MATÉRIELS ET MÉTHODES
HELENE MARTELLI (34)
D. Apport de l’imagerie :
Foram encontrados somente três textos relacionados ao tema do alienismo na
Revista Medica Brasileira, publicada, entre 1841 e 1843, pela Academia Imperial de Medicina. Entre estes temos um estudo do médico italiano Emilio Bonetti312, traduzido por J.M. de Almeida Rego (1814-1880)313, no qual relatava um caso de mania como um dos casos de febre intermitente perniciosa maníaca. Bonetti afirmou, inicialmente, que “[...] agora que o céu permite pegar na pena, apresento-vos por extenso a história da febre perniciosa maníaca”314.
No relatório315 da clínica médica da Faculdade de Medicina a cargo do médico Manoel de Valladão Pimentel (1808-1882), que funcionava na Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, publicado também na Revista Medica, relatou-se o caso de uma paciente com delírio puerperal, Neste caso percebemos mais uma vez a associação de problemas no parto com temas relacionados ao alienismo, e também às complicações ocasionadas deste processo, que faziam com que a mulher tivesse delírio e piorasse o seu estado mental.
Já Emilio Bonetti, em seu relato, apresentou outro caso analisado por ele, o caso de um homem sadio que enlouqueceu de súbito:
Luiz Ardemagni, de Chignolo, camponês, de 50 anos de idade, de robusto físico, sanguíneo, não se recordando de ter moléstia alguma
311 Pode-se perceber que mesmo as sangrias sendo criticadas por Pinel, ele mesmo a utilizava em alguns
casos específicos de alienação mental, desta maneia podemos concluir que mesmo indicando um tratamento moral para os alienados Pinel, muitas vezes utilizava métodos científicos intercalados tanto o tratamento moral, como as sangrias e as vezes mesmo tendo uma filantropia em voga no que tange o tratamento do alienado ele indicava espancamentos ou afogamentos para o paciente recuperar a consciência.
312 BONETTI, Emilio. Historia de uma febre intermittente perniciosa maníaca, seguida de algumas
considerações sobre a maneira de obrar do sulfato de quinina e dos remédios em geral no organismo humano. Carta dirigida pelo Dr.Emilio Bonetti, Di Chignolo, ao Dr. Jacinto Namias secretario da Academia de Veneza e membro de muitas academias ilustres; traduzido pelo Dr. J.M. D´Almeida Rego, dos Annaes Universaes de Medicina de Milão. Revista Medica Brasileira, Rio de Janeiro, v. II, n. 7, novembro de 1842, pp. 319-337.
313 Para mais informações sobre os médicos consultar anexo I p. 160-163.
314 BONETTI. Historia de uma febre intermittente perniciosa maníaca, seguida de algumas considerações
sobre a maneira de obrar do sulfato de quinina e dos remédios em geral no organismo humano. op.cit. .320.
315 Hospital da Misericórdia. Clinica medica da Faculdade de Medicina á cargo do Sr. Dr. Valladão.
despertou na manhã de 16 de Setembro de 1839, queixando-se de frios e poucos momentos depois delirava. Com os cabelos erriçados, os olhos espantados e ameaçadores, saiu do leito gritando com toda a força de sua voz: Santa Maria Mater Dei; ameaçava-se contra a mulher, o irmão com mais pessoas que se lhe opunham. Agitava-se como fazem os loucos e vencido pelo número e forças reunidas dos
que estavam presentes, foi colocado no leito e amarrado316.
Após ser amarrado, o indivíduo havia se escondido embaixo das cobertas e começado a gritar novamente as palavras ditas acima, embora, de acordo com médico italiano, até então não havia nenhuma razão para este acesso súbito de mania. Após os gritos, o homem começou a rir sem nenhum motivo aparente. O clínico, diante da situação tomou uma decisão, como ele mesmo afirmou: “[...] no meio de tanta ignorância das causas, e a repentina e violenta desordem das faculdades intelectuais, ocorreu-me logo a prescrição de uma sangria geral”317. Após as sangrias o indivíduo
melhorou, mas ainda possuía confusão de pensamentos, como por exemplo, ficava repetindo todas as perguntas que lhe eram feitas, e recordando-se somente do ato de acordar pela manhã. Em seguida a estas observações dos sintomas do paciente, concluiu-se:
Foi então que atendendo ao modo porque tinha decorrido esta mania que acompanhara uma febre de acesso, começando, crescendo e cedendo com ele, se estabeleceu no meu espírito a convicção que tinha a tratar uma moléstia de acesso larvado; e também por via da eliminação tinha dados bem fundados para me corroborar nessa opinião. E com efeito, se a mania tivesse procedido de outra alteração, para que vir repentinamente sem predisposição, sem sinais precursores?.318
Citando Pinel, o médico italiano asseverou que:
Se quisesse imaginar que uma tal mania dependesse antes das desordens de uma outra cavidade que não a cabeça, em apoio das doutrinas de Pinel, a natureza das afecções próprias a dar origem a mania periódica, e as afinidades desta moléstia com a melancolia e hipocondria devem fazer presumir que sua sede primitiva é na região epigástrica319.
Por fim, após a melhora do paciente, Dr. Bonetti, em sua análise do caso, estabeleceu uma diferença entre o delírio e a mania. Desse modo, apresentou-se a seguinte definição das moléstias: “[...] entre o delírio e a mania deve-se notar uma
316 BONETTI, op. cit., p.321. 317 Idem, ibidem. p 322. 318 Idem, ibidem. p 323. 319 Idem, ibidem. p.324.
grande diferença, parecendo o primeiro ser mais constituído pela exaltação das faculdades mentais e não desarranjo de ideias como acontece na segunda”320.
Interessante notar que mais uma vez temos então a presença do uso de sangrias para o tratamento de alienações, e que isto não ficava restrito somente aos médicos brasileiros que publicavam nestes periódicos, mas podemos constatar também na Europa o uso de sanguessugas para o tratamento de sintomas relacionados ao alienismo era comum, como no caso do médico italiano que acabamos de relatar, e percebemos também a relação entre a alienação mental e problemas gastrointestinais, isto se deve ao fato de as doenças mentais com destaque para a mania teria sua origem no estomago ou no intestino e de lá passasse para outras páginas do corpo321.