CHAPITRE 2 : ETUDE DES DEFAUTS SURVENUS SUR LE RESEAU DE DISTRIBUTION
2.3. Appréciation de la fiabilité du réseau de distribution HTA de Cotonou Est
“A revelação da identidade através do discurso e o estabelecimento de um novo início através da ação incidem sempre sobre uma teia já existente, e nela imprimem suas conseqüências imediatas (...) histórias, resultado da ação e do discurso, revelam um agente, mas esse agente não é autor nem produtor” (Arendt)
Assumindo os desafios de análise colocados pelas manifestações coletivas crescentes, multiformes, presentes nas últimas décadas nas sociedades atuais, propomos um caminho para o estudo de casos empíricos. Assim é que procuramos delinear a formação e a trajetória dos grupos pesquisados, trajetória esta marcada por deslocamentos respondidos de forma distinta e, segundo estas respostas, redefinindo composições e relações. É também nesta análise que situamos os discursos e posicionamentos em relação às noções de direitos, necessariamente ambíguas e inconsistentes, onde podem manifestar- se antagonismos, conflitos ou aderências ao processo hegemônico.
1. Momentos e trajetórias
Iniciamos a análise do corpus, constituído a partir do material coletado, utilizando- nos dos termos que titulam esta seção e que buscam expressar a idéia da dinâmica presente nesse processo. Assim que o termo momentos quer exprimir o momento de fixação e que
traz consigo um sentido ativo, o ato de fixar, e anuncia também um “início”. Ao referir- nos a momentos no plural, queremos salientar as diferentes fixações identificadas nas trajetórias, situando eventos que desestabilizam e articulam novos discursos. É a partir dessas “ocasiões”, ou momentos, que identificamos dispersões, sedimentações ou novas formas de agregação. O termo trajetória, por sua vez, procura capturar a dinâmica, uma continuidade na descontinuidade, no sentido de que não há um ponto de origem e nem controle sobre as conseqüências dos atos. É esta tensão que permite afirmações, aparentemente contraditórias, feitas por uma entrevistada, quando afirma, por um lado, que “hoje eu sei que escrevi esta história, que a gente passa nas comunidades e o pessoal
conta” e num outro momento pondera de que “muitas vezes a gente vê assim, a coisa passou e a gente não se deu conta. Passou! Morreu o boi!” (Entrevista C8).
Tomando por base a nossa compreensão dos relatos, e dos aspectos observados, à luz do modelo proposto, identificamos situações bastante distintas entre os grupos pesquisados. Estas distinções são perceptíveis na sua composição, organização, relações e atividades. No aprofundamento destas dissimilitudes, explicitam-se razões das diferenças e também identificação de elementos que permitem que os grupos se autodenominem “grupos populares de saúde”. Nesta direção, salientamos dois aspectos: o primeiro remete às redes de relações precedentes, sejam elas pessoais, familiares ou institucionais, a partir das quais se situam os momentos. Relacionados a estes momentos, salientamos o segundo aspecto, alusivo à intervenção de “alguém”.
Ao estabelecermos momentos, efetuamos um recorte necessário para a análise, não obstante outras seleções sejam possíveis. Isto não significa mera criação do analista, mas uma escolha de pontos presentes nos relatos disponíveis e que marcaram a trajetória
segundo a visão de quem os enuncia. Os relatos refletem uma leitura pessoal e também coletiva.
Para a análise, tomamos como parâmetro um dos quatro grupos, a partir do qual são estabelecidas relações e confrontações com os demais. Escolhemos, assim, o grupo designado aqui como Grupo A, tendo em vista apresentar uma dinâmica mais complexa e composições específicas e nem sempre presentes nos demais grupos, além de ter uma trajetória mais longa.
Considerando o conjunto dos dados coletados e assumindo aquele grupo como referência, organizamos a análise a partir da identificação de quatro momentos presentes na trajetória desse grupo. Utilizamos, aqui, os termos comunitário, político-social, autonomista e pluriarticulatório para nomear os distintos momentos. Por comunitário entendemos uma ação de ajuda mútua voltada para a comunidade; por político-social, uma ação que implica a participação e interlocução com órgãos públicos; por autonomista, a afirmação do grupo diante de outras entidades através da sua institucionalização e constituição de um espaço próprio; e por pluriarticulatório, a iniciativa para articular diferentes grupos e organizações, independente de posições políticas.
Estes momentos não se apresentam como etapas e nem como opostos, podendo estar presentes de forma sincrônica e que se manifestam a partir das atividades e suas relações. Ao propormos estes quatro “inícios”, visamos oferecer um roteiro para a organização da análise, a partir do qual procuramos apreender as passagens de um momento a outro.
1.1.Do comunitário ao sócio-político
O que caracterizamos como momento comunitário pode ser situado num determinado tempo e espaço, mas sua fixação está presente como sedimentação de relações sociais e perpassam a trajetória analisada, independente de ser predominante ou não. Para situar tal fixação, tomamos como ponto de partida a criação e as atividades iniciais do grupo de referência.
As primeiras atividades, que vão consolidar o grupo, tiveram início no começo da década de 1980. Estas foram desenvolvidas a partir de outras ações e grupos da Igreja Católica, cuja presença institucional se efetivou através da Paróquia e de um centro comunitário construído com recursos da Pastoral Social da Arquidiocese de Olinda e Recife, cujo trabalho foi executado pelos moradores na forma de mutirão. Neste sentido são destacadas, pelos entrevistados, as redes de relações formadas em torno da Paróquia e do Movimento de Evangelização Encontro de Irmãos77, manifestando, ainda, relações com associações e conselhos de moradores emergentes, aos quais nos referimos anteriormente. É notória, nestas narrativas, a ausência de um processo espontâneo, evidenciando-se uma intencionalidade, a partir da qual identifica-se um “programa” articulado pela Pastoral da Saúde78. Destacamos aqui partes dos relatos que evidenciam os aspectos mencionados e onde a comunidade aparece como uma referência central.
77 Movimento mencionado anteriormente como sucessor da Operação Esperança. Cabe esclarecer, ainda,
que se tratava de um movimento eclesial com uma organização independente das paróquias, com uma coordenação diocesana e sub-coordenações setoriais. Criado em 1969, tinha como lema “os pobres
evangelizando os pobres” e como método “Ver, Julgar e Agir” orientado para a formação de grupos de
reflexão através de treinamentos de animadores populares.
78
Sob a designação Pastoral da Saúde identificavam-se, permanecendo ainda hoje, diferentes orientações. No caso de Pernambuco ocorre o mesmo, mas quanto aos grupos estudados identificamos a predominância de uma orientação fundamentada no Relatório da Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de