fixes (terrains, batimonts, installations ot machines^ etc.) do 1 ordre de
3. Apprets (selon lcs operations) 30 ?„ 40 Diilions dc dollars EU
Recife e Salvador, por sua importância comercial no Império Português, desde o período colonial, foram cidades vinculadas ao chamado Mundo Atlântico e, como tal, foram portos de desembarque de pessoas de diversas procedências. Ao longo dos séculos, e com as vicissitudes do tráfico atlântico de escravos, as duas cidades foram palco do que Carmen Bernand designou de crisol de nuevas identidades, pensando na cosmopolita Cartagena
81
MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX, p. 448.
82
MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX, p. 528. Ver ainda Arquivo Público do Estado da Bahia. Seção Colonial,
Polícia, Maço 6506, Secretaria de Polícia, 1887; e Seção Judiciária, Série Defloramentos. Abreviarei, no
decorrer de toda a tese, o nome do arquivo citado para APEB, seguido das demais informações necessárias.
83
Sobre essa criada, de condição escrava, ver Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico Pernambucano, Processo de Revista Crime Entre as Partes, Recorrente: Galdino Nunes Pereira de Albuquerque; Recorrido: a Justiça. Caixa 3, 1881.
colonial, sobretudo a partir do século XVI.84 No final do século XIX, portanto, Recife e Salvador já tinham mais de três séculos de formação, e sua população era o resultado de contínuos fluxos migratórios de praticamente todos os lugares do mundo. Logo, é quase um truísmo afirmar que boa parte dos trabalhadores do Recife e Salvador, na segunda metade do século XIX e mesmo depois, ou não era nascida nestas cidades, ou era o resultado secular das misturas raciais provocadas por tanta gente diferente habitando um mesmo lugar. E isso é uma afirmação confirmada em diversos contextos históricos e espaciais.
Na década de 1950, por exemplo, João Cabral de Melo Neto usou a imagem do rio Capibaribe como um caminho que arrastava consigo os imigrantes do interior, a gente “a quem o mar chamou”, os retirantes “em quem só o suor não secou”, e ainda a “gente triste”, que é “a gente que a usina, depois de mastigar, largou.”.85
O poema O Rio, se escrito mais de cinco décadas antes, não seria muito diferente. Talvez trocasse a usina pelo engenho, pelos povoados distantes da capital, mas a “gente” não mudaria tanto. Trocaria o rio pelo mar... E incluiria, claro, alguns poucos africanos envelhecidos, remanescentes de uma viagem ainda mais longa, feita até 1850 em porões escuros de navios de traficantes de escravos; não deixaria de registrar a viagem de mulheres e homens portugueses, que traficavam a si mesmos pelo Atlântico em direção ao Recife.
O contínuo incremento populacional, com a conseqüente ampliação da quantidade de trabalhadoras e trabalhadores no meio urbano, não é uma realidade desta ou daquela região do mundo. Na formação do que designo aqui de mercado de trabalho doméstico remunerado e não remunerado, muitas histórias pessoais de imigração, sofrimentos, calamidades climáticas, infortúnios diversos tiveram lugar. Se nos primeiros anos da formação de Recife e Salvador, o tráfico atlântico de escravos alimentava as casas-grandes dos engenhos e os sobrados urbanos de cativos que desempenhavam as incontáveis atividades do serviço doméstico, no contexto de nossa pesquisa, as vicissitudes são outras: fome e seca nos sertões pernambucano e baiano, declínio da escravidão nos engenhos próximos, fluxos inter-provinciais e fluxos internacionais de imigrantes portugueses e de outras nacionalidades, conjunturas várias que traziam muitas pessoas para se misturarem com os trabalhadores autóctones. Esta realidade é, pode-se dizer atlântica e bastante difundida nas principais cidades do mundo ontem e hoje. Na Cidade do México, em Buenos Aires, e demais cidades hispano-americanas, dava-se o mesmo: ao longo do século XIX, a imigração foi construindo mundos do trabalho em que os serviços
84
BERNAND, C. Negros esclavos y libres en las ciudades hispanoamericanas. Madrid: Fundación Histórica Tavera, 2001, p. 59.
85
MELO NETO, J. C. de. Morte e vida severina e outros poemas para vozes. 4ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p. 30.
domésticos eram destinados a mulheres pobres, sem instrução, vindas de regiões que as repeliam. Para Elizabeth Kuznesof, as migrações rural-urbanas que ajudaram a formar os contingentes de mulheres domésticas em cidades hispano-americanas não podem ser explicadas apenas no sentido da “atração” das cidades de destino, economicamente mais fortes. A “repulsão” ao lugar de origem opera muito como fator do fluxo.86
Segundo Kátia Mattoso, a mão-de-obra livre de Salvador incluía brancos, mulatos e negros. Entre os brancos, havia tanto portugueses, como italianos, espanhóis, franceses, ingleses e alemães. Como verifiquei aqui para as domésticas, algumas pessoas “vinham de outras províncias ou do interior da Bahia”.87
O censo de 1872 mostrou mesmo uma presença estrangeira não desprezível em Salvador: das nacionalidades acima citadas, havia 4.206 portugueses, 324 franceses, 270 italianos, 231 alemães, 173 ingleses e 104 espanhóis.88 Neste item, Pernambuco não era muito diferente: das mesmas nacionalidades acima, havia 6.646 portugueses, 292 franceses, 327 italianos, 179 alemães, 217 ingleses e 199 espanhóis.89
Endosso Kátia Mattoso em sua afirmação de que o peso relativo dos europeus ingressos na Bahia é muito pequeno quando comparado ao número de africanos.90 Ela considera, portanto, que a cidade de Salvador não experimentou uma imigração européia suficiente para afetar a estrutura do mercado de trabalho urbano. Embora essa conclusão não seja incorreta, o fluxo migratório europeu existiu. De todo esse contingente estrangeiro, é provável que as mulheres portuguesas fossem mais numerosas do que as mulheres de outras nacionalidades no emprego doméstico remunerado ou não-remunerado. Mas os dados indicam mesmo é a predominância de mulheres pretas e mestiças enquanto criadas de patrões e patroas. Mais de 90% da população de Salvador dedicada ao trabalho doméstico remunerado era de cor preta ou dos variados tons de mestiços, incluindo mesmo algumas criadas mestiças de índio descritas como “acabocladas”.91
Meus dados para Recife não são tão sólidos, pois não tenho fontes seriadas para compor uma amostra consistente. Apenas posso sugerir a hipótese de uma composição racial do mercado de trabalho das domésticas mais ou menos próxima da encontrada para Salvador, talvez com mais mulheres mestiças do que negras.
86
Ver KUZNESOF, E. Historia del servicio doméstico en la América hispana (1492-1980). In: CHANEY, Elsa M.; CASTRO, Mary Garcia. (Editoras) Muchacha/cachifa/criada/empleada/empregadinha/sirvienta/ y... más
nada, p. 25-40.
87
MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX, p. 535.
88
Ver Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento Geral do Império de 1872. Rio de Janeiro, Typ. Leuzinger/ Tip. Commercial, 1876, 12 vol, p. 515.
89
Ver Diretoria Geral de Estatística. Recenseamento Geral do Império de 1872. Rio de Janeiro, Typ. Leuzinger/ Tip. Commercial, 1876, 12 vol, p. 218.
90
MATTOSO, Kátia. Bahia, século XIX, p. 125-126.
91
Sugiro essa hipótese pela simples razão de que, para os valores da época, os trabalhos domésticos, especialmente quando remunerado, eram vistos em sua proximidade com a escravidão, com a cor de pele mais escura. Para se ter uma idéia do que acabo de falar, um poema sobre o vatapá, atribuído à irmã de Castro Alves, iniciava dizendo: “Em cosinha não entro, a minha cutis/Não supporta calor de um fogareiro;/Não se fez a fumaça p‟r‟os meus olhos./A mesa é para mim uma delicia”.92
Também pelas referências que disponho, a designação parda tem grande predomínio tanto em Recife quanto em Salvador. Tudo é muito complicado quanto ao tema da composição racial ou étnica, e só as estatísticas não dão conta de o explicar. Em Recife, certo folhetim intitulado História de um leito contada por elle próprio, publicado no periódico A Pimenta, em 1903, contava que o quarto era carinhosamente arrumado por uma “velha tapuia”, que substituíra Luiza na função depois que esta havia fugido envergonhada ao ser flagrada em amores com um mulato no leito/narrador...93 É certo que se trata de um texto literário, imaginativo, mas a personagem ainda assim é surpreendente: uma doméstica que, de tão indígena, mais parece vinda dos primeiros tempos da colonização! Onde as criadas portuguesas? Onde as negras, pardas, mulatas? Como se vê, para além das estatísticas, dá para encontrar designações raciais bastante inesperadas. O que pode parecer ficção para Recife não era para Salvador e suas caboclas ou acabocladas que tingiam de mestiço a cor do mundo do trabalho doméstico baiano.
Estariam também as famílias pernambucanas indo ao sertão resgatar índios para botar no serviço doméstico em pleno início do século XX? Não era preciso. Havia formas menos imaginativas. As memórias de pernambucanos de famílias tradicionais indicam que, não raro, seus membros conduziam consigo criadas, escravas ou simples moradores dos engenhos para lhes servir na cidade. Para tais famílias, não era preciso, no século XIX, ler anúncios de jornais e arriscar-se a contratar uma criada “rebelde”. A imagem ainda forte de famílias poderosas e estáveis, por um lado, e a dependência de muitos habitantes de engenhos e povoados minúsculos, por outro, eram recursos facilmente acionados para a obtenção de serviçais. Félix Cavalcanti, um homem de condição social média, mas de nome influente na vida social e política pernambucana do século XIX, apesar de viver no Recife desde menino, conseguia suas criadas de modo, pode-se dizer, tradicional:
Em 18 de Dezembro de 1878 chegaram a minha casa as menores Rosalina e
92
Ver Biblioteca Pública do Estado da Bahia – BPEB. Subgerência de Periódicos – Setor de Periódicos Raros, O
ESTIMULO, Anno I, Número 10, p. 3. Cidade do Salvador, 31 de outubro de 1903.
93
Ver Biblioteca Pública do Estado da Bahia – BPEB. Subgerência de Periódicos – Setor de Periódicos Raros, A PIMENTA. ANNO III, Número 132, fl. 7. Recife, 28 de janeiro de 1903.
Maria, irmãs, vindas do povoado de São Benedicto. Foram-me entregues pelo próprio pai. Rosalina ficou em minha casa e Maria foi para a casa de Democrito [um dos filhos do memorialista]. Residíamos na casa acima citada da rua Vidal de Negreiros.94
Neste caso, ele encontrou duas criadas originárias, provavelmente, do atual município de São Benedito do Sul, que faz parte da Zona da Mata Sul de Pernambuco, reduto dos principais engenhos de açúcar da então província. Relato ainda que Félix Cavalcanti fora, durante muitos anos, Amanuense da Santa Casa de Misericórdia do Recife, e essa condição também lhe era muito útil para obter criadas adolescentes. Tudo leva a crer, contudo, que ele não assinava termo de tutela ou um contrato formal perante a Santa Casa, a julgar pelos exemplos abaixo: “Em 7 de Junho de 1882, veio para minha casa a menor Maria, com idade de 8 anos; é parda, e me foi entregue por sua mãe que se chama Francisca”;95
do mesmo modo:
Em 19 de Dezembro de 1883, veio para minha casa a menor Carolina, a qual me foi entregue pelo Dr. Olympio Marques, que pretendendo recolhê-la ao colégio das órfãs e não conseguindo e não tendo casa aonde pudesse conservá-la, eu ofereci a minha que ele aceitou. Foi conduzida por uma parda de nome Maria, que dizia ser sua tia, a qual era escrava de D. Antonia viúva de José Joaquim Miranda.96
Félix Cavalcanti usava sua influência para recompor sua criadagem quando da fuga de suas “protegidas”, caso inclusive corriqueiro em sua crônica. As menores, pelo seu próprio texto, eram-lhe simplesmente entregues, e fugiam quando se sentiam aptas para isso. Ou seja, a proteção oferecida pelo patriarca urbano podia ser, não raro, dispensada por aquelas que se sentiam mais subjugadas do que efetivamente protegidas.
Júlio Bello, outro integrante de tradicional família pernambucana, mantinha, quando de sua permanência no Recife, criadas vindas de seu engenho situado ao sul de Pernambuco; mulheres com fortes vínculos com o passado escravista. Em 1925, certa copeira de apenas 15 anos, uma “crioulinha”, servia-o no Recife, e fora apresentada a um visitante como “neta de Rita, talvez a única sobrevivente dos escravos de meu pai”; também a irmã de Bello, já no século XX, “tinha uma cozinheira que fora escrava, uma mulata velha, Teodora, que sofria também como eu a nostalgia do engenho e a saudade dos filhos que aqui deixara.”97
Toda uma geração de libertos e filhas de libertos, vinculados às famílias mais renomadas do lugar.
94
FREYRE, G. O velho Félix e suas “Memórias de um Cavalcanti”. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1959, p. 56.
95
FREYRE, G. O velho Félix, p. 66.
96
FREYRE, G. O velho Félix, p. 72.
97
BELLO, J. Memórias de um senhor de engenho. 3ª ed. Recife: FUNDARPE/Diretoria de Assuntos Culturais, 1985, p. 54 e 64.
Para o memorialista, a proximidade com a escravidão era critério importante à obtenção de serviços domésticos de criados considerados dóceis e fiéis. Sua família estava acostumada a manter, onde quer que fosse, criadagem composta de negros e mestiços de ascendência escrava e rural. Ser conhecida, do engenho, e ainda ex-escrava, para esses grupos, eram atributos valiosos difíceis de conseguir no meio urbano. Ele e sua irmã, portanto, já avançado o século XX, recrutavam suas criadas com o olhar ainda fixo no engenho e na escravidão, e não nas páginas dos jornais onde tantas mulheres livres – muitas delas brancas – ofereciam seus serviços.
Do mesmo modo, uma das raras ex-escravas fiéis e generosas, personagem de um conto da escritora baiana Anna Ribeiro Bittencourt, demonstrava toda sua gratidão aos antigos senhores da fazenda onde residia, prometendo só ir para Salvador depois que a família tivesse contratado empregadas. Isso após 1888, quando já não era possível contar com a esperada “gratidão” dos antigos escravos protegidos. Mesmo essa personagem excepcional, a mulata Josefa, já estava de planos feitos: ir para Salvador ficar com uma filha sua.98 Não era só das regiões próximas que se migrava para Salvador. O romance regionalista Rua do Siriri, de Amado Fontes, publicado em 1937, mostra que o destino de muitas mulheres pobres e de algumas prostitutas de Aracaju era mesmo a “Bahia” (nome genérico atribuído a Salvador) ou Ilhéus.99
Retornando ao Recife, não era só o Rio Capibaribe e seu leito metaforizado em caminho que servia para o ingresso, na capital, de tantos deserdados das terras do interior. Em José Lins do Rego, a estrada de ferro, concreta e sem poesia, exercia essa função. O condutor do trem não levava consigo apenas o moleque Ricardo, que dera nome ao romance. Levava também a crioula Nazaré, “que durou pouco em casa. Quando cresceram os peitos, passou-se para o mundo, que era melhor.”.100
Os miseráveis do engenho, a julgar pelo escritor José Lins do Rego, falavam com orgulho de seus parentes que tinham a ousadia de trabalhar no Recife:
No engenho os trabalhadores eram alugados. Achava muito bonito quando a negra Joana dizia na “rua” falando de uma filha que se fora para Recife: – “Maria está empregada em casa de uma família”. Joana mesmo frisava a palavra para ofender a todos eles que eram como escravos, sem dia de serviço pago, trabalhando pelo que comiam, pelo que vestiam.101
A atração de cidades como Salvador e Recife permitiram migrações voluntárias e involuntárias. Muitas meninas, ainda adolescentes ou nem isso, podiam ser entregues por pais
98
Ver BITTENCOURT, A. R. Violeta & Angélica. Jornal de Notícias, Nov. 1906, p. 3-4.
99
Ver FONTES, Amando. Dois Romances: Os Corumbas; Rua do Siriri. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1961, p. 314.
100
Ver REGO, J. L. do. O Moleque Ricardo. Rio de Janeiro: José Olympio Editora, s/d, p. 7.
101
e outros parentes para serem criadas por famílias, o que, na prática, era torná-las criadas destas famílias. Histórias de torturas, de quase escravidão, de violências diversas, compõem a vida de inúmeras domésticas da miséria.102
Para não alongar os exemplos, cito apenas mais um, por seu caráter singular. Narrando suas memórias e crônicas no livro O Povoado, Sylvio Rabello conta a história da mulata “nascida de ventre livre” de nome Maria Campina, uma filha bastarda do engenho Cipó- Branco, da Zona da Mata Norte de Pernambuco, e que era uma quase irmã de certa Dona Vértula. Com o casamento de Vértula, “Cipó-Branco se fechou para a bastarda. Se foi ciúme, prevenção ou enjôo, não posso adiantar. Maria Campina arrumou os muafos e bateu-se para Aliança; fez-se na lavagem e no engomado para viver.” Caso interessante e pouco estudado de migração do engenho para um simples povoado, onde ela estava “Bem ajustada”, e sabia da vida de todo mundo. Recife, contudo, vai ser o horizonte de uma filha adotiva da mulata, uma “mulatinha que chamava Dersolina e que nós corrigimos para Jocelina”. Com medo de Jocelina se perder na prostituição como Aninha, filha biológica da lavadeira que se tornou amante de certo senhor de engenho, Maria Campina entregou Jocelina para a família do memorialista e, “ainda na flor da idade, passou a ajudar a criação da caçula Maria Isaura.” Quando a família de Sylvio Rabello se mudou para o Recife, levaram Jocelina. Para surpresa e, talvez, desapontamento da família, Jocelina preferiu voltar para Aliança: “Mas quem disse que ela se demorou? Menos de um ano, apertada pela saudade da vida descampinada de Aliança, voltou. Casou pouco depois com o preto Cosme, baliza do Clube dos Lenhadores.”.103
Se os registros qualitativos permitem identificar migrações e deslocamentos espaciais responsáveis pela presença de muitas mulheres no mercado de serviços domésticos remunerados de Salvador e Recife, outras fontes possibilitam nomear lugares e pessoas, e assim fornecer um quadro quantitativo mais amplo da formação deste mercado.
Os processos criminais de defloramento, estupro, lesões corporais e furto, na qualificação das testemunhas, rés e autores, não raro, fornecem a naturalidade e a profissão. O
102
Uma das principais militantes do movimento que deu origem ao Sindicato dos Trabalhadores Domésticos do Recife, Lenira Maria de Carvalho, fora empregada doméstica, sem receber salário, na casa grande de um engenho da zona da mata alagoana antes de se mudar para o Recife para “cuidar de um dos filhos do proprietário do engenho”, em 1946. Em Salvador, aquele que enxerga a figura batalhadora de Creuza Maria Oliveira, sua luta contra o racismo, o trabalho infantil e pelos direitos das empregadas domésticas, precisa notar ainda a orfandade, o abandono, a vida sem infância de muitas outras mulheres. Ver CHARF, C. (Coodenadora). Brasileiras
guerreiras da paz: Projeto 1.000 Mulheres. São Paulo: Contexto, 2006, p. 34-37 e p. 98-101.
103
Ver RABELLO, S. O Povoado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Brasília: INL, 1980, p. 130-131. Rabello só em parte era descendente de senhores de engenho. Seu pai mesmo era um comerciante, sem terras, mas tenente da Guarda Nacional. Nasceu em 1899 e suas histórias se remetem ao começo do século XX.
tom muitas vezes amplo de referir à “Bahia” e “Pernambuco” esconde, sem dúvida, origens mais particulares. Mas em Salvador encontrei uma riqueza de dados maior do que para Recife: os registros das domésticas na Secretaria de Polícia, onde elas declinavam seus nomes, endereço onde estavam empregadas, e, entre outras informações, o lugar de seu nascimento.104 Em Recife, não dispus de tais registros, e foram utilizados os processos criminais e o raro inventário de uma lavadeira. Assim cheguei a mapear o lugar de procedência das domésticas, conforme quadros abaixo:
Quadro 1 – Origem das mulheres empregadas domésticas de Salvador conforme atribuição da documentação (1870-1910)
Lugares Números %
Salvador 33 27,5
Bahia 34 28,33
Outras localidades da Bahia 34 28,33
Sergipe 6 5,0
África 2 1,66
Europa 2 1,66
Pernambuco 2 1,66
Brasil 2 1,66
Rio Grande do Sul 2 1,66
Alagoas 2 1,66
Maranhão 1 0,83
120 100%
Fonte: APEB, Processos Criminais; APEB, Seção Colonial, Polícia, Maço 6505, Secretaria de Polícia, 1887. 105
104
Ver APEB, Seção Colonial, Polícia, Maço 6506, Secretaria de Polícia, 1887.
105
Para a composição do quadro 1, foram utilizados os processos criminais (69 registros) e os dados das domésticas que se registraram na Secretaria de Polícia de Salvador (51 registros). Ver APEB, Seção Colonial,
Quadro 2 – Origem das mulheres empregadas domésticas de Recife conforme atribuição da documentação (1870-1910) Lugares Números % Recife 1 3,33 Pernambuco 22 73,33
Outras localidades de Pernambuco 4 13,33
Paraíba 1 3,33
Crioula 1 3,33
África 1 3,33
30 100%
Fonte: IAHGP, Processos Criminais; Memorial de Justiça de Pernambuco, Inventário da africana Benedicta, 1890. 106
Os registros de domésticas na Secretaria de Polícia de Salvador são dados mais específicos em termos de localização, embora alguns casos contenham indicações muito vagas. Expressões como “desta cidade”, ao lado de algumas freguesias, nem sempre são tão claras. A freguesia de Itapuã, por exemplo, pertencia a Salvador e não está apresentada como tal. Paripe também. A “Freguesia de Santa Anna”, assim separado, não parece ser de Salvador