Ao mencionarmos a expressão “construcionismo” faz-se necessário uma indicação de onde se fala, isto porque ele remete a uma gama de posicionamentos epistemológicos distintos e até mesmo contraditórios. Assim, desde já, o Construcionismo a que nos referimos aqui é uma postura crítica diante do mundo que visa proporcionar “processos de mudanças e deslocamentos, animação, agitação e vivacidade”29 (MÉLLO et al, 2007, p.27).
Sendo assim, nosso posicionamento é consonante com o de autores como Kenneth Gergen, Tomás Ibáñez, Lupicinio Iñiguez e Mary Jane Spink, entre outros, em não considerar o construcionismo como uma teoria, isto porque não se visa estabelecer verdades a partir de princípios estabelecidos e inquestionáveis, mas “um convite a examinar convenções e entendê-las como regras socialmente construídas e historicamente datadas” (SPINK, FREZZA, 2004, p.32)30. Por isso, preferimos manter aqui a denominação de “Movimento”.
Gergen (1985) contextualiza o construcionismo ao afirmar que esta perspectiva está interessada com as explicitações dos processos por meio dos quais as pessoas descrevem e explicam o mundo em que vivem. Sendo assim, abdica, por um lado de explicações sobre a origem do conhecimento situadas na mente ou em outro lugar internamente ao indivíduo; e por outro, rejeita a idéia de conhecimento como uma representação mental de eventos do mundo real (a mente como um espelho do real).
Todavia, se há algo que definitivamente distingue e norteia o movimento construcionista é sua postura crítica, é a força vívida e atenta sempre inclinada a desconfiar daquilo que se mostra óbvio e natural, como verdade absoluta (IÑIGUEZ, 2003). A fim de não se constituir contraditório consigo mesmo, esse movimento não estabelece para si princípios. Mas, como postura de atalaia, a fim de não solapar na tendência em afirmar que tudo corresponde ao social, ou seja, acabar por criar outras “verdades”, o inquiridor pode
29 Vale salientar que, por vezes, ainda se encontra uma confusão quando se fala em Construcionismo e
Construtivismo. Não utilizo este último termo pelo fato de o mesmo estar associado aos estudos do
desenvolvimento da cognição, sendo um de seus pressupostos a dicotomia “sujeito-objeto”. O mais fiel representante desta corrente é Piaget. Diferentemente, a perspectiva construcionista tenta propor sua investigação transcendendo tal dicotomia.
30 Vale lembrar que ter a linguagem como centralidade de processos interacionais não é de exclusividade do
construcionismo. Outras correntes focalizaram os processos sociolingüísticos. L. S.Vygostky (1999) –
Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, por exemplo, deu à linguagem um papel central no
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verificar alguns indícios no intuito de proceder sob uma perspectiva construcionista (IÑIGUEZ, 2003).
Uma postura antiessencialista pressupõe que as pessoas e o mundo não possuem uma natureza, mas que esta é constituída nas práticas sociais. Assim, o que tomamos como o “real” está intrinsecamente relacionado ao conhecimento que produzimos sobre ele. Abandona-se, de uma vez por todas, a idéia de que as categorias de que dispomos são uma correspondência do real, ou, ainda, versões de como as mentes trabalham (RORTY,1994).
Vale deixar claro aqui que não se defende a inexistência de uma realidade, mas que esta está diretamente associada àquilo que, em nossas práticas cotidianas, falamos, pensamos, agimos em referência a ela. É como Ibañez (2001) nos sinaliza ao argumentar sobre as propriedades, características (textura, consistência, etc), de certos objetos:
... a realidade existe, está composta por objetos, mas não porque esses objetos sejam intrinsecamente constitutivos da realidade, de sorte que nossas próprias características os “estabelecem”, por assim dizê-lo, na realidade. E é, precisamente, porque nossas características os constituem que não podemos tomar a realidade pelos nossos desejos e crer que se a realidade depende de nós, então podemos construí-la conforme nos desperte a vontade (IBAÑEZ, 2001, p. 234)31.
Fica óbvio, ainda, que nesse processo não impera uma aleatoriedade desvairada. Não obstante, esse antirealismo abre espaço para que se tenha uma postura relativista. Decorre daí que o questionamento de verdades passe a ser uma segunda postura do pesquisador construcionista. As verdades são sempre tomadas sob um ponto de vista pragmático. Elas não constituem o objetivo da investigação, haja vista serem “descrições feitas de diferentes maneiras, em diferentes épocas e para atingir diferentes propósitos” (MÉLLO et al, 2007, p. 28).
Uma vez que a intenção da investigação está associada à produção de um saber sintonizado às finalidades socialmente negociadas, e tidas pela comunidade como relevantes, o caráter histórico do conhecimento apontaria, a todo instante, que este conhecimento e seus modos de produção constituem uma possível versão dentre tantas outras daquilo que se investiga. Seria, como nos diz Rorty (2002, p.41), “uma avaliação histórico-social de como pessoas variadas tentaram alcançar concordância sobre aquilo em que acreditam”.
A historicidade aqui funcionaria como uma forma de questionar a objetividade dos saberes, considerando que estes têm implicados valores, tradições e modos de vida social de quem os produz e para quê/quem se destina. Portanto, não podem ser tomados como naturais.
Por último, sua posição frente à linguagem é de tomá-la em sua performatividade. Tendo em vista que a linguagem configura possibilidades de “realidades”, usá-la implica empenhar-se numa prática social, e, como toda prática, considerar seus efeitos. Assim, a linguagem passa a ser elemento “das construções, manutenções e mudanças que perpassam as relações sociais” (MÉLLO et al, 2007, p. 28).
A linguagem, então, não seria algo que está nas pessoas, mas entre elas. “Uma fronteira de articulação – que não une e nem separa, mas que constitui” (MÉLLO et al, 2007, p. 28). Assim, o mundo não se restringe apenas a constructos lingüísticos, mas que a linguagem faz parte desse mundo e das pessoas, de modo que tanto um quanto outro se constituem mutuamente pelo agenciamento dessa linguagem.
Esse agenciamento, entendemo-lo como
... a localização e o estabelecimento de conexões entre rotinas, hábitos e técnicas no interior de domínios específicos de ação e valor: bibliotecas e escritórios domésticos, quartos de dormir e casas de banho, tribunais e salas de aula, consultórios e galerias de museu, mercados e lojas de departamento (ROSE, 2001, p. 51, citado em MÉLLO et al, 2007, p. 29).
Essa perspectiva então, alia-se às reflexões de Michael Foucault (1966/1987), que define “práticas discursivas” como as condições de uso dos discursos, a um conjunto de enunciados ou formações discursivas que possibilitam o exercício de saberes, de modo a operar e instituir eventos e verdades em campos específicos.
Nessa empreitada, não podemos tomar a linguagem como se restringindo unicamente a uma rede de significações32; conseqüentemente, não se busca aqui realizar uma análise acerca
32 Distancio-me radicalmente de uma concepção de rede de significados tal como proposta por Rossetti-Ferreira
et al (2004) – Rede de Significações e o estudo do desenvolvimento humano, Porto Alegre: Artmed; por exemplo. Para esses autores, o enredamento de significados poderia ser entendido como um circuito preferencial dentre conexões possíveis ou ainda que esses circuitos possam ser reativados de modo a fazer desencadear ações e formas de falar sobre esse agir. Esse “retorno” é que considero problemático, na medida em que ele é tomado por uma fixidez no que poderíamos chamar de memória social; sem contar que nada garante que, de fato, o que ocorre seja um retorno. Fomenta, então, uma impressão naturalista associada a papéis sociais, aqui, então,
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do que a linguagem significa, mas o que ela efetiva. Estamos interessados nas circunstâncias dessa enunciação, nos efeitos que seu uso provoca.