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Application aux points rationnels dans les fibrations. Les idées

Problèmes locaux-globaux et fibrations

4.3. Au-delà de la condition d’abélianité ([16])

4.3.4. Application aux points rationnels dans les fibrations. Les idées

A tendência de identificação positiva dos policiais militares com a exposição ao risco é refletida nas percepções dos demissionários. Dentre as categorias construídas na socialização na polícia militar, aquelas que se dirigem ao engrandecimento de aspectos relacionados à exposição ao risco e ao perigo foram recorrentes durante a pesquisa. De maneira relacional, são erigidos pares que se opõem, por um lado, mas que, por outro, se justificam numa lógica de interdependência. É assim que o “vibrador” se opõe ao “encagaçado”, e permanecem, ambos, inter-relacionados em torno da percepção de comprometimento e de dedicação ao serviço que são cristalizadas pelo destemor diante do perigo. O “vestir a camisa”, durante aquilo que chamam de verdadeiro trabalho de polícia, representa tanto a afirmação dos vibradores, quanto a segregação dos encagaçados. Ora, é razoável considerar que o engrandecimento que se observa

no discurso daquele se rotula de vibrador apenas faz sentido na comparação, aliás, na depreciação da alteridade, prescrita ou real, daquele que não se enquadra como vibrador. Restam a este as alcunhas pejorativas, que no ethos policial militar tem respondido por encagaçado. O relato do Sargento Júnior, nesse sentido, é esclarecedor.

Entrevistador: Se você fosse descrever um dia comum no trabalho, como seria? Sargento Júnior: Era muita atividade, muita adrenalina, principalmente daquele que realmente veste a camisa da instituição, sabe? Aquele que tá comprometido com seu trabalho, que vibra... Porque nesses 20 anos e 3 meses, eu sempre trabalhei de radiopatrulhamento, eu sempre trabalhei no operacional, na viatura.

Entrevistador: Qual era o oposto do que você falou de “vestir a camisa”?

Sargento Júnior: É aquele cara que não tem comprometimento. Ele tá ali, eu acho que, só pelo salário. É o cara que quando você precisa dele, mesmo na frente de serviço, o cara não corresponde, encagaça.

Entrevistador: Você trabalhou mais com policiais que vestiam a camisa ou que eram descomprometidos?

Sargento Júnior: Com os que vestiam a camisa. Sabe por quê? Eu geralmente fui comandante de guarnição e escolhia a minha equipe. Aqueles que tinham comprometimento já sabiam que eu também tinha, que eu ia pra rua pra trabalhar. Então, muitas vezes o policial pedia para trabalhar junto e a gente formava as guarnições.

No relato acima, fica evidente a oposição entre a atitude de “vestir a camisa”, que caracteriza o vibrador, e aquele que “ia para a rua e não correspondia”, ou seja, o encagaçado. Mais do que isso, percebe-se a clivagem entre as duas categorias, que, no caso, dizem respeito a percepções de comprometimento afetivamente (não) representadas pela adrenalina associada à exposição ao risco. Na verdade, não se trata de sentir, ou não, medo diante das ocorrências, mas de não demonstrá-lo ou mesmo não titubear em agir como os outros policiais de rua agiriam. É a normalização das condutas, do autocontrole individual diante do perigo, fator essencial à labuta do vibrador (SUASSUNA, 2009:114). Esta característica, em detalhe, contribui à valorização do trabalho dos vibradores, que é reforçado e lembrado pelas estórias, anedotas e eventuais marcas físicas. Além disso, a formação das “equipes”, conforme citado, acaba reproduzindo essa lógica de diferenciação.

Neste sentido, Shearing e Ericson (2005) assinalam que o conhecimento policial encontra justamente na tradição oral, nas estórias, um vetor de orientação das ações, que deve ser considerado tanto quanto os produtos da análise reflexiva e sistemática. Para os autores, esse vocabulário de precedentes é lapidado com o passar do tempo e de acordo com as situações, pelos policiais que as contam. Seu caráter apócrifo lhe confere autoridade para influenciar ações futuras, numa lógica de cálculo por analogia a fim de sugerir a sensibilidade apropriada para a

atividade policial. Por exemplo, o que os policiais militares chamam de tirocínio policial, uma espécie de insight que os motiva a realizar abordagens inopinadas, carrega representações bastante próprias do mundo, como aquelas que informam a construção de traços de suspeição, como vestimentas, cor da pele, localidade, dentre outros (SILVA, 2009). Em grande medida, a força da tradição contribui para a valorização dos aspectos relacionados à exposição ao risco, ainda mais no contexto de uma ocupação cuja característica distintiva é a ambivalência da violência como ofício. Dessa forma, a adrenalina das ruas é mais loquaz do que o trabalho burocrático, ainda mais no contexto que estabelece a violência como potencial instrumento.

Outro aspecto desse contexto é a associação da vibração com o “trabalho de verdade”. É estabelecida uma lógica segundo a qual a exposição ao risco funciona como uma espécie de ponto de inflexão a partir do qual sua distinção, seu valor está diretamente associada às adversidades encontradas. O trabalho policial é dignificado, ganha em prestígio, quão mais árduas forem as condições de enfrentamento e perigo. Vejamos o relato do Soldado Riquelme:

Entrevistador: Qual parte do trabalho você gostava mais?

Soldado Riquelme113: Pra quem gosta da atividade policial é o serviço operacional. O trabalho de verdade é estar nas ruas. Mas tem muita gente preocupada apenas com o salário e tenta de toda forma se esquivar. Na rua você está exposto ao risco, pode acontecer algum acidente ou confronto, e tem gente que foge disso, prefere ficar na boa. Eu acho que trabalha mais.

Entrevistador: E vão para onde se esquivar?

Soldado Riquelme: Normalmente no serviço de guarda, no posto. Depende do local.

No exemplo acima, a categoria do vibrador é valorizada como o policial que de fato desempenha o “trabalho de verdade”. Com efeito, essa característica sugere uma aptidão daqueles que “gostam da atividade policial”. Além disso, o vibrador não está preocupado apenas com o salário, outro aspecto que visa distingui-lo diante do valor moral de se preocupar com algo a mais, mesmo com o risco de “algum acidente ou confronto”. Ainda mais, o vibrador é aquele policial que trabalha mais, que não quer apenas “ficar na boa”, esquivando-se como aqueles que não vibram, os engaçados. Diante dessa fala, o vibrador é caracterizado como o policial que trabalha verdadeiramente, ao passo que o encagaçado é o preguiçoso. Nesse sentido, conforme veremos adiante, o vibrador aproxima-se do operacional na distinção quanto ao tipo de serviço a ser desempenhado.

4.3.1.2. Distinções diante do tipo de serviço: os operacionais e os administrativos

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