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A Análise de Discurso (AD) faz parte de um campo do conhecimento que instiga o pesquisador a tentar compreender e problematizar o funcionamento da linguagem materializada em discursos. Dada sua relevância acreditamos ser interessante tentar entender um pouco das origens desta teoria-metodológica.

A Análise de Discurso surge no final da década de 60 tendo como principal objeto de investigação o “discurso”. A proposta foi elaborada a princípio pelo francês Michel Pêcheux em sua tese "Analyse Automatique du Discours" em 1969.

De acordo com Carvalho (2010), Pêcheux sugere que as Ciências se confrontem, particularmente a História, a Psicanálise e a Lingüística:

A AD de Pêcheux visa compreender o processo discursivo considerando que as condições de produção de um discurso estão inscritas em sua materialidade linguística e que os sujeitos são assujeitados, uma vez que assumem lugares preestabelecidos e obedecem a regras que o obrigam a falar conforme o lugar assumido por eles dentro dos discursos (CARVALHO, 2010).

A partir desta discussão inicial sobre a Análise de Discurso de Pêcheux, na década de 60, outros teóricos, de campos distintos, começaram a dialogar com esta forma de perceber os discursos. O também francês Michel Foucault traz amplas contribuições acerca disso, porém, enfoca o discurso de forma distinta da de Pêcheux posto que para

ele, filósofo da linguagem, “... o discurso não é uma estrutura pronta, mas em constante construção...” (CARVALHO, 2010, p.24). Pêcheux na AD-2 e na AD-3 reconhece isso.

A contento, nos últimos 30 anos a Análise de Discurso vem sendo bastante utilizada no meio acadêmico, há inclusive estudos que comprovam seu crescimento em amplas áreas das Ciências Sociais e Humanas.

Neste aspecto, destacamos que essa pesquisa se encaminhou para uma contribuição histórico-social a partir da re/constituição da história da Educação Infantil em Caruaru, tendo com um de seus focos a categoria do discurso na conceitualização da AD francesa. Acerca disto, Carvalho (2010) afirma que:

O sujeito é essencialmente histórico-ideológico e sua falta é um recorte das representações de um tempo histórico-social [...] o sujeito acredita que é produtor do discurso, mas é assujeitado, apenas suporte para sua produção, a qual é determinada socio-historicamente (CARVALHO, 2010, p.23).

Neste sentido, a escolha pela Análise de Discurso e não de Conteúdo, se estabelece exatamente no ponto em que ela se concentra no sujeito social e nos sentidos circundantes e não na intencionalidade de fala de cada um individualmente, pois, a Análise de Discurso diferentemente de como faz a Análise de Conteúdo, possibilita esse ir para o social, procurando entender através do funcionamento da língua, a construção de sentidos realizada coletivamente.

A linguagem por sua vez está impregnada no sujeito pelo social, portanto, analisar o discurso é sair do sujeito para a sociedade usando, dentro do possível, a memória de sentidos circundantes. Neste aspecto, é especialmente no campo do interdiscurso que nosso trabalho se concentrou posto que este não ficando no sujeito, sai dele para buscar na história e na memória o funcionamento lingüístico:

Os dizeres, não são como dissemos, apenas mensagens a serem decodificadas. São efeitos de sentidos que são produzidos em condições determinadas e que estão presentes na forma como se diz algo. Estas condições de produção compreendem fundamentalmente o sujeito e a situação. E, a memória faz parte desta produção do discurso. Assim, a maneira como a memória vai “acionar”, faz valer as condições de produção do discurso (ORLANDI, 1999, p.31).

De acordo com Orlandi (1999) “A palavra discurso etimologicamente tem em si a idéia de curso, de percurso, de correr por, de movimento. O discurso é assim a palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando...” (IBIDEM, p.15). A esta palavra em movimento será associada à memória/história oral. Igualmente, para esta mesma autora o Interdiscurso expõe características da memória circundante e circulante quando pensadas em relação ao discurso.

A Análise de Discurso nos proporcionou assim, entender que “... a entrada do simbólico é irremediável e permanente...” (IBIDEM, p.09) pelo fato de o sujeito estar comprometido com o político e o sentido. Segundo a referida autora “... a Análise de Discurso visa à compreensão de como um objeto simbólico produz sentidos, como ele esta investido de significância para e por sujeitos...” (IBIDEM, p.26).

O discurso é marcado por rastros sociais de sentidos elaborados e reelaborados historicamente, sentidos que são repetidos inconscientemente, mesmo quando ressignificados. Estes sentidos, ditos por alguém, em algum lugar, produzem efeitos no discurso. Assim, o papel do analista de discurso é tentar entender por que o sujeito expressa-se de tal maneira e não de outra (ORLANDI, 1999).

Desse modo, para o exame documental e das entrevistas, a metodologia e teoria empregadas foi a da Análise de Discurso tendo em vista que ela nos ofereceu subsídios teóricos e metodológicos para “... compreender a língua fazendo sentido, enquanto trabalho simbólico, parte do trabalho social em geral, constitutivo do homem e sua história...” (ORLANDI, 1999, p.15). Desse modo, “Por este tipo de estudo se pôde conhecer melhor aquilo que faz o homem um ser especial com sua capacidade de significar e significar-se...” (IDEM).

Neste sentido, a História Oral e a Análise de Discurso nos pareceram pertinentes para este trabalho, contudo, para entendermos esta última, precisamos trilhar um caminho que facilite sua compreensão. Neste aspecto, é que a AD entende uma situação não somente em seu contexto imediato (local, materialidade), mas sim e, sobretudo, em seu contexto amplo que é aquele que traz os efeitos de sentidos, elementos que derivam da forma como a nossa sociedade é produzida e produz.

De acordo com Orlandi (1999) o interdiscurso é o conjunto de formulações feitas e já esquecidas que determinam, de modo inconsciente, o que dizemos (IBIDEM, p.33). “A memória, por sua vez, tem suas características, quando pensada em relação ao discurso. E, nessa perspectiva, ela é tratada como interdiscurso...” (IBIDEM, p. 31). Neste sentido, compreendemos que embora os indivíduos na grande maioria das vezes repitam em seus diálogos, em suas linguagens, em seus discursos, determinadas posturas e concepções, isto acontece de forma involuntária, porque quem está atuando é o inconsciente. Segundo a referida autora, “O sujeito discursivo funciona pelo inconsciente e pela ideologia...” (IBIDEM, p.32).

Portanto, o saber discursivo é pré-construído, é o já-dito em outras circunstâncias, que vai passando adiante e mesmo que não se tenha a consciência se repete, em outras palavras, em outros contextos. Neste sentido, é objetivo do analista de discurso compreender, analisar o não-dito. Orlandi (1999) ainda nos afirma que “As palavras simples do nosso cotidiano já chegam até nós carregadas de sentidos que não sabemos como se constituíram e que, no entanto significam em nós e para nós...” (ORLANDI, 1999, p.20).

Estes significados vão se constituindo num processo de significação que é exteriorizado pela língua do sujeito. A Análise de Discurso proporciona a compreensão de como os objetos simbólicos produzem sentidos e trabalham seus limites, seus mecanismos, para além da interpretação, como parte destes processos de significação.

Acerca disto a mesma autora (1999) afirma que “Não há uma verdade oculta atrás do texto. Há gestos de interpretação que o constituem e que o analista, com seu dispositivo, deve ser capaz de compreender...” (IBIDEM, p.26), e ainda que “A compreensão procura a explicitação dos processos de significação presentes no texto e permite que possam escutar outros sentidos que ali estão, compreendendo como eles se constituem...”(IBIDEM, p.26).

Entender este contexto é ratificar a inserção nos argumentos da abordagem qualitativa e ainda entender que esta se inscreve nas correntes de busca de compreensão e funcionamento do pensamento. Estas correntes compreendem o “significado” na

produção do conhecimento como sendo o conceito central para a análise sociológica. De acordo com o que aponta Minayo (2010):

... a sociologia compreensiva propõe a subjetividade como fundante de sentido e defende-a como constitutiva do social e inerente ao entendimento objetivo. Essa corrente de pensamento não se preocupa com os processos de quantificação, mas de explicar os meandros das relações sociais consideradas essência e resultado da atividade humana criadora, afetiva e racional. O universo das investigações qualitativas é o cotidiano e as experiências do senso comum, interpretadas e re- interpretadas pelos sujeitos que a vivenciam (MINAYO, 2010, p.24).

Na grande maioria das vezes, os sujeitos não têm consciência destas interpretações e do quanto estão assujeitados. Não percebem o quanto são reprodutores de discursos preexistentes. É neste momento que o discurso traz para o pesquisador a noção discursiva onde não é o sujeito que impõe os efeitos de sentido, mas sim, são as formações discursivas presentes e materializadas nas falas. Carvalho (2010) afirma que “... todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si...” (CARVALHO apud AMOSSY, 2010, p.36).

Assim, o analista precisa estar bastante atento a todas as evidências linguísticas do sujeito, porque ele mesmo não tem o controle sobre seu discurso, embora tente, inconscientemente convencer quem o escuta e/ou ler que tem isso.

TERCEIRO CAPÍTULO

CUIDAR E EDUCAR CRIANÇAS: que história é esta?

Eu me criei ouvindo o golpe do martelo na poeira, ninguém melhor que mestre Osvaldo na madeira, com sua arte criou muito mais de dez Eu me criei matando a fome com tareco e mariola, fazendo versos dedilhados na viola por entre os becos do meu velho Vassoural (Tareco e Mariola, Petrúcio Amorim)

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