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Apports de la TDD

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A cidade de Campinas está localizada no interior do estado de São Paulo, na Região Sudeste do Brasil, distante 100km à noroeste da capital. Lidera e nomeia uma das três Regiões Metropolitanas Institucionais do estado. A Região Metropolitana de Campinas é formada por 20 municípios paulistas que juntos somam mais de três milhões de habitantes: a “rica região

de Campinas” como é comum ser tratada pela imprensa local ou por moradores. Dados do censo demográfico de 2010 apontam que a cidade possui 1.080.113 habitantes. Destes, 66,3% se declararam brancos; 25,4% pardos; 6,91% pretos; 1,2% amarelos e 0,1% indígenas (IBGE, 2010), composição étnico-racial que se forja nos processos históricos vivenciados desde o seu surgimento.

Informações disponibilizadas pela prefeitura do município afirmam que a área hoje ocupada pela cidade de Campinas possui milhares de anos de história indígena (sobre a qual não temos informações), e pouco mais de 260 anos de história colonial, imperial e republicana. Surgiu na primeira metade do século XVIII como um bairro rural da Vila de Jundiaí. O povoamento do bairro rural do Mato Grosso teve início com a instalação de um pouso para descanso, na rota São Paulo-Goiás e São Paulo-Mato Grosso, para entradas e bandeiras e depois para mascates, tropeiros, comerciantes e soldados. Tal pouso ficou conhecido como Campinas do Mato Grosso porque, em meio à mata fechada, existiam pequenos descampados. O ponto de descanso impulsionou o desenvolvimento de atividades de abastecimento, promovendo a concentração populacional do bairro que, em 1767, já reunia 185 pessoas45.

A localização do lugarejo, aliada aos investimentos e os interesses de fazendeiros vindos de outras regiões do interior paulista em busca de terras para instalar lavouras de cana e engenhos de açúcar, posteriormente adaptados em fazendas de café, transformou o bairro rural em freguesia, em vila e depois em cidade46. Na base dessa dinâmica econômica, política e social estava a exploração do trabalho escravo, nas primeiras fases de desenvolvimento da história da cidade. Na segunda metade do século XIX, com o crescimento das plantações de café, milhares de homens e mulheres escravizadas foram comprados ou transferidos de outros estados para São Paulo. “Campinas tornou-se grande centro produtor de café, enriqueceu e

45 Disponível em: http://www.campinas.sp.gov.br/sobre-campinas/origens.php. Acesso em: 04 set. 2014. 46

A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso foi fundada em 1774, elevada à Vila de São Carlos em 1797 e transformada em Cidade de Campinas em 1842 (Site da Prefeitura de Campinas, 2014).

embelezou-se com base na exploração dos negros escravizados” (MACIEL, 1985, p. 99). Como lembra Irene Barbosa (1983), a cidade ficou conhecida pela crueldade com que tratava a população escrava. A crueldade dos senhores de Campinas ficou famosa a ponto de fazendeiros de outras regiões ameaçarem os escravos que causassem problemas, com o castigo de serem vendidos para fazendas de Campinas. Ainda de acordo com a autora, a reação dos escravizados ao alto grau de crueldade de seus senhores ficou igualmente conhecida, em função dos muitos levantes da população escravizada nas fazendas da região.

Dados discutidos por Maciel (1985) revelam que em 1872 a população negra de Campinas passava de 60% do total de seus habitantes. Barbosa (1997) nos ajuda a identificar que a população negra que habitava a cidade nesse período, meados do século XIX, não era uma massa homogênea de pessoas escravizadas: havia negros livres e instruídos, que já haviam conseguido alguma respeitabilidade; negros que, mesmo livres, continuavam à margem do sistema; e a grande massa de população escrava, cujas condições também não eram uniformes em seu interior. Nessa complexa malha populacional a autora identifica uma pequena burguesia negra e livre, que possui profissões e seus ofícios. Entretanto, destaca que mesmo esta burguesia negra sofria discriminações e era tratada como inferior.

A heterogeneidade das posições, condições e relações que a população negra foi construindo na cidade possibilitou que, em pleno período escravista, um negro livre, instruído, ex-tropeiro pudesse fundar um colégio bem conceituado, que recebia as filhas de famílias respeitáveis da cidade, mas também acolhia meninas negras que nada pagavam por seus estudos: o Colégio Perseverança ou Cesarino como era conhecido, fundado por Antônio Ferreira Cesarino, que funcionou entre 1860 e 1876, na Avenida Moraes Salles (centro da cidade) como uma escola particular de grande expressão no período. Abaixo imagem da casa onde funcionou a escola; a data da fotografia não foi possível identificar:

Casa onde funcionou o Colégio Perseverança, Campinas

De acordo com Lapa (1996), a importância do Colégio Perseverança era tamanha que a escola serviu de modelo para o planejamento do Colégio Culto à Ciência. Estabelecimento de ensino de elite fundado em 1874 pela Sociedade Culto à Ciência47 “destinado a representar papel fundamental na história do ensino da província como formador de quadros dirigentes da política da cidade” (BARBOSA, 1997, p. 59), cujo prédio situado à rua de mesmo nome existe até a atualidade, abrigando hoje o Colégio Estadual “Culto à Ciência”.

Colégio Culto à Ciência, Campinas – 1895

Fonte: https://sites.google.com/site/lucappellano/breve-historia-da-educacao-em-campinas Colégio Culto à Ciência, Campinas – 2014

Foto: Claudilene Silva, 2014.

47 Sociedade formada por iniciativa de respeitáveis cidadãos campineiros e composta por fazendeiros, industriais,

comerciantes e bacharéis, participantes da Maçonaria, que desejavam conduzir um ensino de boa qualidade para suprir as necessidades do ensino imperial e possibilitar para seus herdeiros uma boa formação intelectual, visando que estes constituiriam o futuro quadro dirigente do país (BARBOSA, 1997).

Com o fim legal da escravidão em 188848 as transformações que já atingiam a cidade incluíram também a passagem para a nova ordem de trabalho (da escravidão para o trabalho livre), mudança que se deu à custa da pauperização da população negra que passou a enfrentar todo o tipo de discriminação racial e social49.

A partir da economia cafeeira, da qual Campinas passou a ser o grande polo impulsionador, a elite local passou a investir no crescimento e na modernização da cidade, como conta Amaral Lapa em entrevista a Renato Anselmi (1997):

Entre 1850 e 1900 uma nova elite, formada por fazendeiros do café – entre os quais, muitos ex-produtores de cana-de-açúcar – passou a investir no crescimento da cidade que tornava-se moderna. As novidades do primeiro mundo, como telefone, gravador, roupas já faziam parte do seu dia-a-dia. Moradores do Vale do Paraíba batizaram Campinas como “Princesa D’Oeste” devido à sua localização em relação àquela região. Mas, nem tudo era tão belo: havia uma cidade de becos, antros e situações que denunciavam desigualdades (ANSELMI, 1997).

No final do século XIX, a cidade já era uma das maiores cidades do país e a alcunha de Princesa D’Oeste faz menção a esse ideário construído acerca da riqueza, do progresso e da modernidade da cidade, cujas famílias ilustres se orgulhavam de ostentar, como indica Lapa na entrevista mencionada. Mas, a situação de desigualdade entre negros e brancos se acentuava, especialmente a partir de 1880, quando se inicia a imigração massiva de trabalhadores europeus, com a finalidade de embranquecer o país. Maciel (1985, p. 99) coloca em questão: “porque um número grande de pobres imigrantes conseguiu melhorar de vida e a maioria dos trabalhadores negros continuou em situação não muito diferente da de escravo?”. E mostra que era a ideia de inferioridade do negro que justificava a desigualdade para alguns estudiosos da época.

Os anos de 1889 e 1890 foram marcados pelos sucessivos surtos da febre amarela que atingiram centenas de pessoas e provocaram sério abalo no projeto modernizante em curso, uma vez que houve um esvaziamento da cidade pelo êxodo das pessoas. Maciel (1985) traça um retrato da insalubridade da cidade, evidenciando a precariedade do saneamento público, e mostra que a maior parte da população vitimada, que morria pelas ruas da cidade sem assistência alguma, era a população negra recém liberta. “A maioria dos corpos encontrados era de velhos ex-escravos e surpreendentemente haviam muitos identificados com nome,

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No período imediatamente após a abolição os ex-escravizadores realizam tentativas de continuar a prática de relações sociais e de trabalho típicas da escravidão (MACIEL, 1985).

idade e ex-dono” (MACIEL, 1985, p. 21). No período houve muitos protestos para chamar a atenção das autoridades não só em relação à epidemia, mas também em relação às condições de habitação, ao custo de vida em geral.

A situação de abandono e discriminação social e racial à qual a população negra campineira estava relegada, em articulação com a existência de uma pequena elite negra e letrada na cidade, impulsionou a organização e o surgimento de várias entidades a serviço dessa população, conformando o que Irene Barbosa (1983, 1997) denominou de “mundo paralelo”. A noção de mundo paralelo desenvolvida pela autora diz respeito à tentativa do negro de criar um mundo paralelo ao mundo branco, no qual a população negra tentava superar as suas dificuldades e impossibilidades de sobrevivência física e cultural.

Assim, das manifestações organizadas por negros pelos mais variados motivos surgiram em Campinas entidades negras como: a Imprensa Negra, cujo jornal mais antigo data de 1903 – “O Baluarte” - e era um Órgão Oficial do Centro Libertário dos Homens de Cor; a Liga Humanitária dos Homens de Cor fundada em 1915, que tratava de auxílio-doença e funeral, entre outras benemerências e que continua em funcionamento até os dias de hoje; o Grêmio Recreativo Dançante Familiar José do Patrocínio - “O Patrocínio” -, fundado 1917 que promovia festas e bailes, assim como mantinha um time de futebol que disputava com times brancos, entre outros (BARBOSA, 1997).

O município ficou livre das pandemias da febre amarela graças a uma ferrenha campanha de saneamento básico, que foi levada a efeito pelas autoridades locais (SOUZA, 2011). Nesse reordenamento da cidade, com a abertura das grandes avenidas, que ocorreu nos anos 30 e 40 do século XX50, as famílias negras foram deslocadas do centro para a periferia da cidade, passando a morar em bairros populares construídos para esse fim, a exemplo da Vila Costa e Silva e da Vila Castelo Branco, ambas construídas nos anos 1960.

Entretanto, o surto epidêmico havia desacelerado o crescimento populacional e econômico, exercendo influência na crise do café nos anos 1930. A cidade passa por novas transformações decorrentes do acentuado crescimento urbano e expansão industrial, tornando- se, em pouco tempo, importante centro gerador de educação e cultura no Estado de São Paulo (SOUZA, 2011). Em meados do século XX, “Campinas se torna um importante centro de convergência migratória, recebendo considerável número de negros vindos de outras cidades ou estados próximos” (BARBOSA, 1983, p. 26), ou mesmo de outras regiões do Brasil como é o caso do Nordeste.

Os processos históricos, políticos e sociais foram delineando as relações entre brancos e negros na cidade de Campinas, sempre permeados pela reação a toda forma de discriminação e racismo. Hoje a população negra ultrapassa os 32% do total da população da cidade, mas continua ainda bastante concentrada em espaços geográficos específicos; sua luta por melhores condições de vida e de respeito ainda se faz necessária, sua cultura ainda continua sendo negada.

A Campinas que conhecemos é o polo irradiador de cultura e educação que desejou se formar, que se quer moderna, industrializada, urbana, mas ainda de espírito bastante conservador, de práticas discriminatórias e que ainda olha para o negro e vê “o preto escravizado”.

Nas comemorações alusivas à população negra, como o dia 20 de novembro, por exemplo, as matérias jornalistas trazem a contribuição dos escravos para a cidade. Visibiliza a contribuição cultural do povo negro para a região, pensando apenas na manifestação cultural. Não de forma folclorizada, é bem verdade, mas falam do Jongo, da Capoeira e do Samba como se eles fizessem parte da vida de um povo que não está mais entre nós. Por outro lado, é também uma Campinas que possui um conjunto de organizações negras pulsantes e ativas, que dão continuidade à histórica e importante participação do movimento negro de Campinas na composição do movimento negro brasileiro.

Conhecemos várias organizações em diversos campos: da cultura, como a comunidade da Casa de Cultura Afro Fazenda Roseira, que literalmente ocupou e se apropriou de uma antiga fazenda de café desativada, para torná-la um espaço de cultura e lazer para todo o povo da cidade que lá chega; da organização política como a Casa Laudelina de Campos Melo, uma organização de mulheres negras; da política, como a coordenadoria do negro; e da educação, como o Núcleo de Consciência Negra da Unicamp.

Mas a cidade ainda não percebe a participação do povo negro na construção do seu desenvolvimento e ainda o empurra para sua periferia. Nela, brancos e negros ainda vivem em mundos paralelos, mundos que não são mais compartimentados, ou proibidos como já foram. Encontramos algumas pessoas que conseguem transitar em ambos os mundos. Mas ainda são mundos nitidamente separados.

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