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Chapitre II : Approche in vitro : Etude des effets du blocage du SEC sur le métabolisme des lipides et des

2. Paramètres relatifs à la lipogenèse et au captage du HDL-CE

2.2. Approche 2: Effets d’un traitement par SR141716 sur des explants de foie sains traités ou non

Poulantzas17 discorre sobre uma problematização também lançada por Gramsci18, indicando que o capitalismo na república democrática constitui um mecanismo de controle mais complexo, pois não apenas um controle coercitivo permite o perduro da classe/fração de classe no bloco no poder. Associado à dominação, percebe-se um processo de alienação ativa por parte dos subjugados, a aceitação consensual da exploração e da hegemonia (convencimento).

Gramsci interpreta o estado como pertencente a um grupo que o utiliza como condição para potencializar a sua própria expansão. Uma expansão que engloba ampliação econômica de suas atividades e de representação política, mas não se encerra somente nestes aspectos. O grupo hegemônico apresenta a sua expansão como a universal da sociedade, gerando o convencimento para seus subalternos19.

O conceito de hegemonia não elimina o conceito de dominação/exploração de Marx, mas permite um detalhamento mais profundo da complexificação da sociedade capitalista contemporânea. Karl Marx, no Manifesto Comunista20, trabalhou com o conceito de dominação e exploração para explicar os fenômenos sociais que analisou. A exploração é o elemento central da motivação da hegemonia, mas ela só se realiza a partir da construção de uma hegemonia da classe (ou fração de classe) exploradora.

O conceito de dominação, porém, tornou-se impreciso diante da complexidade da atual sociedade, isto porque numa sociedade democrática sob a predominância da burguesia, não é somente a força das armas ou da lei que possibilita o prolongamento de sua opressão. O conceito largamente utilizado por Karl Marx e Frederich Engels, no que tange à dominação, foi baseado numa realidade histórica de um Estado nacional simplificado, com relação ao conjunto de suas funções, e num incipiente e instável funcionamento de uma democracia burguesa.

Ao se utilizar o conceito de dominação, entende-se que a classe que está no poder permanecerá lá a partir da utilização da força coercitiva do aparelho estatal (seja polícia ou exército) para subjugar os explorados e controlá-los. Porém, para a exploração se

17. Ref. 13.

18. GRAMSCI, Antonio. Cadernos do Cárcere. Os Intelectuais. O Princípio Educativo. Jornalismo. Rio de

Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.

19. Ref. 18.

20. MARX, Karl. ENGELS, Friedrich. Manifesto Comunista. In: ALMEIDA, Jorge (Org). 150 anos de

realizar, as classes no poder (tanto das estruturas econômicas quanto do Estado e da Sociedade Civil) conseguem construir mecanismos nos quais nem sempre a coerção é necessária. Para que os explorados se submetam ao domínio, cria-se, dentre outros mecanismos, a ausência de empregos. Quem gostaria (ou gosta) de estar desempregado? De fazer parte do exército de reserva e não conseguir prover sua subsistência? Provavelmente, ninguém. Logo, percebe-se que além dos empregados, há um contingente significativo demandando ser explorado e se sujeitando a qualquer situação pelo emprego. O “abrir mão” de qualquer situação pelo emprego e querer estar empregado significa que há uma aceitação do processo de exploração. Não é dominação stricto sensu, pois não há necessariamente uma coerção militar obrigando quem quer que seja àquela sujeição. E o que há, então? Um convencimento da legitimidade daquele processo pela classe não hegemônica, ou seja, há uma aceitação. O conformismo, o avesso à participação política ou social, a decepção com a possibilidade de mudança, a naturalização e a imutabilização do processo somam na compreensão do que é o convencimento. A inquietude de como, numa sociedade em que o explorado pode decidir sobre seu governante, ele elege o seu explorador, foi um problema de pesquisa estudado por Gramsci, através do qual ele formulou o conceito de hegemonia.

O conceito de alienação ou trabalho alienado, de Marx21, auxilia na compreensão

de que uma das bases fundamentais para o capitalismo obter êxito é, de forma estrutural, institucionalizar um mecanismo de controle intelectual dos dominados, inclusive interno ao próprio processo de produção, quando o trabalhador passa a se coisificar frente à animação dos objetos produzidos.

Muito embora entendendo que esta movimentação de controle mental e de subordinação interna ao próprio processo de produção capitalista analisado por Karl Marx não foi superado, há, implícita, uma singela vicissitude que conota um papel passivo do sujeito alienado. É como se o sujeito somente recebesse a submissão intelectual sem ter nisso uma dialética, pois o subordinado também precisa aceitar a sua subordinação. Neste movimento, ele age como sujeito ativo que reivindica aquele projeto de mundo, ou seja, ele se convence e pode, assim, exercer influência sobre os demais.

Hegemonia, para Gramsci22, é a combinação de dominação direta e submissão ativa. Ou seja, um poder repressor efetivo (traduzido por dominação direta) da classe predominante, fazendo uso do Estado e de outros mecanismos, e um poder de

21. Ref. 6. 22. Ref. 18.

convencimento que seduz corações e mentes para aquele projeto de sociedade. Mas, observa-se que no convencimento para a construção do consenso, em Gramsci, necessita- se de uma aceitação ativa, não somente uma noção de alienação passiva, tradicionalmente compreendida.

Hegemonia, para Gramsci23, não seria somente a dominação, mas uma mistura entre dominação e direção. Dominação, em virtude da utilização do arcabouço repressor, em particular o do Estado, representado pela polícia (ou exército) e as leis; e direção pela liderança, pelo convencimento (em qualquer esfera) da legitimidade daquele processo.

Gramsci24 indica que todos os tipos de melindres são utilizados pela classe hegemônica com a finalidade de se garantir nas estruturas de poder (Estado, economia e sociedade civil), desde o uso da coerção do aparelho estatal, quando necessário (leis inibidoras e restritivas de liberdades, polícias, guardas civis e exército); passando pela propaganda política diluída nos mais variados meios formativos (escolas) e de imprensa (os jornais e as novelas brasileiras, por exemplo); até o uso de outros mecanismos mais complexos (mais usados com frequência no Brasil), como a corrupção/fraude.

O Estado no processo de constituição da hegemonia capitalista é um elemento imprescindível, pois seus aparelhos permitem a homologação da dominação coercitiva e moral, tanto no controle repressivo quanto na propagação da ideologia do bloco no poder25. A hegemonia se dá a partir do momento em que o grupo hegemônico

(dominante/dirigente) consegue conquistar o Bloco Histórico, sendo este o bloco de poder, entendido de forma plena, porém não monolítica nem onipresente (totalizante). Para uma classe social ser hegemônica, segundo Gramsci, ela deverá, obrigatoriamente, exercer a hegemonia em todas as esferas do bloco.

Segundo Almeida26, ocorrem quatro esferas componentes do Bloco Histórico, sendo elas: a economia, na qual se encontra o setor produtivo e motor da sociedade capitalista/hegemônica; a sociedade civil, na qual estão todas as organizações não partidárias, como sindicatos (de trabalhadores e patronais), organizações não governamentais, clube de mães ou clube de xadrez; o Estado, entendendo aí todas as esferas governamentais e o Estado Ampliado, incluindo o conjunto de leis; e a mídia.

23. ALMEIDA, Jorge, at al, (Orgs.). 150 anos de Manifesto Comunista. São Paulo: Xamã, 1998. 24. Ref. 18.

25. Ref. 13.

26. ALMEIDA, Jorge. Hegemonia e Bloco Histórico no Brasil pós Lula da Silva. In: CLOUX, Raphael, et

Apesar de Gramsci trabalhar com o conceito de imprensa, Almeida27 verifica a

complexificação deste setor e sua influência na estrutura de poder.

Cada esfera deste bloco estabelece uma relação de determinância dialética com a outra. E para que uma classe (ou fração de classe) consiga exercer hegemonia sobre as demais, tem que conquistar todas as quatro esferas. Esse movimento se dá, do ponto de vista da conquista da legitimação da hegemonia (direção), com a construção de uma cultura hegemônica. Essa cultura não é só uma ideologia, pensamentos organizados conscientes de uma visão de mundo, mas um conjunto de pensamentos e práticas sociais, organizados e desorganizados, sistematizados ou não, que legitimam o grupo hegemônico28.

A articulação de elementos culturais também é feita utilizando-se da tradição seletiva29, dos elementos culturais residuais utilizados para, como largamente é feito no Brasil, construir e contar a história a partir da classe hegemônica. Um exemplo marcante foi a construção dos Institutos Históricos e Geográficos, que tinham por objetivo apagar o passado “negro” do Brasil, escondendo a escravidão, criando uma “nova” história para este, a partir de uma visão eurocêntrica, branca e “moderna”.

O conceito de hegemonia é envolto pela coadunação de interesses entre classes e fragmentos/grupos e, ao mesmo tempo, convive com seu movimento de negação, ou seja, setores submetidos à exploração se organizam para negá-la e contrapô-la. São os grupos/classes contra-hegemônicos que, além de se oporem ao grupo hegemônico, têm um projeto alternativo de sociedade.

Gramsci formula o conceito de hegemonia civil também como uma extensão e superação do conceito de “revolução permanente”. A possibilidade de manter o “controle” por parte dos hegemônicos se equipara às condições de uma guerra real somente na medida em que há um jogo permanente para que, nas relações de força da democracia, a preponderância seja assegurada. Uma guerra de “trincheiras” permanente em tempos de paz ocorre na democracia capitalista. A cada momento, a classe/frações de classe hegemônicas costuram ações conjunturais para manter o seu status orgânico30.

27. Ref. 26.

28. CLOUX, Raphael Fontes; et al (Org). Hegemonia e Resistências no Brasil: História, Política e Educação.

Salvador: Kawo-Kabiyesile, 2012.

29. Ref. 28. 30. Ref. 18.