l’apprentissage par renforcement
5.2 Apprentissage par renforcement indirect
Uma palavra nova, um neologismo, por exemplo, começa a acumular camadas de
sentidos a partir do momento em que é enunciada, lançada ao mundo. Quando o ex-ministro
do trabalho do governo de Fernando Collor, Antônio Magri, proferiu, na década de 1990, que
o Plano Collor era imexível, cunhou um termo aceitável do ponto de vista dos processos de
formação de palavras, mas que virou chacota nacional. A palavra virou símbolo de uma
eloquência forçada, e sobre ela respingou o fracasso do Plano Collor e do próprio ex-ministro,
que logo em seguida encerrou sua carreira de político e sindicalista, acusado de recebimento
de propina. De lá para cá o termo já está dicionarizado, mas quando alguém o utiliza é comum
que seja com um tom pejorativo, irônico, muitas vezes com o uso de aspas e referindo-se a
uma situação política desordenada. Outros contextos de enunciação, desde então, agregam
novos sentidos à palavra, em uma dinâmica contínua.
Falamos do caso de um neologismo, o que nos permite simular ou supor o momento
da primeira enunciação, e mesmo assim essa estreia não pode ser vista como neutra ou
transparente. De fato, a palavra se encontra com o mundo antes mesmo de ser proferida,
quando ainda é linguagem interior, pois ali já se faz presente sua coloração histórica e já se
encontra a orientação ao outro, de que falaremos mais adiante. No caso do imexível de Magri
diversos elementos convergiram para o termo enquanto ato interno e o atravessaram no
momento da enunciação: a história pessoal do ex-ministro, seu cargo, a situação político-
econômica do país, a necessidade de defender o plano proposto, o governo no qual se inseria
– junto com todas suas prerrogativas e questões partidárias – a pressão dos argumentos
contrários, a imprensa, a opinião pública, os adversários políticos, e uma lista infinita de
outros elementos, mais ou menos explícitos. Essa abordagem vai de encontro à distinção
saussureana entre langue e parole, haja vista que não concebe a língua em um estado de
dormência, um reservatório de palavras ao qual apelamos para formular nossa fala, momento
em que, finalmente, a língua se atualizaria. Se uma palavra nos ocorre, teremos que lidar com
suas camadas, como na metáfora da cebola, que dizem respeito não só ao seu significado, ou
seja, ao conteúdo a que remete como componente verbal da língua, mas também aos sentidos
que com ela construímos cada vez que é proferida. A ideia de enunciação, cara à teoria
dialógica, costura então a palavra à situação em que ela emerge em sua potência discursiva.
No texto Discurso na vida e discurso na arte, Voloshinov & Bakhtin (1976, p.9) dizem-nos
que: “A enunciação está na fronteira entre a vida e o aspecto verbal do enunciado; ela, por
assim dizer, bombeia energia de uma situação da vida para o discurso verbal, ela dá a
qualquer coisa linguisticamente estável o seu momento histórico vivo, o seu caráter único”.
Desse modo, a ideia de enunciação engloba todo o evento da interação verbal e seu entorno,
transformando-o em algo único quanto à combinação dos elementos constitutivos.
A noção de evento é bastante pertinente por evidenciar a singularidade da enunciação,
situando os interlocutores numa dimensão de tempo e espaço. Já que a enunciação é um
evento único, e que seus elementos não podem ser novamente reunidos em outra situação
idêntica, o enunciado é irrepetível. Apesar disso, não deve ser visto como proferição isolada,
pois cada enunciado é um elo da cadeia muito complexa de outros enunciados, como frisa
continuamente Bakhtin em Estética da criação verbal (2003). Como realidade concreta, ele é
passível de ser analisado, o que nos permite enxergar este objeto de estudo como parte de uma
atividade viva, como um objeto que fala.
Algumas particularidades dessa unidade interessam-nos para que possamos
compreender os enunciados numa abordagem dialógica. Bakhtin (2003) destaca:
a) as fronteiras, que são criadas pela alternância dos sujeitos do discurso e cuja composição
mais convencional é o diálogo, apesar de estar presente em qualquer situação
comunicativa. Marca também a individualidade de um enunciado frente aos que lhe
antecederam e aos que vão lhe suceder;
b) o acabamento, que, junto com as fronteiras, indica a posição do sujeito e permite uma
atitude responsiva por parte do seu interlocutor, gerando as réplicas. Reforça que as
relações se estabelecem entre enunciados completos, e não entre palavras ou orações
descontextualizadas. A ideia de “totalidade acabada” do enunciado diz respeito ao fato de
que ele formalmente deve ser interrompido em algum momento, de acordo com o
tratamento exaustivo do objeto, o querer-dizer do locutor e as formas típicas de
estruturação do acabamento, o que remete aos gêneros discursivos como modos de
acontecer do enunciado;
c) A expressividade, que não é própria do item lexical deslocado, mas reside na relação que
o autor estabelece com o texto, imprimindo seus juízos de valor, reacentuando a palavra;
d) A tonalidade dialógica, já que toda enunciação é orientada para o outro e gera uma
resposta. De acordo com a situação e o gênero do discurso esse interlocutor pode ser mais
ou menos marcado, pode interferir mais ou menos na composição do texto, mas está
sempre presente.
Já no texto Discurso na vida e discurso na arte, Voloshinov & Bakhtin (1976, p. 5)
detalham algumas questões que compõem o contexto extraverbal do enunciado, apontando
três fatores que permitem com que duas pessoas interajam:
a) o horizonte espacial comum dos interlocutores (a unidade do visível);
b) o conhecimento e a compreensão comum da situação por parte dos interlocutores; e
c) sua avaliação comum dessa situação.
Esses elementos compõem o não dito, de que a palavra não dá conta, porque só se
atualizam no acontecimento da enunciação. Nesse sentido, o dito e o não dito, ou seja, o
realizado e o presumido se complementam, constituindo ambos o enunciado concreto.
Podemos pensar no exemplo de uma orientação acadêmica, em que orientador e orientando se
encontram para ler e discutir juntos um trecho da dissertação deste último. Eles se reúnem
numa sala de trabalho, sentam lado a lado e olham para a tela de um computador (o horizonte
espacial comum); leem o mesmo texto, que será apresentado brevemente a uma banca
examinadora (compreensão da situação); sabem que este é um fator decisivo para a titulação
do estudante, que precisa ainda terminar as análises, corrigir trechos, acertar a formatação,
enfim, finalizar sua pesquisa (avaliação da situação). Todo enunciado que emergir nesse
cenário estará impregnado por esse contexto extraverbal, e por isso pode-se dizer que é um
fenômeno fundamentalmente social, pois sempre comporta em si, junto ao material verbal,
uma unidade material do mundo (a sala, o computador, a dissertação) e uma unidade das
condições reais de vida (o mestrado, a orientação, os papéis sociais, os prazos, etc). O eu, com
as emoções individuais que imprime em sua fala, está então assentado sobre um nós, sobre
uma avaliação social baseada em julgamentos de valor compartilhados, seja por uma dupla
que têm o mesmo horizonte real imediato – orientador e orientando – seja por uma classe
social inteira – a comunidade acadêmica, por exemplo.
Ao compartilhar um horizonte, os falantes passam também a compartilhar enunciados
presumidos, que serão mais estáveis e constantes em comunidades maiores, para as quais
pequenas alterações de contexto não geram grandes mudanças de julgamento de valor. Por
exemplo, se no dia anterior daquele encontro entre orientador e orientando houve uma
mudança inesperada na data de defesa da dissertação, essa será uma informação importante
para se compreender a tensão na fala do mestrando. No entanto, esse acontecimento tem
pouco impacto para a fala geral da comunidade de linguistas, na qual os dois personagens se
inserem. Dentro de um grupo ou classe, questões mais fundamentais e substanciais são
tomadas como pilares para que os enunciados circulem, de tal modo que muitas vezes nem
são mais questionadas ou mesmo verbalizadas. Isso acontece porque determinadas avaliações
sociais e julgamentos de valor já estão fundidos ao discurso dos representantes de um grupo.
Podemos pensar, por exemplo, que não seria necessário explicar que há um viés marxista no
pensamento de Voloshinov se o interlocutor for uma plateia de pesquisadores em um evento
acadêmico sobre a teoria dialógica, pois essa já é uma informação presumida.
Na comunicação, seja ela oral ou escrita, a expressão mais evidente desses
julgamentos é a entonação, que carrega um tom emocional-volitivo, pois “expressa nossa
atitude perante o objeto da enunciação, atitude que pode ser feliz, aflita, maravilhada,
interrogativa etc.” (VOLOSHINOV/BAKHTIN, 1998, p. 41). É por isso que, em Discurso na
vida e discurso na arte, Voloshinov & Bakhtin (1976, p. 6) atribuem à entonação o papel de
estabelecer “um elo firme entre o discurso verbal e o contexto extraverbal – a entoação
genuína, viva, transporta o discurso verbal para além das fronteiras do verbal, por assim
dizer”. Já vimos, entretanto, que não se trata de uma avaliação puramente pessoal, mas que se
alicerça na interação social entre o falante, o ouvinte e o objeto da enunciação (sobre o qual se
expressa uma atitude de indignação, confiança, desprezo, acolhimento, etc).
Seja de forma mais explícita ou menos explícita, reverberando dentro de um coletivo
ou em um horizonte bem restrito, todos os fenômenos que nos cercam estão impregnados de
julgamentos de valor, advindos das condições de vida, revelando a dimensão axiológica da
linguagem, é o que nos lembram Voloshinov & Bakhtin (1976).
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The DART-Europe E-theses Portal
(Page 105-108)