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O significado da palavra vínculo segundo o dicionário da língua portuguesa é tudo

que ata, liga ou aperta (FERREIRA, 1988), tal conceito correlaciona-se com a palavra vincular cujo significado é: tudo aquilo que liga, une ou prende com vínculo. O ensejo de trazer seus significados nos reporta a uma reflexão sobre um desejo maior, qual seja, entender os meandros da vinculação afetiva desenvolvidas durante o processo de adoção.

Falar de vínculo afetivo é falar de um tipo particular de relação com outrem. É uma dinâmica em contínuo movimento que funciona acionada ou movida por fatores instintivos e por motivações psicológicas. Podemos definir o vínculo como uma relação particular com o objeto desejado. Esta relação particular tem como conseqüência uma conduta mais ou menos fixa com este objeto (PICHON-RIVIÈRE, 1986).

De acordo com esse autor temos dois campos psicológicos no vínculo: um interno e outro externo. Sabemos que existem objetos externos e objetos internos. É possível estabelecer um vínculo, uma relação de objeto, com um objeto interno e também com um objeto externo. Podemos dizer que aquilo que mais nos interessa do ponto de vista

53 psicossocial é o vínculo externo, enquanto que do ponto de vista da psiquiatria e da psicanálise, aquilo que mais interessa é o vinculo interno, isto é, a forma particular que o eu tem de se relacionar com a imagem de um objeto colocado dentro do sujeito. Esse vínculo interno, então, está condicionado a aspetos externos e visíveis do sujeito.

Não existem relações impessoais, uma vez que o vínculo de dois se estabelece sempre em função de outros vínculos condicionados historicamente no sujeito e que, acumulados nele, constituem o que denominamos o inconsciente. O inconsciente27, portanto, é constituído segundo a perspectiva de Pichon-Rivière (1986) por uma série de pautas de conduta acumuladas em relações com vínculos e papéis que o sujeito desempenha frente a determinados sujeitos. Para esse autor, pode-se levar em conta a ação do meio sobre o indivíduo, bem como a ação do indivíduo sobre o meio, e isto em uma contínua espiral dialética.

Assim sendo, podemos dizer que uma pessoa reage de um modo particular frente a um acontecimento na medida que esse objeto tem um significado particular para ela. Esse significado está relacionado com a história particular do sujeito. Não obstante, poderíamos falar do processo de adoção de outra maneira. Nesse contexto é imprescindível considerar tanto o desejo particular do adotado como do adotante, a partir de um estudo prévio dos motivos e condições que incitaram a concretização do ato em si, levando em consideração a representação particular e individual de cada pretendente, e por fim entender como a história pessoal de cada um pode interferir na apreensão e compreensão do filho adotivo.

Em se tratando de adoção é imprescindível considerar que as histórias pessoais das crianças e adolescentes adotáveis são singulares, na medida em que são únicas e cheias de significados expressivos. No caso das crianças e adolescentes, são carregadas por vivências dolorosas pelo abandono vivido da família de origem, que precisam ser desvelados com cuidado, no convívio diário com essa nova família adotiva, por isso a importância em considerar a gama de relações internas e externas que a criança traz consigo nesse novo processo de pertencimento. Não passar por esse processo significa por em risco a transposição do vínculo da família de origem para a família adotiva.

Nesse sentido, compreender a criança que se encontra no processo de adoção como um todo, interagir com seus processos internos, é de suma importância, visto que a mesma traz

27 Não é propósito desse estudo discutir o conceito de inconsciente, visto que esta é uma questão extremamente complexa, que poderá ser abordada em outros trabalhos de ordem psicanalíticas.

54 consigo uma história de vida anterior quando é inserida em uma nova rede de relacionamentos, independente de qualquer idade em que seja incluída em uma nova família. Para Winnicott (1999, p. 162): “Até mesmo a raiva pode indicar que há esperança e que, no

momento, a criança é uma unidade, capaz de sentir o confronto entre o que é concebido e o que realmente é encontrado no que chamamos de realidade compartilhada”.

Partindo desta concepção e nos reportando à citação de Clarice Lispector “a vida me

fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver.” Entendemos que a história de vida, no

caso da criança adotiva, pode atuar como mediadora no que se refere à sua sensação de pertencimento e à formação de sua identidade psicossocial.

Corroborando com esse raciocínio, Vicente (2000, p. 47-59) considera que toda criança ao nascer está inserida em determinado território social e geográfico. Esse território revela o lugar ao qual esta criança pertence e à qual a comunidade está vinculada. Principalmente vinculada a uma paternidade/maternidade. Dessa forma, podemos dizer que toda criança nasce em uma comunidade e que esta, portanto, também definirá sua identidade. Nesse sentido, pode se entender que cultura e família interagem reciprocamente.

De acordo com Vicente (2000) a história de vida da criança tem início dentro da história da família, de sua comunidade e de sua nação. Neste sentido, a criança que viveu em acolhimento institucional e, portanto, foi afastada da convivência familiar e comunitária, sofreu uma ruptura no processo de construção de sua história de vida, e também uma ruptura nos vínculos afetivos, pois foi afastada de suas raízes culturais e afetivas. Ao ser adotada a criança traz lacunas no que se refere às suas raízes e precisará de um tempo para se reorganizar e assimilar os novos modelos culturais que lhe serão apresentados na família que a adotou. Nesta perspectiva compreende-se que toda relação de vinculação surge da convivência e do respeito, e não só da herança genética.

Nesse sentido, entende-se que para a criança adotiva a narrativa de sua história de vida atua como um elemento importante de mediação. Para aquelas que foram afastadas da convivência familiar, esta narrativa pode amenizar a sobreposição do coletivo ao individual, durante o período de institucionalização. E pode, também, facilitar a transição da saída da instituição para a reintegração no contexto familiar e comunitário. Considerar todos os vínculos instituídos durante sua infância e adolescência, sejam eles, familiar ou institucional é

55 uma tentativa de resgatar a história individual da criança, processo esse que tende facilitar a construção dessa nova filiação em adoção.

Para isso entendemos que para toda boa vinculação, seja ela adotiva ou biológica, é necessária a introdução da criança em uma história familiar, a qual ela necessariamente precisa sentir-se como parte integrante. Todavia anterior a essa relação de pais e filhos, é imprescindível que os pais avaliem as expectativas que estão depositando sobre os filhos, estes apresentam naturalmente limitações, sejam elas históricas ou no seu desenvolvimento etário. Os filhos não devem ser percebidos como objeto adquirido para tamponar uma falta, mas como outro ser do qual advirão gratificações e frustrações.

Não cabe nesse estudo esgotar a discussão do conceito de vínculo. Sua complexidade requer um estudo mais aprofundado que foi proposto aqui, onde se busca evidenciá-lo pela interpretação dos fragmentos dos discursos dos sujeitos entrevistados.

Assim, nosso objetivo tem em vista compreender o processo de vinculação adotiva dentro da dinâmica familiar, destacando indicadores que contribuem para construção do vínculo de pertencimento entre pais e respectivos filhos adotados e indicadores que sejam desfavoráveis a esse encontro filial. Nesse sentido, para viabilização de uma resposta concreta, buscamos através da análise dos discursos identificarmos elementos que contribuem para construção da vinculação adotiva.

Com vistas a dar prosseguimento a proposta deste trabalho, trataremos a seguir dos caminhos percorridos na pesquisa que nos levaram ao acesso aos sujeitos entrevistados e à efetivação da relação entre a teoria proposta e a análise dos discursos.

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CAPÍTULO 3

APRESENTAÇÃO DO MÉTODO

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