2.1 Opportunistic Communication: A New Communication Paradigm
2.1.2 Application Scenarios
Em 1979, o sociólogo Antonovsky propôs a teoria Salutogênica que entende a saúde como o resultado do equilíbrio de forças que levam aos extremos (saúde e doença), compartilhando o conceito ampliado de saúde, a busca da superação da dicotomia saúde/doença e o estímulo ao desenvolvimento de competências individuais e coletivas para o aumento do controle sobre os determinantes da saúde (ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2007; TEIXEIRA et al. 2011).
Pesquisando mulheres israelenses sobre a adaptação à menopausa, Antonovsky estudou um grupo com experiência no campo de concentração da Segunda Guerra Mundial que, a despeito disso, permaneciam saudáveis. Intrigado, ele desenvolveu uma questão salutogênica de como estas pessoas tinham permanecido saudáveis, postulando, então, que isso se deu pela
forma como elas viam suas vidas e a essência de suas existências (ERIKSSON; LINDSTROM, 2008).
O paradigma salutogênico apresenta como proposta fundamental a abordagem da saúde em um contexto social. O conceito de saúde ainda se organiza predominantemente direcionado à doença, e caracteriza-se por um pensamento e ação de orientação patogênica, procurando evitar a doença através da busca por fatores de risco, buscando a causa da enfermidade e focando no seu tratamento e reabilitação. Nesse âmbito, emerge um novo olhar centrado na origem da saúde e no bem-estar. A orientação salutogênica concentra sua atenção nos fatores que geram a saúde, se contrapondo à medicina curativa (Figura 1) (CARRONDO, 2016; MEZZAROBA, 2012; SCALCO, 2016).
Figura 1 – Patogênese x Salutogênse
O estado de saúde individual depende de como cada um interpreta a vida do ponto de vista cognitivo, afetivo e motivacional, mobilizando e transformando os recursos potenciais em reais e desta forma, facilita o enfrentamento de situações adversas e promovendo saúde e bem- estar como resposta. Antonovsky designa esta “visão” da vida como “Senso de Coerência”, que se constitui o conceito chave e operacionalizador da Salutogênese (ANTONOVSKY; 1992; NUNES, 2002).
Em 1986, a Conferência Internacional sobre Promoção da Saúde, realizada em Ottawa, define, na sua declaração final (Carta de Ottawa), um novo conceito de promoção da saúde:
•Fatores de risco
•Doença( Detecção/cura) •Medicina
•Estrese
•O que faz as pessoas ficarem doentes???
PATOGÊNESE
•Fatores de proteção
•Saúde (Manutencção/Prevenção) •Psicossociologia
•Equilíbrio
•O que mantem a saúde nas pessoas???
SALUTOGÊNESE
“processo que visa criar as condições que permitam aos indivíduos e aos grupos controlar a sua saúde e agir sobre os fatores que a influenciam”. Como resultado, algumas medidas foram ressaltadas, como a elaboração de políticas saudáveis, a reorientação dos serviços de saúde e o desenvolvimento de capacidades individuais. Posto isto, percebe-se um distanciamento da patogênese e uma aproximação do modelo salutogênico no momento em que se propõe a criação de condições que permitam aos indivíduos controlar e serem responsáveis pelo seu estado de saúde (ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2008; ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1986).
Em reconhecimento de sua importância, no ano de 1997, a Organização Mundial de Saúde (OMS), ao propor estratégias de saúde para o Século XXI, introduziu o conceito de Senso de Coerência no âmbito da promoção da saúde, passando a fazer parte das grandes linhas mestras orientadoras das políticas de promoção da saúde mental. Nesta ocasião, foi sugerido que para a promoção da saúde seria necessário propiciar ao indivíduo uma maior autonomia para lidar com os seus determinantes de saúde, como também as políticas públicas devessem ser orientadas no sentido de reforçar o SOC da população (WORLD HEALTH ORGANIZATION, 1997).
A Salutogênese tem sido aplicada no desenvolvimento de ações educativas voltadas para a promoção da saúde e na formulação de modelo teórico para a construção de políticas públicas saudáveis. O conceito ampliado de saúde, a busca da superação da dicotomia saúde/doença, a abordagem interdisciplinar focalizada na interação e o estímulo ao desenvolvimento de competências individuais e coletivas para o aumento do controle sobre os determinantes da saúde são alguns pontos de congruência entre a abordagem da promoção da saúde contemporânea, a integridade e a Salutogênese. Assim, o SOC tem sido apontado como indicador de saúde, haja vista o seu reflexo nas condições de saúde de uma determinada população (ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2007; SARDU et al., 2012).
O SOC é composto por três domínios que estão inter-relacionados, mas pode haver situações nas quais as experiências do indivíduo resultem em escores baixos num domínio e elevados noutro (ANTONOVSKY; 1993; BONANATO et al., 2009; ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2005). São eles:
• Compreensão: considerado o componente cognitivo, refere-se à forma como a pessoa apreende os estímulos do meio interno e externo como uma informação ordenada, consistente, estruturada e clara, favorecendo que os mesmos sejam vistos como desafios capazes de serem suportados, enfrentados e superados;
• Gerenciamento ou manejo: visto como o componente comportamental. Consiste na percepção que cada um tem de que os recursos estão disponíveis e são adequados para responder às exigências requeridas pela situação de estímulo, podendo ser os recursos pessoais ou sociais;
• Significado: é o componente motivacional, que é capacidade de percepção que os acontecimentos de vida fazem sentido, e por isso encontra razão para neles investir a sua energia, reconhecendo um sentido emocional que lhe dê motivação para lidar com os problemas e necessidades apresentados. Considerado por Antonovsky (1992) o domínio mais importante.
Antonovsky (1987, apud MASSENA, 2014) defende que esses domínios apresentam alguns pontos de congruência com outros conceitos, como os de coping, auto- eficácia, otimismo, vontade de viver, iniciativa, perseverança e resiliência. Deste modo, a Salutogênese é vista como um conceito “guarda-chuva”, com muitas teorias e dimensões diferentes envolvidas, como apresentado na figura 2 (LINDSTRÖM; ERIKSSON, 2010; SCALDO, 2016).
Figura 2 – Conceito ‘’guarda-chuva’’ da Salutogênese
Fonte: LINDSTRÖM; ERIKSSON, 2010; SCALDO, 2016
Segundo Eriksson e Lindstrom (2007), o SOC é um recurso que promove e potencializa o desenvolvimento de um bom estado subjetivo de saúde e que, quanto mais forte, melhor será
a percepção da saúde geral, independentemente de fatores como idade, etnia, sexo e nacionalidade, motivo pelo qual este construto se constitui como um bom preditor de saúde. O SOC tem sido estudado associado a vários fatores relacionados direta ou indiretamente à saúde. Estudos realizados por Bernabé et al. (2009), Kuuppelomaki e Utriainen (2003) e Lindmark et al. (2005) associaram um forte SOC aos conhecimentos adequados sobre a saúde, assim como as atitudes e hábitos saudáveis como a prática de atividades físicas e hábitos alimentares.
No Brasil, alguns trabalhos que avaliaram a relação do Senso de Coerência materno e a saúde bucal de seus filhos encontraram uma relação entre um forte SOC materno com a maior a probabilidade de realizar consultas preventivas no dentista; menor número de dentes cariados, perdido e obturado; e menos sangramento gengival das crianças, demonstrando que uma mãe com um forte SOC poderá ser um agente de estimulo para o filho, quanto a bons hábitos e comportamentos de saúde (BONANATO et al., 2009; FREIRE et al., 2002; NEIVA DA SILVA, 2016).
Uma extensa revisão sistemática, com mais de 450 estudos sobre senso de coerência e qualidade de vida de pacientes que convivem com diferentes agravos, como a infecção pelo HIV, neoplasias, traumas, asma, doenças cardiovasculares, esquizofrenia e outros transtornos, demonstrou que o SOC se constitui com um importante fator promotor de qualidade de vida (ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2007).
Os estudos mencionados acima atestam o proposto pela OMS em 1997, uma vez que um forte SOC habilita o indivíduo a descobrir o seu próprio potencial e desenvolver as suas habilidades, o que conduz ao bem-estar, atitudes positivas e à qualidade de vida (WHO, 1997). O SOC também apresenta uma importante relação positiva com um baixo nível de estresse e uma melhor capacidade para lidar com o mesmo. Essa referência foi confirmada pelas pesquisas realizadas por Olssom e Hwang (2002) e Groholt et al., (2013), cujo resultado evidenciou que pais de crianças com doenças crônicas apresentam um SOC mais fraco que os pais de crianças saudáveis. Portanto, esse constructo pode ser considerado um recurso valioso para compreender a adaptação psicológica de pais de crianças com algum comprometimento em sua saúde (ERIKSSON; LINDSTRÖM, 2007).
Segundo Landolt et al. (2013), a cardiopatia congênita, particularmente o tipo grave, pode aumentar a risco de problemas comportamentais e emocionais em crianças e sofrimento psíquico em suas mães. Diante desta problemática, torna-se importante avaliar como o SOC pode estar influenciando o comportamento humano em situações conflituosas (COUTINHO; HEIMER, 2014).
Diante das mães de crianças com DCC, é fundamental investigar o SOC e seus domínios, visto que o significado e a compreensão dos acontecimentos que fazem parte de seu contexto de vida, a crença em suas habilidades, como também o reconhecimento dos recursos disponíveis para lidar com os conflitos são fundamentais para um adequado enfrentamento da situação e bem-estar da criança.
Desta forma, pode-se inferir que um forte SOC materno promoverá condições de saúde mais satisfatórias direcionadas à criança com cardiopatia. A utilização do SOC na prática clínica possibilitará a identificação das mães que necessitam de maior atenção no planejamento do cuidado do seu filho, visando à promoção de estratégias que as auxiliem no enfrentamento da situação de estresse em que se encontram e, assim, promover o melhor ambiente possível para o crescimento e desenvolvimento dessa criança.