No processo de registro de um bem imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) destaca-se o papel dos intelectuais, na produção de dossiês que buscam demonstrar ao Conselho Consultivo6 a
necessidade do registro do bem e de promoção de políticas de salvaguarda. Visto a importância destes dossiês ao inventariamento e registro do bem, analisaremos o papel de dois intelectuais envolvidos no processo de elabo-
6 Cabe ao Conselho Consultivo do IPHAN a decisão pelo tombamento ou registro, confor- me previsto nos Decretos-lei n. 25/37 e n. 3551/2000.
ração deste instrumento. Na medida em que o processo de inventariamento da capoeira está fortemente relacionado ao entendimento que o Estado, em especial o IPHAN, tem e busca salvaguardar desta prática, a escolha destes profissionais e a metodologia aplicada estarão fortemente associadas aos pa- radigmas sobre a capoeira.
Enquanto recorte metodológico, partimos de análise anterior (CID, 2010) que se utilizou entrevistas com o coordenador do processo de instru- ção, Wallace de Deus Barbosa, e de seu assistente de coordenação, Maurício Barros de Castro. Analisou-se também o dossiê, enquanto produto discursivo, na qualidade de texto, no sentido dado por Geertz (1989).
O processo de instrução, onde se insere a produção do dossiê, consiste num dos passos do registro de um bem de natureza imaterial, conforme o Decreto-lei n. 3.551/2000, e consiste genericamente na produção de docu- mentos, textuais e audiovisuais, que construam um recorte da prática a ser registrada. Nesta dinâmica o intelectual é reiterado com destaque no proces- so, pois fica determinado pelo artigo 3º do referido decreto que é a partir de documentos de caráter técnico que se produz o recorte do bem a ser registra- do. Ressalta-se a importância do dossiê neste processo, pois seu texto é um importante instrumento na orientação das políticas de salvaguarda prove- nientes do registro. A instrução, incluindo-se o dossiê, poderá ser realizada por instituição “que detenha conhecimentos específicos sobre a matéria”,7
reafirmando os intelectuais numa posição central nesta dinâmica de produ- ção do conhecimento sobre o tema. É a partir da instrução que se constrói o recorte sobre o bem a ser inventariado, o que se faz entendendo os bens de natureza imaterial com caráter dinâmico e inseridos em complexos cul- turais. É tal ferramental que permite o entendimento do bem enquanto pos- suidor de caráter único, ainda que possa ter formas múltiplas e dinâmicas.
Atentando para esta característica de recorte da prática e de sua ca- racterística textual, encontramos no dossiê semelhança ao texto de relato etnográfico. Assim, seguindo o caminho proposto por Geertz (1989) e Cli- fford (1998), onde os relatos etnográficos devem ser lidos e compreendidos enquanto “textos” que trazem marcas de seus atores, entendemos que todo o processo de instrução é influenciado pelas posições que ocupam os intelectu- ais no campo da capoeira e do patrimônio cultural. Entendemos que alguns
dos mecanismos inerentes à produção do dossiê, devido à sua proximidade ao texto etnográfico, trazem para o processo de registro uma autoridade que está intimamente ligada à tradição da disciplina Antropologia. Assim como discute James Clifford (1998), acerca do trabalho etnográfico, a elaboração do dossiê também implica numa autoridade, pois certas vozes falarão mais alto do que outras que se utilizando do discurso científico – ou de caráter técnico – procurarão colocar-se como definidor da prática a ser inventariada.
Como é possível perceber nas entrevistas, a própria elaboração do dos- siê envolve a criação de alguns atores privilegiados. Nota-se que a montagem da equipe de trabalho e das instituições envolvidas denota uma equipe que estivesse ligada ao mundo acadêmico e ao universo da capoeira. O processo de inventariamento se deu a partir de uma recomendação do IPHAN ao La- boratório de Pesquisas em Etnicidade, Cultura e Desenvolvimento (LACED),8
laboratório que faz parte do Departamento de Antropologia do Museu Nacio- nal da Universidade Federal do Rio de Janeiro (PPGAS/UFRJ). Destacou Walla- ce Barbosa que, embora não tivesse um contato direto de pesquisa com o campo da capoeira, havia participado da banca de mestrado e vinha tendo contato com Carlo Alexandre Teixeira – Carlão –, mestre de capoeira, que fez mestrado em Ciência da Arte, defendendo dissertação sobre a musicalidade da capoeira. Segundo Wallace Barbosa, a partir deste contato entre o LACED, foi por intermédio do professor Antonio Carlos de Souza Lima (LACED/PP- GAS/UFRJ), que sabia da proximidade entre Wallace Barbosa e Carlão, que foi convidado para participar do processo do registro da capoeira.
Foi relevante durante as entrevistas os vínculos que os coordenadores assumiram ter com o universo de pesquisa e prática da capoeira, sendo tal fato estratégico na condução da metodologia. Maurício Castro (2007), além de ter realizado uma tese de doutorado sobre capoeira, é praticante de capo- eira angola e assim nos falou de sua inserção na capoeira:
Foi um pouco antes da tese, começou quando eu morava em Niterói. Final de 1997, início de 1998, foi quando eu conheci o Carlão, que dava aulas em Niterói, ali em São Domingos. Eu comecei a fazer capoeira com ele, tinha a UFF que era ali também e tinham vários estudantes da UFF que faziam aula também. Depois, as aulas passaram a ser num casarão em São Domingos também. Começou a juntar um monte de projetos nes- te casarão a partir da capoeira. Então acabou essa fase do casarão, Carlão
veio para o Rio e agente vinha ter aula aqui com ele. Até que ele foi para a Inglaterra, foi para os EUA primeiro, mas já anunciando que ia ficar um tempo fora. Ele nos apresentou ao Mestre Zé Carlos, meio que deixou com ele o grupo dele. Desde então estou treinando com o Zé Carlos. Na verdade estar dentro da capoeira angola, conhecer a história do João Grande, foi o que me incentivou a fazer o doutorado sobre esse tema.
Não apenas a coordenação, mas essa circularidade dos técnicos que pos- suíam pesquisas e entrada no universo da capoeira foi uma constante do processo como indicaram os entrevistados. Novamente Maurício Castro res- salta características do perfil dos técnicos que atuaram no inventário: “Todo mundo com formação acadêmica e com contato com a capoeira. A maioria tinha contato com a capoeira. Fotógrafo, pesquisadores, todo mundo. O Car- lão, que Foi feito mestre pelo Zé Carlos, fez parte na condição de mestre.”
Nota-se que inclusive as figuras do mestre e pesquisador se confundem na equipe. Nesta fala percebemos que Carlão – Carlo Alexandre Teixeira – que foi uma figura central na montagem da coordenação, segundo o dossiê faz parte da equipe técnica do Rio de Janeiro que participou da “pesquisa histórico-documental e de campo”.
Perguntamos a Wallace Barbosa qual seria o papel do intelectual que cir- cula no universo da capoeira? Como foi montada a equipe? Se foi proposital chamar pessoas que tivessem abertura no meio? Em suas palavras:
Foi estratégico. Pessoas que fizessem a gente chegar até determinados lugares, determinadas pessoas. Nosso pesquisador ideal é também um mediador cultural. Não é só um mediador, é um produtor. Em determi- nados momentos tínhamos que preparar um encontro, noutro arrumar um berimbau para um mestre. Conseguir uma estrutura para que o mes- tre pudesse ir ao encontro. Tudo isso se valendo de quem? Das pessoas que tinham chegada nestes mestres, das pessoas de quem os mestres confiavam. O tempo todo nos valemos de redes. De redes que já estavam constituídas. Então faz sentido isso que você pergunta acerca deste pa- pel do intelectual, porque é exatamente disso que se trata. Era alguém que estava pensando a capoeira, mas que ao mesmo tempo tinha uma entrada no mundo prático da capoeira. O efeito que isso trouxe, foi criar um movimento em cadeia, um processo entrópico. De certo modo, você perde o controle da equipe. Ou seja, você não pode ter uma atitude muito fechada, em termos de planejamento da pesquisa: você tem que estar aberto a aceitar pessoas, ainda que sejam umas que te tragam dificulda- des, pessoas que não sejam simpáticas, agradáveis.
Tanto é que não se pode falar que isto foi uma iniciativa do grupo da capoeira regional, da capoeira angola, ou do mestre fulaninho. Ninguém
pode falar isso, porque tem um pouco de cada um, um pouco de tudo isso. Eu aposto neste trabalho, como um empenho que deu certo.
Nesta fala entendemos como estratégica a montagem de uma equipe que possibilitasse a entrada em determinados espaços, no caso, espaços da capoeira. Sendo assim, há indicação do universo da capoeira como amplo, no sentido de várias vertentes que realizam disputas no campo. Como pro- pomos, este campo é marcado por disputas que o processo de instrução con- siderou. Ao reconhecer o caráter multifacetado da capoeira o dossiê aponta para uma metodologia atenta a estas possibilidades. Ou seja, dada à impos- sibilidade de isenção, a constituição de redes evidentemente traz um viés ao inventariamento. Entretanto estas redes foram uma forma de facilitação do processo, assim colocou Maurício Castro:
Facilitou; porque os mestres têm uma certa ressalva com os pesquisado- res, fotógrafos, jornalistas, todos que cercam o universo da capoeira, até porque eles já foram muito usados. O próprio Zé Carlos não dá entrevis- ta, ele me deu uma, porque eu era aluno dele. Fui lá na casa dele em Nova Iguaçu. O fato de você estar ali, treinando, conhecendo as pessoas facilita sim. Mas o João Grande em si, ele é super aberto. Se eu não treinasse eu ia fazer da mesma forma.
Nossos entrevistados indicam que este papel do intelectual partícipe das redes de seu objeto se mostra produtivo na condução de entrada no universo da capoeira. Refletindo sobre as proximidades entre intelectuais e o candom- blé, prática que carrega algumas proximidades com a capoeira (CID, 2004; SODRÉ, 1988), Vagner Gonçalves da Silva (2000) discute as implicações desta relação no labor antropológico e as complexidades resultantes deste processo, no caso do candomblé. Capone (2004) afirma que há um intenso diálogo entre os intelectuais e os adeptos do candomblé devido a uma série de especifici- dades, como a necessidade de iniciação para se chegar a determinados níveis de conhecimento, além da participação em determinados rituais. No caso da capoeira, os discursos sobre a mesma estão fortemente influenciados por tex- tos de intelectuais, como apontou Vassallo (2003b). Destaque que nesta dinâ- mica há também ressignificações da prática, tanto por praticantes quanto por pesquisadores. Ao que indica, em nosso estudo de caso, o pertencimento à prática produz redes de circulação que foram fundamentais no recorte dado.
No processo de instrução, há a acepção de que a capoeira não consiste em uma prática única. Entendemos que há nessa posição metodológica uma
concepção de que existem vertentes que disputam pelo campo. Em catálogo preparado para exposição que ocorreu durante este processo no Centro Na- cional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP) no Rio de Janeiro fica claro a existência de duas vertentes que se diferenciam devido a um paradigma de um marco histórico que foi a criação da capoeira regional por mestre Bimba:
A capoeira é marcada por uma divisão histórica. Em 1928, mestre Bimba fundou a capoeira regional, que na época chamou de ‘luta regional baiana’, rompen- do com a capoeira tradicional. Os mestres de capoeira angola, principalmente mestre Pastinha, reivindicavam suas tradições, em contraponto à influência de outras lutas marciais – principalmente o jiu-jitsu, e de movimentos do batuque, outra manifestação de dança e luta afro-descendente – na prática da capoeira regional. [...] Diante das perspectivas distintas, Bimba e Pastinha se tornaram patronos respectivamente, da capoeira regional e da angola. (CASTRO, 2008)
Nossos entrevistados nos falaram da tentativa de mitigar a possibilidade da constituição de viés a partir da constituição das redes, este foi uma cons- tante e teve que ser adaptado à metodologia, como colocou Wallace Barbosa:
Nós tentamos circular ao máximo e circulamos bastante, conversamos com muita gente. Mas acabamos optando por coisas que são mais con- sensos. [...] Por exemplo, todo mundo falava do Mestre Russo, que não estava filiado nem à capoeira angola e nem à capoeira regional. A angola tem essa genealogia dos que foram alunos do Moraes no Rio. Esse recor- te também foi porque era a rede que a gente tinha. Por exemplo, não fomos ao Mano, porque não tínhamos como chegar nele. Chegamos ao Peixinho, porque tinha o contato da Bárbara Tinoco (Pantera, aluna do professor Feinho) que nos levou ao Peixinho. Mas não fomos, por exem- plo, ao Toni Vargas, ou outros.
Maurício assim nos falou da tentativa de ter membros na equipe que trouxessem possibilidade de ampliação das redes no interior do universo da capoeira, quando perguntamos se pelo fato de ser praticante de capoeira an- gola, em especial, facilitaria o trabalho:
Não sei se capoeira angola em si, mas sim por estar envolvido com a ca- poeira. Tivemos mais contato com a capoeira angola por causa do Carlão, mas também tinha o Bujão, que era da Regional e agora está com o Russo de Caxias. Que não é de capoeira angola, embora circule muito entre os angoleiros. Acaba que todos nós estávamos próximos da capoeira.
Como vimos, o universo da capoeira é extremamente multifacetado e segmentado, genericamente sendo colocado por uma separação entre seus
praticantes entre duas modalidades que se distinguem por vestimentas e mo- vimentação, dentre outros elementos. Os coordenadores apresentaram preo- cupação em trazer as duas vertentes, entretanto destacando a complexidade que seria realizar a tarefa por conta das disputas em torno destas diferenças. Neste sentido, Wallace Barbosa ressalta em sua fala a tentativa de abarcar a vários segmentos da capoeira que aceitaram fazer parte do inventário:
Tivemos o Curió, o João Pequeno, Nenel, o filho do Bimba, Ângelo Decâ- nio, Lua Rasta, que foi ótimo, uma capoeira totalmente alternativa. Aqui no Rio, uma grande conquista nossa, foi trazer o pessoal do Peixinho, do Senzala, o pessoal da regional que estava meio reticente, porque de fato, como uma questão estratégica, estávamos muito com Curió, da capoeira angola, com o mestre Zé Carlos, aqui de Santa Tereza, com mestre Rus- so, de Caxias, que também tinha um trabalho bonito a parte. Então ter trazido o pessoal do grupo Senzala, essa sim, foi uma grande conquista.
Desta forma, metodologicamente, o inventário precisou dar conta de um retrato da capoeira, que refletisse suas várias vertentes e facetas, sem que apagasse as diferenças. No que toca a discussão sobre as vertentes da capoeira Wallace Barbosa nos fala que, baseado em determinação do IPHAN, o inventário buscaria retratar a capoeira como um todo. Em suas palavras:
Numa das vezes que fui cobrado do Curió a esse respeito, num encontro público em Salvador, o Curió falou: “não, porque o rapaz (eu) mandou o papel para Brasília e chegou lá e cortaram (capoeira angola), eu quero saber o nome da pessoa que cortou”. Eu falei: Mestre, vamos mudar de assunto, porque se o senhor falar isso, eu nego (risos) Ele queria botar lenha na fogueira. Quando coloca capoeira e não capoeira angola, já é um indicativo de como eles (IPHAN) querem o processo. Você está pensando numa capoeira nacional. Ainda que multicultural, ainda que caudatária da herança afro-brasileira, ainda que mesclada, ainda que marcada pela nossa desigualdade social. Você tem uma capoeira majoritariamente “branca” no Novo Leblon, tem a capoeira de rua, da Cinelândia, de Ca- xias, tudo isso está dentro deste bojo. Capoeira é isso. Este foi o indicativo do Peixinho. Em nosso primeiro encontro, ele dizia, eu acho que temos que superar esse negócio: “a capoeira é uma só”, ele dizia. Quando ele falou isso em nosso I Encontro, o Curió que foi o último a falar, provocou: “eu quero que o colega aí não vá se irritar comigo não, mas esse negócio de que capoeira é uma só, eu acho que não é bem por aí não”. Depois ele se justificou, dizendo da singularidade do que ele fazia, que distinguia do que outros faziam. Eu sei que o inventário o tempo todo foi perme- ado com este tipo de questão. Eu te digo que estas questões não foram resolvidas. O inventário foi um retrato daquele momento. Estas questões
não foram resolvidas, mas estão lá, apontadas como questões para serem resolvidas ou não. [...] Ele (o inventário) não está propondo um essencia- lismo da capoeira, em nenhum momento ele se propõe a isso. Isso não é algo do inventário, mas é uma tônica dos processos do DPI.
Ao falar que o inventário não propõe um “essencialismo da capoeira”, Wallace Barbosa ressalta a ideia de dinamicidade que fundamenta os proces- sos de registro de bens imateriais, na medida em que define o bem (o objeto a ser inventariado) enquanto algo mais amplo do que as possibilidades de de- marcação pelo texto do inventário. Ou seja, são suas estruturas, entendidas en- quanto possuidoras de caráter dinâmico que constituem o bem, o inventário se coloca a dar um “retrato” que não totaliza ou congela o bem. Como colocou Wallace Barbosa:
Como não poderia ser de outra forma, o que fizemos foi um recorte pos- sível. Partimos da imagem de um “retrato instantâneo”. O que estava acontecendo naquele momento em termos de capoeira. Nunca tivemos a pretensão de fazer uma coisa exaustiva ou definitiva, nestes termos.
Neste sentido o recorte dado para a construção do inventário partiu das cidades portuárias tidas como nascedouros da capoeira, como coloca o dos- siê, devido a grande quantidade de escravos africanos que entraram no país: “Cidades como Salvador, Rio de Janeiro e Recife receberam um grande con- tingente de africanos escravizados e se tornaram verdadeiros “santuários” da capoeira antiga.”
Wallace Barbosa assim nos fala do recorte e da necessidade de definição das formas de ação:
No processo do Inventário, desde que aceitamos (eu e o Maurício) encarar o desafio foi de um modo diferencial, em relação aos outros inventários já realizados. No processo da capoeira, não podíamos tratar a capoeira como a panela de barro, como foi com o jongo ou mesmo com o acarajé. A ca- poeira está no mundo, está no Brasil: literalmente no mundo. Como é que vamos lidar com um fenômeno multifacetado, que é música, é dança, per- cussão e também contemplar as variações entre os mestres e as vertentes? Como é que se lida com isso? Sem dúvida tivemos que fazer um recorte. [...] Todos os investimentos neste sentido tinham de ser negociados do ponto de vista do orçamento. Eu te confesso que até hoje não entendo muito bem como é que funcionam essas coisas. A gente ia falando: há necessi- dade de ir a Recife, a necessidade de fazer um filme. Ela ia trabalhando mais essa parte administrativa. Tinha a necessidade de uma equipe gran- de. Contando com muito material humano e de qualidade, com alunos e
equipamentos de vídeo da UFF, nos engajamos neste processo em vários níveis: de graduação, mestrado, na Bahia, tínhamos doutorandos. Come- çamos em duas cidades, Rio de Janeiro e Salvador, depois Recife. Consti- tuímos um grupo de pesquisa aqui no Rio, mais um em Salvador e outro, em Recife [...] e foi assim que a gente fez.
Para a metodologia de inventariamento foram realizados encontros, que segundo Wallace Barbosa, foram fundamentais para o processo, na me- dida em que buscou dar conta da multiplicidade da capoeira, como percebe- mos em sua fala:
Os encontros serviram para ter uma pauta de reivindicações e para pro- duzir o chamado “termo de anuência”. Por que o termo de anuência? O decreto prevê que para o bem ser reconhecido ele tem que ter anuência dos atores, daqueles que participam daquela prática. Na verdade, esta prerrogativa é um tanto vaga, na medida em que, em termos quantita- tivos ou qualitativos, não fica muito clara a dimensão ou natureza des- te “termo”. [...] Partimos do pressuposto que quem estava no encontro,