3 Apprentissage hors ligne de représentations de documents basée sur deux espaces latents
3.1 Apprentissage de représentations basées sur le texte des documents
A etnografia, enquanto metodologia de abordagem para um determinado fato social, se utiliza de variadas técnicas que, combinadas, possibilitam ao pesquisador atingir seus objetivos de investigação. Dentre elas, podemos citar o trabalho de campo, a observação participante, a análise documental, as entrevistas em profundidade e o diário de campo. Não se pode deixar de citar as novas terminologias para a etnografia, surgidas em função de novos suportes tecnológicos, como a fotoetnografia e a videoetnografia.
A tecnologia deu margem ao surgimento de novas formas de abordagem e de novos campos de pesquisa para a etnografia. Forsyth e Iedema (2005) afirmam que o uso do suporte de vídeo na investigação etnográfica, aqui denominada videoetnografia, proporciona acesso a dados de uma maneira que permite uma compreensão mais profunda dos fenômenos observados, em função de detalhes nem sempre possíveis de serem registrados em toda a sua gama nas notas de campo ou nos eventuais registros fotográficos. Iedema et al (2004, p.1656) citam como possibilidades adicionais de registro os significados interpessoais no nível da fala e da conduta. Esses significados devem ser também levados em conta como elementos adicionais de discurso sujeitos a análise e interpretação, sem contar a “dinâmica corporal e plasticidade facial”, só possíveis de serem registradas em vídeo.
O surgimento da fotoetnografia, anterior à videoetnografia, nas palavras de Recuero (2006), traz uma maior possibilidade de clareza e compreensão de fenômenos sociais e culturais observados. Atente-se que, no uso da fotografia, a observação participante, momentaneamente, se torna essencialmente observação, mas que, para a etnografia, significa que “o valor da câmera como um instrumento etnográfico é similar ao gravador de áudio: a câmera fornece um traço preciso dos eventos que deixam uma grande liberdade para a interpretação analítica” (MELLEIRO e GUALDA, 2006, p.83).
O uso da fotografia como suporte à etnografia é relativamente recente, mas é anterior ao uso da expressão fotoetnografia, empregada pela primeira vez, em português, em Achutti (1997). O primeiro trabalho etnográfico que pode ser caracterizado como uma fotoetnografia é o de Bateson e Mead (1942) que apresenta um retrato literal da cultura da ilha de Bali, na Indonésia através de 700 fotografias selecionadas no meio de um acervo de 25.000 fotografias preto e branco tiradas em um período de quatro anos que esses dois antropólogos permaneceram na ilha de Bali. Há trabalhos anteriores classificados como tendo indícios de fotoetnografia, remontando ao século 19, mas que não tiveram o impacto e a expressão que o trabalho de Bateson e Mead tiveram no campo da antropologia visual (BONI e MORESCHI, 2007).
Vale ressaltar que a utilização da imagem não implica em desnecessidade de uso do texto. Ao contrário, como ressaltam Achutti e Hassen (2004), o texto e a imagem podem (e devem) se complementar de forma a ampliar a compreensão de significados, fazendo com que um avance a partir dos limites do outro. O que se vê é a possibilidade técnica existente na fotografia de compartilhar a forma de apreensão do contexto social observado pelo etnógrafo do mundo do observado e possibilita que o leitor experimente também o estranhamento do etnógrafo em sua investigação (AGAR, 1980).
3.1.1.1 O Trabalho de Campo
Quando se fala em trabalho de campo, todas as outras técnicas fazem parte desse que compõe a maior parte do todo investigativo que se caracteriza na etnografia. Como também afirma Agar (1980, p.2), “o nome para ‘fazer etnografia’ é ‘trabalho de campo’, [apesar] de haver uma tradição na antropologia cultural de que alguém não pode apreender como fazer o trabalho de campo apenas falando a respeito”.17
Fetterman (1998) chama a atenção para alguns pontos a serem observados quando se inicia o trabalho de campo de um etnógrafo, que lhe demandará muitas vezes esforços para aprender uma nova linguagem, novos rituais e uma gama extensa de novas informações culturais. A esses pontos, o autor denomina “princípios subjacentes a todas as formas de pesquisa etnográfica” e que seriam: permissão, honestidade, confiança, anonimato18, reciprocidade, “conhecimento culpado e mãos sujas” e trabalho rigoroso (FETTERMAN, 1998, p.138-145).
Esse autor julga imprescindível que o etnógrafo obtenha consentimento, formal ou não para conduzir seu trabalho investigativo. A isso, ele denomina o “princípio da permissão”. Com certeza, a forma de obter essa autorização irá mudar substancialmente, de acordo com o ambiente onde o mesmo irá trabalhar. No caso desta tese sobre o fazer estratégico do Grupo Corpo, a autorização veio por meio de uma entrevista com o diretor geral do Grupo, Paulo Pederneiras, na qual se explicou os motivos e interesses em se fazer essa pesquisa com eles. Apesar de o mesmo ter aberto mão inclusive do compromisso ético que normalmente é feito
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Apesar do autor Agar (1980) declarar que há, na literatura, uma clara ausência de explicações sobre como fazer etnografia, deve-se discordar nos dias de hoje em que se tem já alguma oferta sobre essa prática, como o próprio, além de Fetterman (1998), dentre outros. Uma pesquisa rápida na livraria cultura indica pelo menos mais três livros descrevendo a técnica (WWW.livrariacultura.com.br-acesso em julho de 2008).
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para resguardar as organizações em relação a informações concernentes à pesquisa, o pesquisador optou por não iniciá-la sem antes apresentar o acordo de conduta.
Fetterman (1998) destaca a importância de o etnógrafo estar sempre pronto a responder questionamentos sobre sua pesquisa e de como pretende fazê-la, uma forma de respeitar o “princípio da honestidade”. Haverá oportunidades em que o detalhamento deverá ser o mais amplo possível, assim como pode haver ocasiões em que uma explicação superficial será suficiente. Mas será a audiência que determinará o nível de aprofundamento e não o etnógrafo, cabendo a ele ter sensibilidade para saber a que ponto de detalhes deverá chegar para satisfazer seu inquiridor, a qualquer momento durante a investigação em que isso aconteça.
Ele julga ainda que técnicas de disfarce sejam desnecessárias e inapropriadas para o trabalho etnográfico e que não há necessidade de se envidar esforços em táticas e ardis para forçar pessoas a reagir a algum estímulo, em busca de compreensão de fatos observados. A esse princípio, o autor denomina de princípio da honestidade.
Na etnografia realizada junto ao Grupo Corpo, o princípio da honestidade foi observado com rigor, não tendo sido iniciada a pesquisa sem antes ser apresentado o termo de compromisso relativo à forma de lidar com as informações levantadas na pesquisa. Todas as vezes em que uma pessoa dentro da organização inquiriu sobre a natureza do trabalho realizado pelo pesquisador, foi respondido sempre com o objetivo de satisfazer plenamente o inquiridor. É necessário esclarecer que esse nível de interesse pela atividade realizada pelo pesquisador variou desde uma simples curiosidade, satisfeita às vezes com uma resposta superficial, até questionamentos mais profundos sobre aspectos éticos envolvidos e riscos relativos às pessoas entrevistadas. Todas foram atendidas satisfatoriamente já que ninguém se furtou a ceder espaço para uma entrevista quando solicitado.
Como “princípio da confiança”, Fetterman (1998, p.140) declara que o pesquisador precisa que as pessoas com quem irá trabalhar confiem nele, pois, ao conseguir estabelecer vínculos de confiança com essas pessoas, se tornará capaz de aprender sobre “as várias camadas de significado” existentes nas ações e fatos observados. Esse princípio se apóia fortemente no princípio anteriormente citado, da honestidade, e é possível de ser percebido através de comunicações verbais e não verbais.
Na pesquisa levada a termo, observou-se um crédito inicial de confiança, em termos de abertura de todos os canais de comunicação dentro do Grupo Corpo e pleno acesso a todas as pessoas, dependências e documentos internos. A postura adotada pelo pesquisador foi de tentar provar por gestos e atitudes que seria merecedor dessa confiança. Uma preocupação do
pesquisador foi de ser o mais ético possível frente aos fatos observados, evitando posicionamentos, que às vezes eram cobrados por alguns atores sobre questões internas do Grupo Corpo. O pesquisador sempre deixou claro que seu papel era de observador e aprendiz, o que dificultava algum posicionamento, principalmente quando posições antagônicas eram apresentadas.
O pesquisador acredita que esses laços de confiança se estreitaram e ficaram evidentemente fortes a partir do momento em que os atores envolvidos na organização Grupo Corpo, deram acesso irrestrito inclusive a suas residências e lares, deixando que o pesquisador fizesse parte de aspectos mais íntimos de suas vidas. Durante a construção da análise situacional da grounded theory, o pesquisador teve de voltar diversas vezes para manter contato com os membros da organização e, em nenhum momento, teve problemas nesses contatos.
Algumas vezes, o teor das informações prestadas pelos informantes19 pode, como Fetterman(1998, p.142) diz “destruir a delicada teia de inter-relações em uma vizinhança, uma escola ou em um escritório”. Para evitar interpretações inadequadas ou até mesmo danos à imagem pessoal desses informantes, é facultada ao pesquisador a utilização de pseudônimos, observando assim o “princípio do anonimato”. Da mesma maneira, pode-se ocultar a identificação do locus de pesquisa e, até mesmo, codificar dados confidenciais para evitar que caiam em mãos indevidas.
O etnógrafo deve exercer permanentemente uma avaliação da importância ou não de se revelar alguma identidade, bem como da possibilidade de desprezar dados revelados, devido a potenciais riscos às pessoas envolvidas. Nessa pesquisa, o anonimato não se fez necessário nos dados recolhidos. Informações que foram registradas e que poderiam suscitar o uso do anonimato não foram utilizadas por não se aterem ao escopo desse trabalho e estão armazenadas em bancos de dados protegidos por senha pessoal do observador.
Para Fetterman (1998), o espaço e o tempo que o etnógrafo utiliza das pessoas em seu locus de pesquisa geram em alguma monta, uma obrigação de retorno. Algumas vezes, essa obrigação pode ser satisfeita pelo simples fato de o pesquisador se dispor a ouvir de forma
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Agar (1980) descreve a respeito de pessoas que se tornam chaves pelo nível de abertura propiciado e que nos possibilitam uma melhor compreensão de fatos sociais observados e até mesmo de relatos de terceiros, além de indicação de outras pessoas chaves para elucidar os significados percebidos. A elas, ele denomina de informantes chaves ou assistentes no campo. No Grupo Corpo houve sete pessoas que tiveram esse tipo de relação com o pesquisador.
acurada os comentários que soam muitas vezes como desabafo de seus entrevistados. Mas haverá situações nas quais o etnógrafo e suas habilidades poderão ser úteis para o grupo social investigado e sua participação e contribuição de alguma forma para o grupo será vista com bons olhos, desde que não seja invasiva ou, de alguma forma, antiética. A essa obrigação, o autor denomina o “princípio da reciprocidade”
Na investigação do Grupo Corpo, o pesquisador assumiu atividades de técnico de montagem de palco e cenários durante as excursões, além de ter feito um registro digital de toda a memória armazenada em forma de reportagens, entrevistas e relatos na mídia, desde a fundação do Grupo, em 1976. As habilidades do pesquisador como especialista na área de Tecnologia da Informação foram repetidas vezes requisitadas pelos usuários de computadores dentro da organização. Foi realizado também um trabalho de apoio junto à ONG patrocinada pelo Grupo Corpo, o Corpo Cidadão, onde o pesquisador usou dos conhecimentos adquiridos em educação para dar suporte a algumas atividades pedagógicas junto aos docentes da ONG e seus dirigentes.
Fetterman (1998) alerta para a possibilidade de uma pesquisa etnográfica envolver conhecimento confidencial de atividades ilegais ou ilícitas e, em algumas situações, tomar decisões que poderiam ser julgadas como não éticas. Pode acontecer também, em meio a uma observação participante, que ocorram situações onde o etnógrafo, em face de seu envolvimento, não possa situar inocentemente, no sentido de não se perceber fazendo algo moralmente, socialmente ou mesmo legalmente condenável.
O autor cita duas situações que ocorreram, como no caso de um estudante tratado como informante em sua pesquisa que lhe mostra conhecimento de locais onde adquirir droga e ele decide não manifestar essa informação na sua pesquisa. Cita também outra situação onde testemunhou um caso de abuso sexual em uma escola por um funcionário e que foram tomadas medidas tópicas, mas que mantiveram o caso abafado para evitar maiores repercussões para com a escola. São situações assim que ilustram o que o autor denomina de “princípio do conhecimento culpado e das mãos sujas”.
Analisando os dois exemplos, percebe-se que tomar decisões éticas não é simples o tempo todo e os riscos crescem exponencialmente quando se lida com culturas diferentes, o que pode ocorrer em etnografias feitas tanto em agrupamentos sociais extremamente distintos geograficamente, como também em microculturas inseridas na mesma localização geográfica do pesquisador. Na etnografia do Grupo Corpo, não houve fatos ou incidentes dessa natureza.
A investigação etnográfica demanda atenção em vários pontos, a começar pela qualidade em todas as etapas do trabalho, como nos cuidados com os participantes, o
tratamento preciso das informações colhidas, as relações estabelecidas com os envolvidos e o comportamento do pesquisador. Fetterman (1998) destaca que qualquer ação que diminua a credibilidade da pesquisa realizada, como falsificar dados, se comportar de maneira não profissional ou mesmo plágios na construção da pesquisa afeta não só o pesquisador, mas toda a comunidade científica.
Para atender o “princípio do rigor do trabalho”, a permanência junto ao Grupo Corpo se estendeu por um período de 11 meses iniciando em meados de janeiro de 2007 e se encerrando em meados de dezembro do mesmo ano. Nesse ínterim, foram realizadas diversas entrevistas, totalizando 214 (duzentos e catorze) segmentos variando entre dez minutos e 50 minutos de duração. Foram coletados aproximadamente 6.000 documentos, entre reportagens a jornais de todo o mundo, documentários gravados em áudio e vídeo, além de livros publicados sobre o grupo. Foram realizadas também 11.000 fotografias além de aproximadamente 120 horas de vídeo.