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Paschoal (1996b) se reporta aos diferentes tipos de envelhecimento, situando o envelhecimento funcional como aquele ao qual se costuma dar maior valor. Este ocorre em função da deterioração da saúde física e mental do indivíduo, levando-o à dependência dos outras para realizar suas tarefas habituais e até mesmo, em alguns casos, as necessidades básicas. O envelhecimento funcional, segundo o autor é considerado mais importante que o envelhecimento cronológico e mais valorizado em nossa cultura, em razão dos problemas de relacionamento e adaptação familiar implicados na perda de autonomia e capacidade funcional das pessoas.

O envelhecimento intelectual é associado à perda de memória (lapsos), à dificuldade de aprendizado e déficit de atenção, orientação e concentração, quando comparados com a capacidade intelectual anterior do indivíduo. O envelhecimento econômico está relacionado à aposentadoria e condicionado à capacidade produtiva do indivíduo, ocorrendo quando este se desliga (ou é desligado) do mercado de trabalho.

É fato incontestável a existência de restrições impostas pelo mercado de trabalho em relação às pessoas mais velhas, ocorrendo redução sensível no percentual dos ocupados absorvidos pelas empresas, proporcionalmente ao aumento da idade dos indivíduos. Hoje, a dificuldade enfrentada pelos muitos jovens para conseguir emprego, pode ser equiparada aos problemas enfrentados pelos trabalhadores com mais de 40 anos, principalmente aqueles pouco especializados e/ou com baixo nível de instrução.

Segundo Drury (1993), existe realmente uma tendência crescente de discriminação em relação aos indivíduos com maior idade, manifestada não somente no momento da seleção, como também nos processos de capacitação/atualização dos trabalhadores mais idosos, bem como no reconhecimento profissional e perspectivas de ascensão na carreira. De acordo com a OIT, existe a evidência de preconceitos quanto às potencialidades e aos resultados do trabalho de pessoas mais velhas, muito embora estes trabalhadores dêem provas de sua eficiência. Outra avaliação perversa é feita pelos empregadores, considerando que o aumento de riscos de acidentes e

doenças em trabalhadores mais velhos pode levar a um maior índice de absenteísmo e, conseqüentemente, ao aumento de custos com redução da produtividade.

É claro, pontua Oliveira (1999, p. 71), que não se pode desconhecer ou negar a existência de diferenças nos desempenhos entre faixas etárias variadas, como o ritmo empreendido em algumas funções. Porém, em outros aspectos, há equivalência entre os mais velhos e os mais jovens que, muitas vezes, são até mesmo superados pela experiência dos mais idosos. Assim, “pode-se considerar uma injustiça a crença da inferioridade inelutável do rendimento na fase senhorial da vida”.

Marín e Iguti (1997, p. 44) consideram que, qualquer que sejam os países ou setores de trabalho, alguns fatores de ordem geral interferem de forma negativa sobre a situação profissional de trabalhadores mais idosos. A questão da competitividade com os mais jovens está entre esses fatores, uma vez que os fatores fisiológicos e até mesmo psicológicos contam de forma desfavorável para os mais velhos. Um aspecto mencionado também é a suposta dificuldade de adaptação a novos métodos e técnicas de trabalho, bem como a idéia errônea de que a idade necessariamente implica em dificuldade de aprendizagem.

Por esse prisma, o trabalho aparece como um marcador de envelhecimento. Com as alterações biopsicofísicas decorrentes da idade, o declínio do trabalhador é acentuado, ameaçando sua permanência no emprego e, consequentemente, o seu papel social. Sob outro ponto de vista, é possível que o envelhecimento apareça como contribuinte para o desenvolvimento do indivíduo, quando o trabalhador, cada vez mais qualificado, tem a sua competência aumentada no decorrer do tempo, resultando em valorização de seu papel social e elevação do padrão de vida do ponto de vista financeiro.

O valor dos indivíduos no mercado de trabalho é apontado por Lenoir (1989) como uma das variáveis essenciais que exercem influência na

determinação do envelhecimento social, relacionada especialmente à importância da atividade profissional na definição do valor social dos indivíduos. Na opinião do autor, o campo profissional, até mesmo dentro das empresas, parece respeitar e reproduzir essa hierarquia social calcada nos graus do envelhecimento.

Essa avaliação determinada pela valoração de determinados grupos, também é mencionada por Bourdieu (1987), para quem a divisão social do trabalho expressa a tentativa de imposição de determinada visão do mundo social, com o intuito de manter ou modificar posições sociais. O que se verifica, de fato, é que são os interesses das classes dominantes economicamente que acabam por determinar não somente as classificações sociais, mas também de grupos etários, na forma de uma ordenação social. Em uma sociedade em que o status da pessoa é ligado ao trabalho e à rentabilidade, a sociedade vai sublinhar a não-produtividade e/ou inutilidade econômica do idoso, determinando a sua exclusão.

Em nosso país, observa Oliveira (1999, p. 71), muitos valores sociais foram sedimentados ao longo dos anos a partir da idéia disseminada pelos meios de comunicação de que o Brasil é “País Jovem” ou um “país de jovens”, evidenciando exclusivamente o potencial da juventude, em detrimento da idade madura e da velhice, que acabaram por se tornar sinônimos de improdutividade e decadência.

A sociedade brasileira acostumou-se a ver o idoso como uma categoria social em decadência, marcada por declínios de ordem física, social e mental. Essa idéia orienta atitudes e comportamentos, estabelecendo barreiras nítidas nas relações intergeracionais, sustentadas nos mitos, por exemplo, de que velhice e doença estão diretamente relacionados, de que todo velho é improdutivo e incapaz de aprender coisas novas, de que o velho tende ao isolamento porque não consegue mais interagir, inclusive com a sua própria família. Tais idéias orientam a sociedade em geral, inclusive as famílias, que tratam os seus idosos como fardos, pesos mortos dos quais procurarão livrar-

se a todo custo. O lado mais perverso é que muitas vezes o próprio idoso incorpora essa idéia, passando a comportar-se de modo arredio, minimizando problemas de saúde e isolando-se para não dar trabalho.

Em uma sociedade que valoriza os indivíduos pela sua capacidade produtiva, estar velho é estar disfuncional. O descarte dos idosos é forjado e viabilizado de várias formas, desde a indução à sua retirada do mercado de trabalho, por meio de programas de preparação para a aposentadoria de demissões voluntárias, geralmente com perda financeira, até o fechamento do mercado para os indivíduos de maior idade. Não há espaço para o “velho” no mercado de trabalho atual, pois até mesmo os mais preparados têm dificuldade de se colocar em nível de competitividade com os mais jovens.

Pode-se dizer que as desigualdades sociais são fortalecidas pela modernidade, e em países como o Brasil, nos quais a identidade da pessoa está diretamente ligada ao seu trabalho, é grande o contingente de idosos que sofrem esta marginalização, por um lado, pelo aspecto econômico e, por outro, pelo mito da improdutividade que lhes é atribuído. Segundo Oliveira (1999, p. 94):

Numa sociedade eminentemente capitalista, onde muitos lutam pela sobrevivência, enquanto outros paralelamente lutam pelo poder, os discursos giram em torno de desenvolvimento, tecnologia, bem- estar social, fundamentados na relação capital/trabalho. Considerando o significado de trabalho como a capacidade do homem de transformar a natureza que o capital potencializa para o processo de produção, estabelece-se a forma como os homens são valorizados socialmente e como sobrevivem. Nessa relação, privilegia-se o interesse das classes que dominam política e economicamente. Por sua vez, atrelados ao capital e trabalho, valoriza-se a produtividade e aqui um dos mitos relativos à velhice surge com vigor; o velho é improdutivo e estereotipado como inútil ao sistema, legitimando-o como incapaz de desempenhar a função social.

O envelhecimento da população influencia o consumo, a transferência de capital e propriedades, impostos, pensões, o mercado de trabalho, a saúde e assistência médica, a composição e organização da família. É um processo normal, inevitável, irreversível e não uma doença. Portanto, não deve ser

tratado apenas com soluções médicas, mas também por intervenções sociais, econômicas e ambientais.