2.2 L’imagerie par résonance magnétique
2.2.5 Les apports de l’IRM pour la compréhension des pathologies articulaires 27
Neste manual escolar de educação cívica foi estabelecida uma interpretação histórica de Portugal, com a anterioridade exemplar situada na Lusitânia e no herói Viriato, lido como a “alma heróica dos Lusitanos”, seguindo, deste modo, o divulgado mito de origem de uma “antemanhã portuguesa”, que tanto gal‑ vanizou o republicano Teófilo Braga, autor da narrativa épica Viriato (1904). A análise da história de Portugal que os dois autores produziram está entretecida de fases dominantes de progresso e de decadência, mas não esqueciam, em cada uma dessas fases, as manifestações de decadência ou de progresso face ao sentido dominante característico.
A capa do livro estampava um símbolo maior da portugalidade: a Caravela quinhentista, com uma imaginada Cruz de Cristo nas velas, evocando a Ordem Militar de Cristo, que tinha sido instituída por D. Dinis (1318) e confirmada por bula do papa João XXII (1319). Essa Ordem Militar de Cristo sucedeu e recolheu o património da Ordem Militar dos Templários, tendo sido o Infante D. Henrique governador e administrador da Ordem Militar de Cristo, a qual esteve ligada ao arranque dos Descobrimentos Portugueses. A mesma Cruz de Cristo surgirá no hidroavião Lusitânia – forte representação identitária do nome destes dois símbolos –, comandado pelos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral durante a primeira travessia aérea do Atlântico Sul (Lisboa/Rio de Janeiro) em 1922.
Após vinte anos de interrupção, na cerimónia diplomática de imposição do barrete cardinalício ao Núncio Apostólico Achilles Locatelli, no Palácio Nacional da Ajuda, a 3 de Janeiro de 1923, o Presidente da República António José de Almeida reafirmou a importância do Catolicismo na sociedade portuguesa e na
definição da identidade nacional, ressaltando o simbolismo da Cruz de Cristo, presente nalguns momentos identitários fortes da construção de Portugal, em terra, no mar e no ar:
“[…] os vossos votos [alusão ao discurso anterior de Locatelli] para que este belo país conserve, conforme dizeis, a nobre característica cristã do seu carácter e do seu génio, terão fácil realização, porque, como sem esforço verificais, os intuitos cristãos da grande massa dos portugueses são evidentes e tão assinalados que a cruz de Cristo aparece sempre com um prestígio a cada momento revigorado, através da sua história, ou nos épicos acontecimentos que determinaram a formação da nacionalidade, ou nos nossos famosos empreendimentos marítimos de há séculos, ou nos nossos magníficos feitos aéreos de há meses […]”21. A primeira fase da história portuguesa estava periodizada entre os reinados de D. Afonso Henriques e de D. Manuel I, sendo caracterizada como uma fase de progresso. São assinalados alguns momentos exemplares de glória: D. Afonso Henriques e o seu “génio guerreiro”; as Cortes de Leiria de 1254 onde teria acontecido a afirmação da força do “terceiro estado” (os “homens bons” dos concelhos), apesar de manifestações em Cortes anteriores; D. Dinis e o seu “alto espírito organizador”; a “revolução popular” de 1383 ‑1385, o Mestre de Avis/ /D. João I (“cauteloso e político”) e Nun’ Álvares (“tipo perfeito do cavalheirismo medieval”), evidenciando todos um “patriotismo exaltado”; o Infante D. Henri‑ que que “simboliza a alma heróica do povo” e a “epopeia marítima”; D. João II, “O Príncipe Perfeito”, com “arrojados desígnios”; Camões, autor de Os Lusíadas, o “livro sagrado” dos “heroísmos da gloriosa raça portuguesa”.
Todavia, nessa fase de “idade de ouro” portuguesa, anotam o momento mais dramático de afronta nacional, no final do reinado de D. Fernando, quando se desenrolou a tentativa de elevar ao trono Leonor Teles, casando o rei com ela, e depois a ideia de Leonor Teles colocar na regência sua filha Beatriz, casada com o rei de Castela.
Quanto à segunda fase da história portuguesa, estava compreendida entre os reinados de D. João III e de D. Manuel II, cuja característica fora a decadência. Destacaram dois momentos principais de afronta nacional: a “incapacidade, fana‑ tismo e fraqueza” de D. João III, cujo reinado iniciara a “decadência de Portugal”, com a Inquisição (autos ‑da ‑fé, fogueiras, antijudaísmo) e a Companhia de Jesus
21 António José de Almeida, “A Imposição do Barrete Cardinalício ao Núncio Apostólico”, Quarenta Anos de Vida
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(o “seu poder autoritário e absorvente”); o “rei fanático e louco” D. Sebastião, promotor do regresso conquistador do Norte de África, que falhou, e com a sua morte perder ‑se ‑ia a independência nacional (1580 ‑1640) para o domínio dos Filipes de Espanha em Portugal.
Entre os principais factores apresentados para a decadência portuguesa, João Soares e Elísio de Campos assinalaram os seguintes: factor demográfico (morte de milhares de portugueses na epopeia marítima e nas conquistas); fac‑ tor económico ‑social (atrofia nacional provocada pelas riquezas da Índia e do Brasil); factor moral e religioso (existência de muitas congregações religiosas, em particular a Companhia de Jesus e o jesuitismo que se caracterizaria por interferir na esfera política e na esfera educativa). Com alguma surpresa, não há alusão ao factor político (absolutismo), que habitualmente aparece na visão histórico‑ ‑política republicana como uma das causas da decadência de Portugal, usando as argumentações de Alexandre Herculano e de Antero de Quental.
Em contraponto, valorizaram, nessa fase, alguns sinais positivos: o “estreme‑ ção violento de 1640” que conduziu à restauração da independência nacional; o pombalismo (1750 ‑1777), onde se “realizou uma verdadeira revolução nacional”; as experiências liberais monárquicas (revolução de 1820, resistência liberal entre 1832 ‑1834, setembrismo, maria da fonte, regeneração de 1851 e janeirinha de 1868); o tricentenário da morte de Luís de Camões (1880), durante o qual o “partido republicano consubstanciando nessa festa a independência e engrande‑ cimento da pátria, recebeu a consagração popular”.
Por fim, a terceira fase da história portuguesa, iniciada com a revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, para “redimir a Pátria ultrajada”22, mar‑ caria uma nova fase de progresso, que tinha sido anunciada, segundo os autores, na cidade do Porto, no dia 31 de Janeiro de 1891, aquando da tentativa militar falhada de proclamar a República em Portugal: esse movimento é caracterizado uma vez como revolução23 e outra vez como revolta24 e são inseridas no texto as gravuras de Sampaio (Bruno), “Escritor e propagandista da República”, e do capitão Leitão, duas figuras relevantes ligadas a esse movimento revolucionário portuense. Momento emblemático seria a aprovação da nova Constituição repu‑ blicana em 1911, que consagrara, segundo os autores, a verdadeira soberania da
22 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 190.
23 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 185 (gravura com a legenda “Revolução em 31 de Janeiro”). 24 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 186: “A revolta do Porto fora rapidamente sufocada”.
nação e os mais completos direitos fundamentais, em relação ao constituciona‑ lismo liberal monárquico anterior.
Como se referiu, na parte inicial do livro Portugal – Nossa Terra. Educação
Cívica estava uma gravura com o Emblema da Pátria25, o escudo de armas da República com a esfera armilar vinda da iconologia do poder de D. Manuel I, que não fazia parte da bandeira monárquica liberal. A propósito, reflectiu o filósofo Eduardo Lourenço: “Mas é este país que tem na sua mitologia, e mesmo como seu emblema nacional, a esfera armilar, a maior das pretensões. Não há nenhuma bandeira que tenha símbolo mais onírico e mais ambicioso do que esse”26.
Na parte final do livro, encontramos apenas a gravura do Busto da Repú‑ blica27, não havendo, o que parece ser um lapso, nem uma alusão ao novo Hino Nacional nem uma gravura com a nova Bandeira Nacional. O feriado oficial republicano de 1 de Dezembro (consagrado à Autonomia da Pátria Portuguesa) era também o dia da Bandeira Nacional.
Este manual escolar termina com um capítulo sobre “A escola do povo”, onde se explica novamente alguns princípios da pedagogia cívica republicana. Aí se afirma ser a República a forma de governo “mais racional, e por isso mais progressivo, mais moral e mais justo”28, sendo equivalente o “regime republicano”, a “democracia” e a “governo do povo pelo povo”, mas era condição essencial, para uma cidadania consciente, instruir persistentemente em escolas laicas, “escolas novas onde a razão e a vontade se exercitem liberrimamente na prática de todo o bem […]”29.
A articulação pedagógica entre a educação política e a educação história, para uma verdadeira educação cívica, surgia como consequência inevitável do jogo relacional entre três símbolos unificadores essenciais: a Constituição – assegura os direitos de cidadão livre; a República – garante a prosperidade e o engrandecimento da nação; a Pátria – ensina pela história, através de exemplos de heroísmo e de amor patriótico, a glória do passado e aponta as glórias do futuro30.
Acreditavam os autores que, só assim, se substituiria o “velho espírito da escola tradicionalista” pelo “novo espírito democrático” das escolas laicas republicanas,
25 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 12.
26 Cf. Eduardo Lourenço, in “Reflexões”, Expresso, revista Única, Lisboa, 3 de Julho de 2010, p. 38. 27 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 220.
28 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 219. 29 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 223. 30 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 225.
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preparando os jovens escolarizados para serem futuros cidadãos conscientes no ofício do seu “trabalho honrado e emancipador” e no exercício dos “sagrados direitos de homens livres”, praticando o “mais nobre deles – o direito de voto”31 e quem não o exercesse “devia ser considerado réu de traição à lei fundamental” que lhe assegura esse direito32.
A estratégia pedagógica indicada devia, por conseguinte, activar o raciocí‑ nio e o espírito crítico, limitando os exageros didácticos da memorialização, e o ensino, para ser verdadeiramente patriótico, tinha que ser verdadeiramente republicano, isto é, contra o privilégio e o preconceito33. Assim, na opinião dos pedagogos republicanos João Soares e Elísio de Campos, se radicaria nas jovens consciências portuguesas o amor e a dedicação pela Pátria e pela República, alicerces da sua futura cidadania.
31 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 223. 32 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 209. 33 João Soares e Elísio de Campos, op. cit., p. 9.