Alegría Borrás and Jennifer Degeling
Paragraph 1 – All applications under Article 10 shall as a minimum include –
Na introdução desta seção debatemos que o território é o suporte no qual os indivíduos e agrupamentos humanos trabalham para, dentro de um processo histórico e social, construírem o espaço onde vão viver e se desenvolver, atribuindo-lhe significados. Esse espaço, com os significados que têm para os indivíduos e para a sociedade, passa a fazer parte e influenciar no estabelecimento dos padrões de comportamento, e precisam ser considerado quando da elaboração de qualquer proposta educacional.
Por outro lado, ao mesmo tempo que os indivíduos e as sociedades vão atribuindo sentidos e significados ao território, transformando-o em espaço humano, esses mesmos indivíduos e sociedades passam também a ser significados pelo espaço que ocupam e constroem. É trabalhando e refletindo o suporte que a espécie humana constrói o espaço e é neste mesmo processo que o indivíduo se humaniza, tornando-se sujeito. “Ou, aproveitando uma sugestão de Ortega, o processo em que a vida como biologia passa a ser vida como biografia” (FREIRE, 2011: 12).
Contudo, cada espaço pode representar diversos significados, a depender dos atores selecionados para construção desta representação. Se adotarmos o bairro dos Coelhos, espaço onde está localizado o Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã, nosso objeto de estudo, podemos observar que o significado que este espaço tem para os seus moradores e moradoras é diverso do significado que é atribuído a ele pelos establishment da sociedade recifense.
Como toda sociedade, a recifense também cria os espaços destinados a acolher a parcela da população detentora do poder político e econômico, dotando-os de toda a infraestrutura necessária para atender as demandas dos establishment, que podem dispor dos serviços públicos funcionando a contento.
Por outro lado, os outsiders, parcela da população marginalizada e excluída do poder político e econômico, que lutam em condições bastante
adversas para se estabelecerem e se incluírem socialmente, são induzidas à construírem seus espaços nos locais fora dos interesses dos establishment, e para tanto contam, quando é possível contar, com a participação mínima do poder público, conforme mostramos acima na processo histórico e social de formação do bairro dos Coelhos.
Neste tópico, a intenção é relatar e refletir sobre os significados que os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos, participantes do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã, dão ao seu espaço e qual a função que este espaço representa na construção das suas condições de vida, na sua leitura da realidade e suas aspirações para o futuro.
Partindo do processo de ocupação do bairro e das condições de sobrevivência dos moradores e moradoras da localidade, da nossa experiência empírica com aquela realidade e, fundamentalmente, com as informações dadas pelos sujeitos participantes desta pesquisa, nas entrevista realizadas, é possível afirmar que o bairro dos Coelhos é um espaço que se constituiu e se constitui na ausência do poder público, deixando seus moradores e moradoras à mercê da própria sorte.
Para as sociedades contemporâneas, o Estado, o poder público, se constitui como um importante instrumento indutor do desenvolvimento humano, social e econômico, sua atuação canaliza o trabalho social, o processo civilizatório dos agrupamentos humanos, para um determinado padrão de comportamento. Não obstante, a falta da atuação do poder público representa a ausência do poder centralizador, que é capaz de coibir o uso da força física e influenciar no comportamento social. A esse respeito Elias afirma:
Só quando um monopólio centralizado e público de força existe numa grande área é que a competição pelos meios de consumo e produção se desenvolve de modo geral sem intervenção da violência física; só então existem, de fato, o tipo de economia e de luta que estamos acostumados a designar pelos termos ‘economia’ e ‘competição’ em sentido mais específico (ELIAS, 1993: 132, grifos do autor).
Desta afirmação podemos inferir que a ausência do poder público possibilita o surgimento de inúmeras dificuldades para o desenvolvimento dos
agrupamentos humanos que, assim como os moradores e moradoras do bairro dos Coelhos, vivem à margem da atuação do poder público.
Sobre a ausência do poder público no bairro, o morador Ewerton relata em seu depoimento que: “...ainda falta muita coisa a ser construída aqui na nossa comunidade. O que eu sinto é a ausência governamentais aqui no nosso bairro”. E quando perguntado sobre o que ele acha do bairro, ele afirma:
Bem! Eu como nasci e fui criado aqui nos Coelhos, se transformou um bocado. Mas eu ainda acho a falta de do poder público aqui, ainda falta muita coisa a ser construída aqui. É... como é uma comunidade carente, há muito tráfico de drogas, desemprego, mas tem muita..., mas com a ausência do governo faz com que essas crianças fiquem ociosas aqui no bairro, poderia ele ter uma participação maior aqui no bairro.[...] Aqui falta cursos profissionalizantes, falta lazer. Porque também faz parte da vida ter lazer, e aqui na comunidade não tem. [...] Porque você sabe, quando o poder público não chega, os traficantes adotam essas crianças, então ele [o governo] tem um poder fundamental de resgatar essas crianças.
Neste fragmento do depoimento de Ewerton, emerge um discurso recorrente das populações periférica, que reside na transferência para o poder público, senão toda, parte significativa da responsabilidade sobre a situação de exclusão e vulnerabilidade as quais estão submetidas. Contudo, coloca que se o Estado não cumpre o seu papel de favorecer o desenvolvimento do padrão de comportamento que a sociedade por ele dirigida demanda, outros agentes sociais, como os traficantes de drogas, referidos no depoimento de Ewerton, cumprirão este papel.
Para analisarmos o discurso de Ewerton é preciso ter em mente que “não é possível não interpretar, nem deixar de entrar no universo simbólico, entrada essa que é permanente e irreversível” (ORLANDI; 1999: 09). É preciso ter claro que todo discurso tem sua opacidade por onde deixa transparecer os seus sentidos e seus comprometimentos políticos, mesmo que nem sempre o sujeito discursivo tenha necessariamente a plena consciência a que ideologia o seu discurso está filiado.
Logo de partida, quando Ewerton fala “...como eu nasci e fui criado aqui nos Coelhos...” ele está reivindicando para si a credibilidade que comumente é
dada a toda testemunha ocular, ao mesmo tempo que chama a atenção para o fato de que tudo que por ele for relatado deve ser considerado como a mais pura “verdade”. E ele prossegui afirmando: “se transformou um bocado.” Com esta afirmação, Ewerton busca deixar claro que a sua presença e de seus contemporâneos naquele território não transcorreu sem deixar suas marcas, ele está afirmando que com o trabalho dos antigos moradores e moradoras do bairro, o bairro dos Coelhos vem melhorando. Esta inferência se consolida quando observado o trecho seguinte do discurso em análise, que revela: “Mas eu ainda acho a falta o poder público aqui, ainda falta muita coisa a ser construída aqui.” onde o sujeito discursivo conclui ressaltando que mesmo os moradores do bairro tento feito muito pela localidade, eles ainda ressentem-se da ausência do poder público.
Ao apresentarmos esta análise do discurso presente na fala do depoente Ewerton, não a fazemos como a única possível e ou portadora de uma “verdade absoluta”, até porque não é esse o objetivo da Análise de Discurso. A análise realizada acima se apresentada como “uma proposta de reflexão. Sobre a linguagem, sobre o sujeito, sobre a história e a ideologia” (ORLANDI, 1999: 11).
Contudo, uma vez que as sociedades funcionam através de relações com um alto grau de interdependência, fazendo com que as classes sociais, cada uma cumprindo seu papel e função social, se relacionem, ao poder público, ao Estado, não é permitido ficar plenamente ausente dos territórios destinados ao abrigo dos outsiders, devendo ao Estado, neste sentido, preparar e garantir que eles, os outsiders, cumpram seu papel e função, por um lado, e por outro, não ameacem invadir os espaços, papeis e funções sociais reservadas e ou auto reclamadas pelos establishment.
Nessa perspectiva, o depoimento do educando Adilson, 16 anos de idade, nascido e criado no bairro dos Coelhos e que participa do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã desde o seu início, no ano de 2008, revela como a presença do poder público é comumente efetivada e percebida pelas populações periféricas dos centros urbanos. Ao ser perguntado como ele via o bairro dos Coelhos quando ele tinha 08 anos de idade, quando ele começou a participar das atividades da intervenção, o educando responde:
Eu não saia muito de casa, né?! Mas eu todo dia ouvia tiros, troca de tiros com as polícias, os bandidos aí, trocavam tiros com a polícia. Aí, sempre tinha sangue e morte. Os Coelhos era muito falado, muito visto, assim, em outras comunidades. Noutros cantos, as pessoas só diziam que nos Coelhos só tinham maloqueiros. Mas não! Tem pessoas cidadãos de bem, que trabalha pra sustentar sua família.
Ao analisarmos o discurso presente na fala do educando Adilson, é possível perceber que introdutoriamente ele faz uma ressalva acerca da sua limitação para realizar uma descrição muito abrangente de como era o bairro dos Coelhos na sua infância: “Eu não saia muito de casa, né?!”. Logo em seguida, o depoente apresenta o que para ele é sua memória mais significativa acerca de como era o bairro dos Coelhos na sua infância, ou o que ele julga, consciente ou inconscientemente, mais importante que seja registrado nesta pesquisa como a principal lembrança da comunidade na sua infância, que eram os permanentes embates entre o Estado, representado pela polícia, de um lado, e a parcela dos moradores da comunidade que eram envolvidos com a criminalidade, do outro. E revela os resultados que esses embates deixavam na comunidade, bem como, a influência que esses eventos exerciam no imaginário que a sociedade recifense construíam acerca do bairro dos Coelhos, afirmando: “Mas eu todo dia ouvia tiros, troca de tiros com as polícias, os bandidos aí, trocavam tiros com a polícia. Aí, sempre tinha sangue e morte. Os Coelhos era muito falado, muito visto, assim, em outras comunidades. Noutros cantos, as pessoas só diziam que nos Coelhos só tinham maloqueiros.”
Ainda no depoimento do educando Adilson, ele conclui de forma firme e categórica: “Mas não! Tem pessoas cidadãos de bem, que trabalha pra sustentar sua família.” Revelando, em seu discurso, convicção do conhecimento que revela essa afirmação final.
Seguindo a evolução da forma como o depoente Adilson vai adquirindo segurança nas informações que sua memória está revelando, é interessante observar como as informações que ele revela vão se firmando. Ele começa sua argumentação de forma bastante insegura, passa a demostrar maior certeza quando fala das consequências que os conflitos ocorridos entre o poder público e parcela da sociedade residente do bairro dos Coelhos, chegando a atingir
uma convicção firme e madura quando se refere ao perfil do caráter dos moradores e moradoras daquela localidade.
Essa gradação no nível de segurança com que o depoente revela as reminiscências da suas memórias corrobora com o que Eni Orlandi defende sobre a Análise de Discurso ao afirmar:
O sujeito, por sua vez, ao dizer, se significa e significa o próprio mundo. Nessa perspectiva é que consideramos que a linguagem é uma prática. Não no sentido de realizar atos mas porque pratica sentidos, ações simbólicas que intervém no mundo. O sentido é histórico e o sujeito se faz (se significa) na historicidade em que está inscrito. (ORLANDI; 2008: 44).
As memórias e as observações transcritas até aqui corroboram com a compreensão de que, nas sociedades contemporâneas, o poder público foi se constituindo como um importante centro de aglutinação de poder, detentor de parte significativa das oportunidades indispensável para o desenvolvimento humano, social e econômico dos indivíduos e grupos que compõem a sociedade da qual ele participa, e a distribuição que ele faz dessas oportunidades influencia o tipo de sociedade que irá se formar e como os indivíduos estarão agrupados.
É importante a consideração de que o poder público, o Estado, é participe da sociedade, é expressão da sociedade na qual figura. É equivocada a concepção que compreende que a sociedade se desenvolve entorno do Estado, mas, sim, são as relações dos sujeitos em sociedade que compõem o Estado, o poder público.
Na perspectiva da nossa sociedade de classes, a atuação do Estado se efetiva no sentido de proporcionar níveis de desenvolvimentos desiguais para os agrupamentos humanos que o compõem, sem atentar para as consequências negativas que esta distribuição desigual de oportunidades provoca no seu processo civilizador, criando espaços de conflitos diversos, em todos os campos: cultural, social, econômico, entre outros.
Essas considerações se fazem importante porque, ao vivermos numa sociedade que adota e busca implantar padrões de comportamento, não se pode deixar de fora o fato de que “o padrão de racionalidade, a estrutura dos
hábitos mais racionais de pensamento, foi e é muito diferente em diferentes classes sociais” (ELIAS; 1993: 241), que por sua vez interfere no padrão de comportamento dos indivíduos.
Com isso, torna-se inadequado, e até injusto, espera que os agrupamentos humanos que se formam e se desenvolvem com uma participação mínima nas oportunidades distribuídas pelo poder público almejem alcançar o padrão de comportamento que são “praticados” ou que são impostos a eles pelos agrupamentos humanos que tem mais acesso as oportunidades disponíveis na nossa sociedade de classes.
É preciso considerar que, segundo afirma Montenegro,
As populações pobres, que vivem na periferia das cidades, numa luta diária contra a falta de tudo, constroem suas representações, instituem um imaginário, perpassado também por essas experiências cotidianas. Nesse embate, marcado pela ameaça, pela incerteza de ter alimento, essa população constrói um saber que lhe possibilita viver o avesso da vida, a qual, insistentemente, se quer diferente. (MONTENEGRO, 2010: 36).
Não obstante, diante da presença mínima do Estado em determinados territórios, outros tipos de relações entre os indivíduos vão se formando, criando instituições locais que passam a dar identidade ao território. No caso do bairro dos Coelhos, segundo as informações dos depoentes desta pesquisa, a solidariedade constituída entre os moradores e moradoras do bairro é a instituição que melhor caracteriza a localidade.
Partindo do entendimento de que “o indivíduo cresce a partir de uma rede de pessoas que existia antes dele para uma rede de pessoas que ele ajuda a formar” (ELIAS; 1994: 35), as relações de solidariedade é algo indispensável no processo de crescimento dos seres humanos, ainda mais quando o poder público se faz ausente.
Sobre a solidariedade no bairro dos Coelhos, o depoimento dado pelo educando Adilson, relatando as campanhas de arrecadação de alimentos para garantir o lanche dos educandos e educandas do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã quando eles estavam participando de algum torneio ou
recebiam equipes de futebol de outras localidades para um jogo dentro da comunidade e a mobilização que se faz para torce e incentivar a equipe de futebol do Formando o Amanhã revela o papel motivacional que a solidariedade cumpre e o bem que ela traz para a autoestima dos indivíduos. Em seu depoimento, Adilson relata que sentia-se bem quando via as pessoas torcendo e ajudando a equipe, e prossegue: “as pessoas gostavam de ver a gente jogar, enchiam aí o campinho, vinham para ver a gente jogando com os times de fora, as pessoas ajudavam [...] com lanche, com frutas. Tudo pra agradar a gente aí na comunidade.”
Este depoente demonstra ter a consciência de que a questão da solidariedade é uma característica do bairro dos Coelhos que vem crescendo por conta da existência e intervenção do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã na comunidade. O educando Adilson afirma:
Porque as pessoas daqui não gostava de ajudar ninguém [...] Aí eles começaram a ajudar a gente, aí o Projeto foi crescendo, teve reportagem, veio reportagem, um amigo meu saiu no jornal, aqui do Projeto. É... Aí as pessoas começaram a ver a gente de outra forma. Não todas as pessoas, mas algumas começaram a ver a gente de outra forma (Grifos nosso).
Este fragmento do depoimento de Adilson revela que a solidariedade não é algo que é efetivado naturalmente, ela vai surgindo aos pouco, dentro de um processo social de reconhecimento, de identidade comum e de auto valorização.
Os jogos, os torneios e os campeonatos que a equipe de futebol do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã vêm participando dentro e fora do bairro, vêm revelando para os moradores e moradoras do bairro potenciais, qualidades e valores que não eram percebido nem valorizados dentro do cotidiano do bairro, fazendo com que a solidariedade seja efetivada e materializada.
Contudo, a solidariedade nos grupos sociais não é distribuída igualitariamente para todos os sujeitos que os compõem, questões étnico racial, de orientação sexual, e ou de gênero, entre outros, podem impor para determinados indivíduos, que não estão enquadrados nos padrões internos
aceitos e estabelecidos pelo grupo, um processo mais longo, mais lento e ou mais sofrido.
A esse respeito, o depoimento de Isa, de 17 anos de idade, nascida e criada no bairro dos Coelhos, educanda do Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã entre os anos 2008 e 2012, relata as dificuldades que ela enfrentou para participar da intervenção e ser aceita pelo grupo. A educanda Isa relata que:
A dificuldade é que muitos meninos também não queriam deixar eu jogar, por fato de eu ser uma menina. Aí deve um campeonato, [...] aí me botou, aí eu estava de cabelo cortado, aí lá a gente jogou, aí os meninos viu que eu podia ‘combater’ com eles, que eu podia jogar igualmente a eles. Aí me abraçaram. É... me apoiaram de uma forma que eu não esperava, de um dia pra outra, de um dia pra noite, né?! Aí no outro dia, já me apoiaram, me ajudaram, disseram é assim!
Esta depoente relata que além das dificuldades que teve de enfrentar devido a questão de gênero, ela também vivenciou as dificuldades comum a maioria dos adolescentes e jovens participantes da intervenção, que era a fato de não ter sapatos para jogar – ”Eu tive que jogar um tempo descalça”, afirma a depoente –, e não ter acesso a uma boa alimentação. Contudo, acrescentado que os organizadores do intervenção buscaram conseguir materiais esportivos para ela e, quando conseguiram, isso foi muito significativo, a ponto de deixar marcas em sua memória.
A educanda Isa relata ainda que, superando as dificuldades acima narradas, e a partir da sua participação no Projeto Sócio Esportivo Formando o Amanhã, ela foi indicada para ser atleta da Escolinha de Futebol do Sport Club do Recife – equipe de futebol profissional da capital pernambucana que mais vezes foi campeã do campeonato estadual e que tem boa projeção nacional –, e que no primeiro teste que ocorreu após o seu ingresso na referida Escolinha, ela participou e foi aprovada, passando a treinar no campo profissional do referido clube, fato que entre os iniciados no mundo do futebol profissional representa status.
Mesmo com essa experiência que extrapola os limites do bairro e que pode representar a obtenção de novos valores e mudanças na percepção da
realidade na qual os sujeitos são levados a incidir, quando perguntada sobre quais as melhores coisas que há em se viver no bairro dos Coelhos, na resposta da educanda aparece mais uma vez a instituição da solidariedade.Com suas palavras:
As melhores coisa é... jogar, né?!, lá no campo [...], minha família também, e algumas pessoas que desde que eu nasci, né?!, que tão comigo aqui me ‘apoiano’, me apoia, algumas pessoa me apoia, me apoiaram, me levaram para treinar, quando eu não tinha passagem ajudava, ‘chegavam junto’, essa coisas.
As experiências narradas acima que tratam da solidariedade corroboram com o fato de que o ser humano é um animal gregário e que necessita de outros seres humanos para crescerem e desenvolverem a sua humanidade, além de atestar o quão equivocada está a tendência da racionalidade que coloca as aspirações individuais dos sujeitos de um lado, e, do outro, as imposições que a sociedade reclama para a manutenção da sua ordem.
Esta tendência, que procura criar um abismo entre um indivíduo e outro, e entre os indivíduos, pensados separadamente, e a sociedade, vem sendo adotada no padrão de racionalização do mundo pela razão de atender a finalidade da manutenção da ordem social vigente, que legitima a exclusão, a injustiça e cria dificuldades para a predisposição humana de ser mais.
Neste sentido, Paulo Freire alerta:
A realidade social, objetiva, que não existe por acaso, mas como produto da ação dos homens, também não se transforma