também o jornalismo daquela época. O sindicato de pecuarista da região de Barretos (São Paulo) editava um boletim econômico que trazia informações sobre os problemas da pecuária bovina de corte. Além disso, o sindicato promovia a organização de outras associações para movimentar a classe, pois frigoríficos multinacionais começavam a dominar a região e cooptavam pequenos produtores na tentativa de realizar a compra e venda das mercadorias diretamente sem passar pela intermediação de terceiros74. O boletim econômico, portanto procurava
orientar os pecuaristas sobre o negócio (Resende, 2005).
Neste período, o jornal a Folha da Manhã (pertencente ao Grupo Folha) demonstrou interesse em trazer para sua pauta o tema da pecuária de corte75. No entanto, a responsabilidade da seção de Economia ficara
74 Segundo Resende (2005) foi neste mesmo período que a Federação das
Associações de Pecuária do Brasil Central foi criada. Para um maior detalhe das relações sociais entre os pecuaristas e o Governo Getúlio Vargas ver: Resende (2005), Fonseca (19??)
75 Resende (2005) avilta a hipótese, porém sem trazer dados contundentes, de que
teria havido uma pressão da parte das empresas de frigoríficos no jornal a Folha de Manhã para que houvesse um espaço o tema da pecuária de corte.
sob a coordenação de Mario Mazzei Guimarães76. Assim, a Folha passa
a ter seções de Economia e Finanças que tratavam sobre economia em geral e relações econômicas ítalo-brasileiras77, sobre agricultura e
indústria e comércio (RESENDE, 2005).
Nos anos 1950 havia dois tipos de jornais que publicavam assuntos sobre economia, os jornais de grande publicação e os jornais de comércio. De acordo com Quintão (1987), a eclosão do jornalismo econômico surge nos jornais de comércio e indústria que dedicavam algumas seções e colunas direcionadas a economia. As páginas dos jornais de informação em geral traziam pequenas notas ou artigos isolados que tratavam especificamente dos interesses do comércio e dos cafeicultores e, o conteúdo da informação baseava-se na produção, exportação, movimento de portos e taxas cambiais. O autor ainda salienta que as fontes deste noticiário eram resgatadas nas agências estrangeiras de informação, nas câmaras do comércio e no Ministério da Fazenda. Ao contrário, os jornais de comércio pouco falavam sobre economia, como eram editados pelas associações patronais dos Estados, acabavam por refletir os interesses dos proprietários e retratavam as cidades ou regiões nos quais eram editados (não havia a pretensão de abranger nacionalmente). As fontes dos jornais de comércio eram de receita composta por: editais de cartórios, protestos, atas de assembleia, balanços ou comunicados de empresas ao público (QUINTÃO, 1987).
O jornalismo econômico desta época caracterizava-se pelo colunismo. Ou seja, um jornalismo mais analítico do que noticioso e que ocupava um pequeno espaço nas páginas dos jornais. Conforme Quintão (1987) existia uma intenção evidente de influenciar e orientar a política econômica do País, pois os colunistas relacionavam-se diretamente com os ministros da Fazenda ou autoridades econômicas.
O processo de industrialização no Brasil foi estabelecido através do Plano de Metas apresentado pelo governo de JK a fim de cumprir com
76 Resende (2005) relembra que Mario Mazzei Guimarães (formado em Direito
pela USP) era o editor responsável do boletim econômico editado pelo sindicato de Barretos. Logo após a criação da federação de pecuária, ele tornou-se o diretor da revista Brasil Pecuário editada pela entidade. Além disso, Mazzei ajudou a elaborar o projeto de lei federal que criaria a Federação das Associações Rurais do Estado de São Paulo (FARESP).
77 Cabe lembrar aqui que nesta época havia três grandes grupos jornalísticos: O
Estado de São Paulo, dirigido pela família Mesquita, os Diários Associados de propriedade de Assis Chateaubriand e a empresa Folha da Manhã (Folha da Manhã, Folha da Tarde e Folha da Noite).
a promessa de campanha que transformaria o progresso do país em apenas cinco anos (o famoso slogan “Cinquenta anos de progresso em cinco anos de governo”). O plano consistia no investimento em áreas prioritárias para o desenvolvimento econômico. Este plano tinha como objetivos principais desenvolver os setores: petrolífero, siderúrgico, comunicações, energético, investir nas construções de estradas e hidrelétricas, na educação e alimentação. No entanto, os investimentos nesses setores dependiam do apoio financeiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e do capital estrangeiro. A entrada de capital de estrangeiro no Brasil foi permitida, porque durante o Governo de JK a Superintendência da Moeda e do Crédito (SUMOC), órgão responsável pela administração da política cambial, criou facilidades operacionais destinadas a favorecer o fluxo do investimento estrangeiro no Brasil. Para exemplificar que as idéias econômicas sempre estiveram presentes nos jornais impressos a fim de estabelecerem uma interação entre aqueles grupos que comandavam a economia brasileira e o setor produtivo, Loureiro (2006) exemplifica a presença do grupo da FGV (teoricamente identificados com os neoclássicos) na mídia impressa. De acordo com Loureiro (2006, p. 351) a visibilidade da FGV se assentava não só na publicação de suas revistas especializadas, mas também em jornais e revistas mundanas, pois Eugênio Gudin escreveu, durante décadas, em jornais como o Correio da Manhã e o Globo. Ele e Otávio Bulhões publicavam em revistas como o Digesto Econômico, da Associação Comercial de São Paulo e na Carta Mensal da Confederação Nacional do Comercial.
6.2 O DISCURSO DE INFORMAÇÃO ECONÔMICA NO CONTEXTO DA POLÍTICA NEOLIBERAL
Kucinski (2000) considera que a imprensa foi fundamental na campanha neoliberal na década de 1990. O jornalismo econômico, segundo ele, veículo por excelência de uma nova ideologia, tornou-se o principal agendador do debate político. Um jornalismo que não se propõe a explicar e sim a seduzir. Apesar do predomínio do econômico sobre o político, as hierarquias e as estruturas de produção jornalísticas ainda são remanescentes de quando o jornalismo econômico era apenas uma especialização. O espaço dos jornalistas dedicados à economia permanece confinado, dificultando a formação de uma nova linguagem, apropriada à apresentação e à análise da questão econômica para um grande público.
Na cobertura e na disposição temática, o político continua frequentemente separado do econômico (KUCINSKI, 2000, p. 14-15).
Puliti (2010) considera que o início e a consolidação da financeirização do noticiário econômico ocorreu entre os anos 1989 a 2002 –, estes anos contemplam os governos José Sarney (1985-1990), Fernando Collor de Mello (1990-1992), Itamar Franco (1992-1995) até o fim da chamada Era FHC (1995-2002). No entanto, a mídia especializada em economia não resultou em um aumento do número de jornalistas realmente especializados neste campo. O sociólogo francês Jean –Marie Charron (2013) distinguir dois tipos de jornalistas, de um lado os “jornalistas econômicos” e, do outro os “jornalistas que tratam de economia”. Se os primeiros receberam formação específica em economia e se especializaram nesta profissão, os segundos, entretanto, com uma simples formação acadêmica são chamados para trabalhar em uma grande variedade de tópicos, incluindo a economia a título ocasional. Estes jornalistas muitas vezes não estão confortáveis por não terem habilidades necessárias para compreender os registros contábeis, quadros estatísticos ou, o mais importante o próprio discurso econômico/financeiro e outros materiais enviados pelas fontes e postas a sua disposição. Muitas vezes, o jornalista se encontra diante de um ou vários interlocutores que conhecem muito bem o tema abordado, mas não sabe fazer a pergunta certa ou pedir esclarecimento útil ou, em última instância manter a distância mínima para a crítica. Logo, a fragilidade da formação técnica de jornalistas afeta a qualidade das informações apresentadas, a tal ponto que prevalece muito mais a comunicação econômica do que a realização de um jornalismo econômico. Isto é, a importância da difusão e do nível de especialização dos jornalistas são, talvez, garantias essenciais da independência dos jornais. Visto que o jornalismo visa a atender, ao menos, três requisitos simples na composição da informação midiática: integralidade, seriedade e competência. Estes requisitos permitiria coletar, processar e interpretar a informação econômica de modo objetivo78.
A relevância que a atividade jornalística adquiriu nos estudos do jornalismo está inserida no interesse em compreender o processo produtivo da informação e a prática do jornalismo através do conceito de
78 De acordo com Carina Benedeti (2009) podemos considerar que as reflexões
acadêmicas sobre as práticas jornalísticas estiveram voltadas para: a) para a arbitrariedade das decisões tomadas pelos jornalistas; b) para a interferência de fatores externos e organizacionais nessas decisões; c) e para a importância das rotinas produtivas e dos valores da comunidade jornalística.
gatekeepers (David Manning White) e a formulação da teoria sobre os constrangimentos organizacionais (Warren Breed) (BENEDETI, 2009). Logo, não se pode falar de ausência de teorias capazes de orientar a prática jornalística, tampouco creditar valor a ideia de que os jornalistas não possuem conhecimentos específicos para o desempenho da atividade79.
Uma das principais ações advindas do processo de globalização é caracterizada pelas reformas na arquitetura financeira, ou seja, nas instituições que governam as relações entre os diversos atores que operam nos mercados financeiros. Houve, portanto uma importante consequência na readequação do papel dos órgãos multilaterais (FMI e Banco Mundial) no processo de implementação dos ideais neoliberais. Estes órgãos multilaterais viabilizaram um conjunto de regras em diversas áreas da governança pública e privada nas quais pregavam “melhores práticas” para uma economia de mercado (CUNHA, 2005). Entre essas medidas estavam às privatizações da economia brasileira, ocorridas especialmente no governo FHC. Faria (1994) demonstrou, na tese de doutoramento, que a mídia não somente deu espaço para o processo de privatizações brasileiro, assim como apoiou o programa, iniciado nos anos 1990, defendendo que tais medidas seriam benéficas para as contas públicas e reduziria a participação do Estado. De acordo com Faria, o noticiário econômico deu visibilidade ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômica e Social (BNDES) sem questionar os valores e critérios de avaliação das estatais adotadas pelo banco, tampouco mencionou a ausência de uma política industrial no contexto das privatizações. A imprensa cedeu espaço inúmeras vezes ao presidente do BNDES, Eduardo Modiano, sem questionar se haveria perda de patrimônio público. Ela posicionou-se sempre favorável ao Programa Nacional de Desestatização (PND), cedendo espaço nas suas páginas a um grupo técnico, através de um discurso teórico, revelando a necessidade da liquidação dos bens públicos. Assim, o jornalismo impresso adotou um discurso favorável às privatizações e a presença de um Estado mínimo para a modernização da economia brasileira. Além disso, a imprensa de absteve de criticar que os recursos financeiros advindos da liquidação de bens públicos fossem destinados a pagar dívidas, ao invés de serem revertidos para o investimento em áreas como saúde, educação, habitação e saneamentos públicos. Portanto, Faria (1994) conclui que a imprensa,
79 Não cabe aqui trazer um referencial teórico sobre a atividade jornalística, para
isso ver os estudos sobre a teoria do jornalismo realizados por Traquina (2003) e Wolf (1995).
no evento privatizações, exerceu uma função de auxiliar a implementação de uma política neoliberal, bem como de apoiadora do PND.
O campo jornalístico, definido por Bourdieu (1994) como relativamente autônomo e difuso, articula consigo os campos políticos, econômicos e sociais, estes contidos às relações comerciais, às pressões do público que o acompanha, às ações dos jornalistas, aos interesses sociais, político e culturais. Bourdieu (1999) considera que as interações entre pessoas e grupos sofrem influências devido aos recursos, ou ao capital simbólico, que cada parceiro carrega consigo num processo interativo determinado pelo campo. Nesse sentido, Puliti (2010) constatou que o conteúdo do noticiário econômico praticado nos jornais brasileiros iniciou um processo de transformação a partir da substituição de suas tradicionais fontes de informação – os grandes empresários e produtores rurais, e em menor escala acadêmicos e sindicalistas – por um novo agente que surgia na cena nacional, o economista do mercado financeiro. Ele ingressou no noticiário para oferecer conselhos sobre como os leitores deveriam proteger seu dinheiro da corrosão inflacionária. Com um discurso científico contido nas Ciências Econômicas, de acordo com Puliti (2010) esse profissional oferecia ao leitor os instrumentos financeiros da instituição na qual ele mesmo trabalhava. Depois, a partir do Plano Real, em 1994, com adoção pelo governo brasileiro dos princípios neoliberais, verificou-se uma série de estratégias comunicacionais desses profissionais para conquistar os jornalistas, pressionando por meio do noticiário o governo e o Legislativo a assumir a agenda do neoliberalismo financeiro, com defesa da redução do tamanho do Estado, o fim da intervenção estatal nos processos econômicos, as privatizações, as reformas e a abertura comercial e de serviços financeiros.
A pesquisa realizada por Puliti (2010) revela no noticiário econômico a predominância de abordagens e temas que refletem quase que exclusivamente uma linha de pensamento: o neoliberalismo financeiro, sua visão sobre a política de juros e o endividamento federal. Corroborando nesta perspectiva, o estudo realizado pelo professor André Araújo (1998 citado por, PULIT, 2010) sobre o apoio dos meios de comunicações (ele analisou os principais jornais e revista da região sudeste) ao plano de estabilização econômica de 1994 demonstra que esses veículos foram coniventes com o modelo econômico e omissos na crítica à política econômica e, conclui que um dos grandes capitais políticos do PSDB, que o distingue dos demais partidos, é o intimo e
profundo relacionamento com a imprensa, por meio de afinidades sociais e intelectuais do PSDB com as redações.