Apports potentiels d'une vue textuelle dynamique et synchronisée
B) Apports au domaine de la programmation
Fatores de risco são circunstâncias, condições, acontecimentos de vida, doenças ou
traços de personalidade que podem aumentar a probabilidade de alguém cometer uma tentativa de suicídio ou, mesmo, suicidar-se.
A identificação dos fatores de risco e dos fatores de proteção torna-se essencial numa estratégia de prevenção do suicídio, pois contribui para delinear e detetar a natureza e o tipo de intervenção necessários, sendo indicativo das circunstâncias em que um indivíduo, uma comunidade ou uma população são particularmente vulneráveis para o suicídio. Quando se encontram presentes uma série de fatores negativos existe uma maior probabilidade de comportamentos autolesivos e atos suicidas. Também permitem estabelecer uma estimativa do grau geral do risco de suicídio para uma pessoa e contribuir para o desenvolvimento de planos de tratamento que abordam os vários fatores envolvidos, fatores esses identificáveis e modificáveis.
As estratégias nacionais de prevenção devem identificar os grupos de risco, e simultaneamente focarem-se na população em geral para mitigar o risco de suicídio. Existem grupos de alto risco e grupos com particulares vulnerabilidades ou com problemas de acesso aos serviços de saúde.
Para além de intervir nos grupos de maior risco ou de alto risco, outra forma de reduzir o suicídio é melhorar a saúde mental geral da população, aumentando a resiliência individual e da comunidade, promovendo o bem-estar possível dos indivíduos em todas as dimensões da sua vida1,2.
É importante realçar que não é um único fator de risco ou protetor que determina ou evita o ato suicida. Além disso, nem todos os fatores são igualmente significativos em termos de previsão, por isso devemos pensar neles em conjunto e enquadrá-los no contexto do indivíduo e da sua história biográficaj.
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Para o conhecimento do fenómeno em Portugal, para além da prática clínica em diversos contextos, foram determinantes as investigações realizadas, nomeadamente por: Daniel Sampaio: “O adolescente e o suicídio” (1986); Carlos Braz Saraiva: “Para-Suicídio – Contributo para uma Compreensão Clínica dos Comportamentos Suicidários Recorrentes” (1998); Jorge Costa Santos: “Suicídio e Autópsia Psicológica: Estudo compreensivo e redefinição das estratégias de categorização das mortes auto-infligidas”; Pestana Cruz: “Terapia Cognitiva de los Intentos de Suicídio: Cambiando Histórias de Muerte por Historias de Vida”(2000); José Carlos Santos: ”Emoção expressa e comportamentos para-suicidários” (2006); Ricardo Gusmão: “Depressão: detecção, diagnóstico e
45 Existem 3 categorias principais de fatores de risco: Individuais, socioculturais e situacionais
a) Individuais
- Características sociodemográficas: Idade
Em Portugal, na Europa, na América do Norte e na maioria dos países para os quais existem dados disponíveis, as taxas de suicídio aumentam com a idade.
Também em Portugal os padrões etários de suicídio foram objeto de estudo3, tendo sido identificados 4 padrões básicos, em que se avulta um padrão tipicamente ascendente, caracterizado por taxas específicas de suicídio, aumentando progressivamente dos grupos mais jovens para os mais idosos.
Cerca de 50% dos suicídios ocorrem após os 64 anos, com uma relativa estabilidade no sexo masculino. No Sul de Portugal, o padrão etário torna-se ainda mais visível, com acentuado predomínio do suicídio nos idosos.
No nosso país, durante as últimas décadas, o suicídio entre os adolescentes tem diminuído. No entanto continua a ser uma das principais causas de morte entre os jovens com idades entre os 15 e os 24 anos: num estudo realizado em 15 países europeus em jovens entre os 15 e os 24 anos pela Aliança Europeia Contra a Depressão, Portugal apresentava as taxas de suicídio mais baixas para homens (5.5) e mulheres (1.3), mas entre os 15 e os 29 anos era a 2ª causa de morte para homens, sendo a 6ª entre 2000 e 2006.
Os comportamentos autolesivos são mais comuns nos grupos etários mais jovens
Sexo
Tanto em Portugal como na maioria dos países, mais indivíduos do sexo masculino cometem suicídio, com um risco três vezes superior. O padrão de aumento em associação à idade é semelhante em ambos os sexos.
Estado Civil
Pessoas solteiras, viúvas ou divorciadas estão em maior risco.
Profissão
tratamento. Estudo de prevalência e despiste das perturbações depressivas nos Cuidados de Saúde Primários” (2006), José Henrique Santos: “A Morte Anunciada – Suicídio e Parassuicídio” (2007).
46 Alguns grupos profissionais como os profissionais de saúde e os trabalhadores rurais têm taxas mais elevadas de suicídio.
Residência Urbana/ Rural
Em Portugal os suicídios são mais frequentes em meio rural, sobretudo no sul do país, registando-se uma tendência para o aumento nos grandes centros urbanos.
A migração, com os problemas inerentes, aumenta o risco.
Comportamentos autolesivos e tentativas de suicídio anteriores
A investigação mostra que os comportamentos autolesivos e as tentativas de suicídio prévias são dos mais significativos preditores de risco para o suicídio.
Em muitos estudos publicados até 50% daqueles que morreram por suicídio fizeram, pelo menos, uma tentativa prévia. As tentativas de suicídio são 10 a 20 vezes mais prevalentes do que o suicídio4, com variações etárias acentuadas, tentativas de suicídio/ suicídio 30/1 nos jovens e 3/1 nos idosos5.
A avaliação das características das tentativas anteriores e identificação do contexto, permitem prever o risco, nomeadamente a existência de elevada intencionalidade, utilização de métodos altamente letais, premeditação/plano, acesso fácil aos meios e/ou existência de psicopatologia/doença médica grave, isolamento e escassos apoios sociais.
Perturbação mental
A existência de perturbação mental é o fator de risco mais importante para o suicídio. As perturbações com o risco associado mais elevado incluem: as perturbações do humor, perturbações psicóticas, perturbações de ansiedade, abuso e dependência de substâncias (em particular o álcool no nosso país), e algumas perturbações da personalidade (perturbações estado-limite e antissocial). Segundo diversos estudos cerca de 90% das pessoas que morrem por suicídio sofrem de perturbação mental. A depressão é o fator de risco mais frequente. A investigação mostra que 4% dos doentes com qualquer tipo de depressão e cerca de 15 a 20% com depressão grave morrem por suicídio, afetando mais os homens e os idosos, representndo uma das três primeiras causas de mortalidade na faixa etária entre os 15 e os 34 anos, em todos os países6,7.
A esquizofrenia é outra patologia do foro psiquiátrico onde a taxa de mortalidade por suicídio é considerável. Os autores referem um intervalo entre 4,9%8 e 10%9.
47 Independentemente da variação dos resultados, permanece como um fator de risco superior ao da população em geral.
Resiliências e vulnerabilidades da personalidade
Os traços de personalidade, a capacidade para gerir a dor psicológica, as competências na resolução de problemas e as capacidades para utilizar os recursos internos e externos, são fatores importantes que podem mitigar ou aumentar o risco de suicídio. Os traços frequentemente associados ao risco são a hostilidade, desamparo, dependência, rigidez e perfecionismo. Elevados níveis de desesperança com ou sem depressão foram associados a um fator de risco elevado, assim como a impulsividade nas faixas mais jovens.
Doenças Físicas
A doença física pode aumentar o risco, sobretudo se estiver associada a défices funcionais, alteração da imagem corporal, dor crónica, dependência de terceiros. As de maior risco são as doenças neurológicas, oncológicas, HIV/SIDA e doença pulmonar crónica obstrutiva (DPCO).
História Familiar
Vários fatores da história familiar podem influenciar o risco de atos suicidas, sobretudo uma história de suicídio na família ou de perturbação mental. Podem estar relacionados com a influência do meio e/ou com factores genéticos. Violência, abuso físico ou sexual ou negligência familiar aumentam o risco.
Fatores Neurobiológicos
A investigação sugere a existência de uma relação entre os sistemas neurotransmissores envolvidos na depressão e no suicídio, mas também que os indivíduos que cometem suicídio poderão ter outras vulnerabilidades genéticas adicionais que aumentam o risco. Estudos sugerem alterações no eixo hipotalâmico- hipofisário-adrenérgico e anomalias nas neurotrofinas em sectores específicos do cérebro10.
b) Fatores Socioculturais
48 A forma como a sociedade perceciona o suicídio tem um enorme impacto na prevenção. Há um estigma social que perpetua o desconhecimento e o medo. Em algumas culturas, ou grupos religiosos, o suicídio pode ser tolerado num contexto específico, tal como os suicídios em defesa da honra do próprio ou da sua família.
Isolamento Social
O isolamento social está entre os principais fatores de risco. Pode estar relacionado com fatores geográficos como a desertificação, mas também ser o resultado de depressão, alcoolismo e vergonha. Perdas afetivas, divórcio, prisão, bullying e mobbing podem ser outros fatores de risco. O envelhecimento atual da nossa população e o menor suporte familiar e social, têm um grande impacto no isolamento dos idosos. A mudança atual da estrutura social caraterizada por individualismo crescente e perda das solidariedades de vizinhança, acentua vulnerabilidades prévias.
Barreiras no acesso aos cuidados de saúde
As barreiras podem ser financeiras, físicas, geográficas ou pessoais (o estigma associado a uma doença mental ou a uma minoria étnica ou sexual dificulta a procura dos cuidados de saúde). A saúde mental é frequentemente subvalorizada no Sistema Nacional de Saúde, assim como a formação nos cuidados de saúde primários, apesar de a investigação mostrar que cerca de 2/3 dos indivíduos que cometeram suicídio tiveram contacto no mês anterior à sua morte com um profissional de saúde, fundamentalmente com o seu médico de família11.
Influência dos Média
Os média podem contribuir para a prevenção dos comportamentos suicidas, pela forma e conteúdo das notícias que divulgam. A OMS e a IASP elaboraram um guia com recomendações para os média (anexo I).
c) Fatores Situacionais Desemprego
Existem fortes associações entre as taxas de desemprego e as taxas de suicídio mas a natureza destas é complexa. Os efeitos do desemprego são mediados por fatores como a pobreza, baixa do nível social, dificuldades domésticas e desesperança entre outros; em períodos de crise económica acresce o grau de endividamento e a perda de
49 habitação. Por outro lado, pessoas com perturbações mentais têm maior risco de ficarem desempregadas12.
Acesso a meios letais
Os métodos utilizados por quem pensa suicidar-se dependem muitas vezes da disponibilidade dos meios. Meios letais de acesso fácil como os pesticidas, armas de fogo e medicamentos, ou locais e edifícios potencialmente perigosos não protegidos, aumentam a probabilidade de suicídio.
Acontecimentos de vida negativos recentes
Divórcio, viuvez, perdas relacionais significativas, perda de estatuto socioeconómico, abuso sexual ou físico e violência doméstica.
d) Fatores protetores
Os fatores protetores correspondem a características e circunstâncias individuais, coletivas e socioculturais que, quando presentes e/ou reforçadas, estão associadas à prevenção dos comportamentos autolesivos e atos suicidas.
Uma estratégia de prevenção deve identificar as vias suscetíveis de estabelecer, manter e reforçar estes fatores.
Entre os fatores de proteção encontram-se:
Fatores individuais: a capacidade na resolução de problemas e conflitos, iniciativa no pedido de ajuda, noção de valor pessoal, abertura para novas experiências e aprendizagens, estratégias comunicacionais desenvolvidas, empenho em projetos de vida;
Fatores familiares: o bom relacionamento familiar, o suporte e apoio familiares, as relações de confiança;
Fatores sociais: estar empregado, ter facilidade de acesso aos serviços de saúde, a articulação entre os vários níveis de serviços de saúde e parcerias com instituições que prestam serviços sociais e comunitários, os valores culturais, pertença a uma religião1,4,6.
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