Na parte temática das entrevistas, não elegi os estilos das práticas sexuais como um dos assuntos a serem indagados aos colaboradores. Optei por deixar aos informantes a prerrogativa de abordar ou não esse aspecto de suas vidas, na medida em que permanece visto como algo muito íntimo e marcado por processos de por envolver estigmatização, ainda muito intensos (Heilborn e Brandão, 1999, 8-9; Viñuales, 2000, 161)190. Colocado o tema, buscaria então aprofundá-lo. Esta
decisão em nada comprometeria os objetivos desta pesquisa, na medida em que estilos de práticas sexuais não integram o foco de análise que escolhi priorizar.
Do conjunto dos colaboradores, aqueles que abordaram o tema foram Marcos e Eleonora, conforme registrado quando de suas apresentações. Álvaro fez uma observação bastante
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Viñuales, faz menção ao preconceito que ela constata ainda persistir sobre a (homo)sexualidade feminina: a simples indagação da identidade sexual – quando formulada por alguém que se localize fora do ambiente – pode ser recebida como um ato invasivo; até mesmo como fruto de associações com práticas pornográficas. Embora, como ela mesma ressalta, seja perfeitamente possível se falar de sexualidade sem ter que falar de sexo – ou de modos de se praticar o sexo –, é necessário ter em conta, sobretudo, a baixa integralização que determinados aspectos da identidade “homossexual” parece obter. Falar sobre aspectos de suas identidades que permanecem sendo objeto de forte desqualificação social resulta muitas vezes desconfortável ou doloroso. Isso ficou patente para mim em diversos momentos na maioria dos relatos. Penso até que essa densa realidade é capaz de ajudar a compreender a quase nula adesão à proposta dialógica apresentada a todos eles, bem como as reiteradas postergações à solicitação de entrevista complementar formulada à Eleonora. Esta colaboradora se esquivou até mesmo para indicar o local onde desejava que fosse enviada a sua cópia do trabalho, muito embora outorgue à pesquisadora um grau de confiabilidade suficiente para recentemente partilhar com ela seus desencontros amorosos.
interessante, baseada na convivência com suas amigas “lésbicas”. Segundo esse conhecimento, afirma resultar falso supor que, pelo simples fato de ostentar uma apresentação social de gênero “masculino”, necessariamente vai haver a adoção de um papel sexual ativo ou, caso se prefira, “masculino”. Semelhantemente ao que tem sido relatado na bibliografia acerca dos “gays”, Álvaro comenta as muitas vezes em que suas amigas descreviam práticas fora desse amálgama suposto e reconhece ser esta uma realidade presente também entre os “gays”. Eleonora trouxe informações bastante detalhadas sobre tensões existentes quanto aos papéis de gênero entre algumas “lésbicas” de seu convívio.
Ela relata a existência de disputa entre práticas e identidades “lésbicas” em sua rede de relações pessoal (não integrada à do bar). De um lado, as “masculinizadas”, que não permitiam ter os seus corpos tocados pela parceira, de quem exigiam feminilidade e passividade191; de outro, as que,
embora eventualmente pudessem apresentar socialmente algum(ns) traço(s) de comportamento associável à masculinidade, no âmbito da relação afetivo-sexual, não assumiam um papel fixo, seja masculino (ativo), seja feminino (passivo).
Eleonora observa que as masculinizadas “se sentiam na pele de homens”, usavam roupa íntima masculina e não admitiam que as namoradas tocassem seu corpo: “[Tinha] Umas que andavam com a gente que parecia[m] um homem, usava[m] até cueca. Coçava[m] o saco sem ter saco [...]”192. Em
sua opinião, as parceiras se submetiam a esse modelo, mesmo não concordando, talvez por medo de perder a companheira de quem gostavam. Diz que “achava ridículo” esse tipo de comportamento e que não compreendia de que maneira elas atingiam o orgasmo. Segundo ela, esse padrão de relacionamento era minoritário, e quando via alguém em sua turma agindo dessa maneira, simplesmente a eliminava: “Eu excluía da minha equipe!”193.
191 Portinari desenvolve uma interessante reflexão acerca da dicotomia “ativa x passiva”, que ela expressa através
da metáfora da “Bela e a fera” (Portinari, 1989, 51–65). Com muita propriedade, examina o lugar a um tempo abjeto e desejado no qual a “ativa” se inscreve. Embora “a bela [seja] supostamente um objeto de desejo”, encontram-se ambas constituídas no interior da norma que institui o lugar do feminino como o lugar do inferior, desqualificado, daí ser “a fera que encarna a imagem do ideal.” A “lésbica”, como o “homossexual masculino”, encontram-se sempre sob a ameaça da estigmatização que, em nossa cultura, é desferida contra o “passivo sexual”: “A homossexualidade feminina esbarra no tal estigma do passivo sexual e no estigma que pesa sobre a própria feminilidade, problemas com os quais essa homossexualidade teria que se defrontar de qualquer maneira para poder existir no mundo ... problemas com os quais ela (ao menos em parte) existe para se defrontar.” (Portinari, 1989, 56). Sobre relatos em primeira pessoa abordando a mesma questão da identidade de gênero, ver Mott, 1987, 203-206.
192 Essa mesma referência a um gestual típico de homens, praticado por algumas das “lésbicas” masculinizadas,
também é encontrada no relato de Antônia.
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Esse tensionamento entre apresentações sociais de gênero (masculinos x femininos) presente nas subculturas homossexuais encontra-se abundantemente registrado na bibliografia.
A seu ver, “na cama rola tudo; pra mim não tem um homem e uma mulher. Entre quatro paredes é... Uma tem que satisfazer a outra. Não tem esse negócio, ah, você é homem, eu sou a mulher. Não existe isso pra mim” (Eleonora, 30/10/04).
Ainda segundo seu relato, essas “masculinizadas” freqüentemente protagonizavam violentas cenas de ciúme, descambando para agressões físicas. Diz ter presenciado algumas delas serem barradas numa boate de Nova Iguaçu, tamanha a notoriedade das confusões que desencadeavam.
Marcos, de sua parte, relata que na adolescência teve alguns namoros com mulheres, mas todos muito breves: “Não conseguia namorar mais do que um mês. Namorava, largava, namorava, largava.” Não sentia nenhuma vontade de ter relações sexuais com elas:
Até então eu já tinha tido relação com outros homens. Namorava, mas não tinha vontade de transar com elas. Beijava na boca, namorava, ia ao cinema... Dava sorte, porque naquela época o namoro ficava nisso. Só que eu peguei uma garota uma vez que ela queria fazer sexo. E eu não conseguia. Quer dizer, eu não tinha vontade. [...] (Marcos, 16/10/2004, A)
Mesmo transando com homens “sempre”, estranha essa “falta de vontade” e, aos vinte e quatro anos, quando para “ter um relacionamento com uma mulher, pra ver o que é que vai rolar”, se surpreende: “Foi uma relação legal, eu curti, senti prazer. Mas não era tão intensa como com os rapazes.”
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Apresentados os aspectos a meu juízo mais relevantes das trajetórias dos personagens, sigamos para o Cantinho Amigo.