A cooperação pode-se efectivar através da associação de instituições pertencentes ao mesmo segmento, ou através da reunião de esforços de entidades de segmentos diferentes, ao que designamos de cooperação transversal ou cruzada. Esta última forma de cooperação tem-se revelado um importante assunto nas iniciativas da União Europeia e nas discussões académicas, que enfatizam a necessidade de cooperação entre arquivos, bibliotecas, museus e outras instituições culturais na área do património. Tende-se a considerar que a antiguidade das instituições, em cada domínio, se tende a desvanecer, e que as instituições culturais tenderão a cooperar cada vez mais umas com as outras e com outros domínios, no que respeita, por exemplo, a novos serviços ou a projectos de digitalização. Esta perspectiva está, de resto, particularmente enraizada nas expectativas dos utilizadores quando inquiridos sobre as suas buscas na Internet. Na perspectiva dos utilizadores, a separação tradicional entre arquivos, bibliotecas e museus é simplesmente uma barreira para o acesso eficiente de recursos na medida em que eles não estão interessados nas instituições e na sua diferente lógica de tratar os recursos, mas em temas de pesquisa e estudo que, vulgarmente ultrapassam as fronteiras institucionais. Este paradigma quanto à forma de acesso à informação tem subjacente a interoperabilidade entre sectores e da meta data que produzem, revelando-se essencial para a exequibilidade da pretensão dos utilizadores.
Enquanto a cooperação entre instituições do mesmo domínio é muito comum, a cooperação transversal não é facilmente alcançável. De facto, a maioria das instituições não parecem estar preocupadas com este tipo de cooperação. Um recente estudo sobre cooperação cruzada entre bibliotecas, museus e arquivos na Europa (EC, 2000), concluiu de forma clara que a cooperação com instituições fora do respectivo campo de trabalho não é uma tarefa que conste das suas principais prioridades. O referido estudo apontou como principais causas para a negligência de esforços de cooperação cruzada “the breaking up of the entities and the widely diverse status of the different institutions. The priorities retained put in the forefront those projects between institutions in the same field and choices have to be made given the delays in the modernisation of the structures themselves” (EC, 2000). Estas causas sustentam, portanto, a ausência de interoperabilidade, que serve de factor de inércia para o estabelecimento de parcerias cruzadas. Apesar de se constatar a existência de um grande bloqueio para a cooperação cruzada, há excepções a esta observação. Muito activos na construção de tais cooperações são, por exemplo, os países Nórdicos, que montaram redes e projectos que podem ser vistos como exemplos de boas práticas para outros países que pretendam estabelecer cooperação cruzada. No caso da Suécia, por exemplo, a iniciativa ilustra que a cooperação cruzada pode-se dinamizar se se focalizar numa temática em que muitas instituições possam aderir e em que o público tenha um grande interesse. Em Portugal, o projecto Euromint126 traduz um exemplo de sucesso no quadro da cooperação
transversal. Neste trabalho de caracter internacional, liderado por Portugal através da Câmara Municipal do Porto, trabalharam juntos instituições de arquivo, museus, outros centros de arte e mesmo entidades privadas fora do sector cultural (como por exemplo bancos), estando envolvidos países dentro e fora da União Europeia, tais como Espanha, República Checa e Turquia. De forma a incentivar este tipo de cooperação, defende-se que os responsáveis políticos pelo financiamento do sector deviam condicionar o financiamento a projectos culturais no domínio do património ao estabelecimento de parcerias cruzadas entre os parceiros, tal como aconteceu no Euromint. Esta limitação prende-se com o facto das instituições culturais do património deverem participar em projectos de cooperação cruzada, nacionais ou regionais, de forma a contextualizar e apresentar os seus importantes recursos conjuntamente, e daí extrair vantagens diversas, explicadas e descritas na Secção 2.2, do Capítulo 3 da Parte III.
Porque os arquivos, as bibliotecas e os museus têm as suas próprias características organizacionais, poder-se-ia esperar que o desenvolvimento tecnológico e os requisitos para garantir o acesso e a
distribuição efectiva de informação os impelisse a cooperar. Outro factor, talvez mais forte, para induzir a necessidade de cooperação transversal institucional prende-se com a escassez de recursos. Este factor é visto como sendo uma importante força motriz para as instituições de diferentes domínios trabalharem juntas mais intensamente.
A cooperação transversal torna-se ainda mais crítica, quando o financiamento de novos projectos está condicionado ao envolvimento de instituições de domínios diferentes. A responsável pelo Departamento de Digitalização e Internet da Biblioteca Real da Dinamarca, afirma que esta é uma estratégia da política cultural do país para pressionar as instituições a cooperarem: “Funding is a way of stressing things in Denmak. The three ministries, the Ministry of Culture, the Ministry of Research, the Ministry of Education have pooled some of their money and the institutions can seek funding for their projects, but they cannot do it alone, they have to cooperate with some of the others. (…) If you want to take part in the projects you have to be able to cooperate and make cross-sector projects. (…) I think it is the only way that you can pressure the institutions to do it, because they are cut down on their budgets so they cannot finance their projects from their own budget, they have to go for external money.”127