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Considerando a proposta da Gramática em textos de aliar o ensino da língua aos diversos gêneros com foco na semântica e na linguística, somente em algumas atividades enxergamos uma tentativa de relacionar o uso dos sinais de pontuação ao efeito de sentido produzido pelos textos, como no exemplo da tirinha do Snoopy. Mas, ainda assim, o faz de maneira inadequada, ao tomar os sinais de pontuação como meros reprodutores de aspectos da fala. Além disso, na

maioria dos exemplos, está baseada em regras e nomenclaturas que são exemplificadas em frases isoladas, ou seja, compreende que o repasse de conceitos e exemplos descontextualizados já será suficiente para o leitor compreender as funções da pontuação, apreender os efeitos de sentido provocados pelos seus usos e utilizar os sinais de maneira adequada. Ressaltamos, ainda, que as atividades que buscaram relacionar a pontuação a um gênero discursivo, com foconos efeitos de sentido, o fizeram a partir de tiras e charges, destacando a pontuação como expressão do pensamento e recursos da fala, e, em alguns casos, tomando os textos apenas como pretexto para o ensino de conceitos de usos dos sinais de pontuação, que nem sempre correspondiam às funções que a pontuação estava, de fato, exercendo na língua em uso.

A Gramática Reflexiva Texto, semântica e interação propõe algumas atividades que levam em conta o contexto de produção do texto, considerando a interação entre os interlocutores na linguagem. Um exemplo é quando apresenta um anúncio publicitário do carro Audi A4. Essa publicidade apresenta dois enunciados. O primeiro é:

Você. Está. Precisando. Dirigir. Um. Carro. Com. Câmbio. Em. Que. Você. Não. Sente. A. Mudança. De. Marcha

No segundo enunciado temos:

Você está precisando dirigir um carro em que você não sente as mudanças de marcha.

Logo abaixo desse segundo enunciado há outro que diz: Audi 4 com Multitronic. Único câmbio com velocidade contínua.

As primeiras atividades propostas em relação a essa publicidade têm em vista que o leitor deduza quem é o público consumidor desse carro, e, portanto, para quem se destina o anúncio. Esse público se refere a pessoas de classes sociais privilegiadas, uma vez que, como afirma a gramática, essa marca fabrica carros caros, com motores de grande potência e alta tecnologia. A atividade 2 é voltada à reflexão do uso do ponto na publicidade. A questão pede que o leitor, relacionando a forma dos enunciados com o conteúdo, interprete o que sugere o ponto após cada uma das palavras no primeiro enunciado e o que sugere o emprego de um único ponto no segundo enunciado. Inferimos que no primeiro enunciado há uma pontuação peculiar, que foge às regras, com o intuito de provocar no leitor a percepção de que as trocas de marcha, quando sentidas, incomodam e não são agradáveis. Isso porque a utilização de tantos pontos não permite a fluidez da leitura. Já no segundo enunciado o uso de um só ponto permite uma

leitura fluida, que o anúncio relaciona à troca de marchas do carro que quer vender. Assim, a pontuação marca em cada texto uma entonação de (não) fluidez por meio da pontuação, que produz diferentes efeitos de sentido. Dessa forma, a atividade explora a situação de comunicação e as intenções implicadas no uso da pontuação. A explicação que segue essa atividade demonstra que o objetivo foi notar que um texto escrito adquire sentidos diferentes quando pontuado de formas distintas, pois, segundo a referida gramática, o uso da pontuação depende da intenção do locutor do discurso. Assim, concluem que os sinais de pontuação estão diretamente relacionados ao contexto, ao interlocutor e as intenções. Entretanto, ao longo da gramática só há mais duas atividades semelhantes a essa, que levam em conta os efeitos de sentido provocados pela pontuação e também explorando seu uso em anúncios publicitários.

Além disso, a explanação sobre os usos da pontuação continua a partir de conceituações limitadas das funções dos sinais e de sua aplicação em frases isoladas. Vale destacar, ainda, a ênfase na análise da pontuação a partir dos gêneros discursivos tirinha, cartum, charge e/ou anúncio publicitário. Reconhecemos que o trabalho com tais gêneros pode levantar questões interessantes em relação ao uso da pontuação, mas se limitar a esses gêneros e a esses usos não é suficiente para explorar as funções dos sinais em todas as suas facetas.

Para refletir sobre a abordagem da pontuação nessas gramáticas, consideramos pertinente algumas ponderações de Antunes (2007), que insiste na irrelevância de um ensino centrado na análise de frases e de pares de frases soltas, pois defende que é consensual no âmbito da linguística do texto, o princípio de que os fatos da língua, sobretudo os relativos ao seu funcionamento, não cabem nos limites da frase. Segundo a autora, não se trata de desconsiderar a importância dos elementos gramaticais, mas de fazer uma crítica à forma como são abordados nas gramáticas e, muitas vezes, em sala de aula. Conforme aponta Antunes (2010, p 46), “a gramática, evidentemente, está presente como componente funcionalmente essencial e insubstituível. O que se tem que descobrir é exatamente essa funcionalidade.” Dessa maneira, qualquer análise, de qualquer segmento, deve ser feita, sempre, em função do sentido, da compreensão, da coerência, da interpretabilidade do que é dito (ANTUNES, 2010).

Nas gramáticas analisadas, prevalece, ainda, a prescrição de regras e normas, limitadas a exemplos em frases isoladas. Essa forma de abordagem não permite a reflexão sobre a pontuação como um elemento que contribui para a construção sintática, textual e discursiva dos enunciados, o que deixaria transparecer os efeitos de sentido causados pelos usos da pontuação. As propostas de Dahlet (2006), por sua vez, fornecem uma forma mais pertinente de conceber as funções dos sinais de pontuação,por isso suas considerações serão levadas em conta nas nossas análises. Além disso, tendo em vista que, como propõem as DCE (PARANÁ, 2008),

“as marcas linguísticas também devem ser abordadas no trabalho com os gêneros, para que o aluno compreenda os usos da língua e os sentidos estabelecidos pela escolha de um ou de outro elemento linguístico”, no próximo capítulo, indo além de uma abordagem tradicional, temos como objetivo relacionar os usos da pontuação a uma perspectiva bakhtiniana de gêneros discursivos, partindo da hipótesede que essas marcas linguísticas (no nosso caso, a pontuação) apresentam “traços da posição enunciativa do locutor e da forma composicional do gênero” (ROJO, 2005, p. 196).

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