é perdido, a negação passa a ser bipartida. Entre os estágios 4 e 5, a segunda palavra se torna o marcador negativo propriamente e ne a palavra adicional. O processo se completa no estágio 5 no nível semântico e, no estágio 6, no nível formal com o desaparecimento da partícula inicial.
Conforme a descrição dos estágios do processo ilustra, o autor apresenta uma visão contrária à proposta de enfraquecimento de Jespersen. Segundo ele, as línguas apresentariam de forma geral uma construção negativa neutra e uma enfática simultaneamente. Se a forma enfática perde seu valor enfático, ela se torna um competidor para a forma neutra e, pode, por fim, substituir a construção originalmente neutra.
O enfraquecimento semântico, nessa proposta, é entendido como a perda de significado enfático, enquanto o reforço é visto como reforço formal. Assim, considerando os dados do francês, o autor entende que o ne não é enfraquecido, uma vez que é desde o
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início uma forma neutra. Já a palavra adicional, que de início tem significado lexical, perde esse significado e adquire interpretação pragmática (pas: minimizador > polaridade negativa > marcador negativo). Segundo o autor, pas mantém em todos os estágios a função de polaridade negativa. O que é justificado, já que um marcador negativo pode ser usado universalmente como polaridade negativa (negação expletiva) e as chances aumentam se o marcador é originalmente um item de polaridade negativa como no caso do pas.
O autor coloca uma possível pergunta: Por que ne...pas substitui ne se esse último é mais econômico? Van der Auwera, apresenta a seguinte argumentação para dizer que na verdade a negação bipartida ne...pas é mais econômica. Segundo o autor, ne... pas apresenta um componente que pode ser ‘acentuado’ - pas, o que permite uso enfático concomitante com o uso neutro. Assim, enquanto ne precisava ser reforçado por outras palavras para adquirir significado enfático, ne...pas poderia ser usado tanto para negação neutra quanto para negação enfática, sendo, portanto, mais econômico. A queda do ne só se dá, porque esse item é reinterpretado como a palavra adicional na construção ne... pas, o que teria afetado o ne solitário e causado a sua queda.
A análise desenvolvida por Van der Auwera vai ao encontro da interpretação de Horn (2001), segundo a qual o Ciclo de Jespersen pode ser resumido a uma guerra entre um negador simples, descritivo, o qual ocorre predominantemente e prototipicamente em contextos indicativos não contrastivos, e um negador enfático, original de ambientes não finitos, não verbais e/ou contrastivos (metalinguístico).