Diga-lhe que pelos sonhos da sua juventude Ele deve ter consideração, quando for homem
Benjamin (2002a)2
Ao perguntar o que significa, hoje, ser jovem, verifica- mos que a sociedade que responde ser o futuro incerto ou não saber como construí-lo está dizendo aos jovens não apenas que há pouco lugar para eles. Está respon- dendo a si mesma que tem pouca capacidade [...] de rejuvenescer-se, de escutar os que poderiam mudá-la
Canclini (2005 ) Canclini, nesta epígrafe, nos convida a reconhecer os jovens como atores so- ciais capazes de “rejuvenescer” a sociedade, transformando-a. Trata-se, desse
2 Citação utilizada por Benjamin (2002a, p. 24) no texto “Experiência”. De acordo com a nota do tradutor (N. T.), a citação em questão foi extraída do drama Don Carlos, de Friedrich Schiller (1759-1805). Os versos fazem parte de uma das cenas do drama, quando o marquês de Posa dirige-se à rainha de Espanha.
modo, da necessidade de colocar em xeque imagens que, produzidas tanto pela ciência quanto pelo senso comum, os englobam homogeneamente à ca- tegoria juventude, via de regra, antagônica às posturas supostamente madu- ras e experientes dos adultos.
Walter Benjamin (2002a), no ensaio “Experiência”, escrito em 1913, quando, ainda jovem, critica o antagonismo entre juventude e experiência. Este pequeno ensaio já contém a crítica presente nos ensaios posteriores de Benjamin, escritos nos anos 1930, à concepção evolutiva de história.3 Nele, o autor já se coloca contra uma concepção de tempo linear, representado pela progressão “inexperiência do jovem” e “experiência do adulto”, criticando um conceito de experiência em que a tradição, ao fixar a experiência do pas- sado como sabedoria, desvaloriza qualquer visão de mundo que a juventude possa fundar a partir de si própria. Desse modo, Benjamin se recusa a conce- ber a juventude como uma simples etapa de transição na qual o indivíduo é treinado para assumir a vida que o aguarda sob o signo da maturidade. Nessa recusa, vislumbra-se a crítica radical de Benjamin à visão de história como progresso, que também está presente no ensaio “A vida dos estudantes”, de 1915, que assim se inicia:
Há uma concepção de História que, confiando na infinitude do tempo, distingue apenas o ritmo dos homens e das épocas que rápida ou lenta- mente avançam pela via do progresso. A isso corresponde a ausência de nexo, a falta de precisão e de rigor na exigência que ela [a História] faz ao presente. (BENJAMIN, 2002b, p. 31)
Poderíamos, nesse sentido, dizer que, na grande temporalidade, cada ju- ventude atende a essa exigência que a história faz ao presente, exigência que está relacionada à possibilidade de contemplar os anseios das gerações passadas que não se concretizaram. Caberia, então, dizer que, na perspectiva benjaminiana, é falacioso pensar antagonicamente juventude e maturidade porque a ação transformadora da história supõe a conjugação dos anseios das diferentes gerações. Ou seja, como sugere a Tese II do ensaio “Sobre o conceito de história”, último texto escrito por Benjamin em 1940, não é
3 Trata-se dos ensaios “Experiência e pobreza”, “O narrador: considerações sobre a obra de Ni- colai Leskov”, “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica” e “Sobre o conceito de história”, todos publicados em BENJAMIN, Walter. Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1985. (Obras escolhidas, 1).
possível pensar a transformação do presente se este presente não for visado pelo passado. (BENJAMIN, 1985, p. 222-223)
Desde seus primeiros escritos, Benjamin se opõe à ideia da superioridade da geração mais velha sobre a mais nova, ideia que tem afinidade com os ar- gumentos de autores que vêm contemporaneamente se dedicando a estudar a juventude, colocando em xeque a concepção de transitoriedade, própria da tendência pela qual
A juventude é tomada como um conjunto social cujo principal atributo é o de ser constituído por indivíduos pertencentes a uma dada ‘fase da vida’, prevalecendo a busca dos aspectos mais uniformes e homogêneos que ca- racterizam essa fase da vida – aspectos que fariam parte de uma ‘cultura juvenil’, específica, portanto, de uma geração definida em termos etários. (PAIS, 1990, p. 140)
Será que a ideia de juventude definida em termos etários, ou como etapa transitória da vida, permitiria reconhecer o protagonismo e a pluralidade das experiências juvenis, rompendo com a ideia do jovem como um “vir a ser”? Dayrell (2003, p. 41) ressalta que “tende-se a negar o presente vivido do jovem como espaço válido de formação”, deixando-se de legitimar as formas próprias de ser e de estar no mundo das juventudes contemporâneas. Carra- no (2000) aponta ainda para a falta de uma identidade juvenil quando as pró- prias investigações situam os jovens entre a infância e a vida adulta, numa transição que dificulta compreendê-los em suas demandas socioculturais.
Para Carrano (2000), boa parte das pesquisas sobre juventude produzidas a partir de meados do século XX trouxe abordagens parciais frente à com- plexidade social da questão, concentrando-se em pressupostos biológicos, sociais ou psicológicos. O autor aponta que a escassa perspectiva cultural nas investigações corroborou para a ideia de juventude como uma ponte entre a infância e a idade adulta, sem atribuir-lhe importância em si mesma:
Este não-lugar sociológico de transição nos afasta sensivelmente daquilo que o jovem experimenta como sendo a sua verdadeira identidade, que não se constitui isoladamente mas que refaz os seus sentidos nos diver- sos relacionamentos que se estabelecem com os adultos e os conjuntos de ações das redes culturais da juventude. (CARRANO, 2000, p. 14)
Dayrell (2003) mostra que as imagens produzidas a respeito da juventude interferem em nossa maneira de compreender os jovens, gerando modelos
socialmente construídos e, por isso, precisam ser questionadas. A primeira imagem a ser questionada diz respeito, como já mencionado, à transitorieda- de que cristaliza a ideia do “vir a ser”, sugerindo que as ações do presente têm sentido somente como construção de futuro, como passagem para o mundo adulto. Essa ideia está relacionada a uma noção de negatividade – àquilo que o jovem ainda não é –, e é uma visão ainda muito presente nas instituições que se propõem à tarefa de preparar o jovem para “vir a ser” o adulto do futu- ro, deixando, muitas vezes, o presente desse jovem – com todas suas questões existenciais, sociais, econômicas, políticas, culturais – em segundo plano.
Outros dois tipos de imagens são também criticadas pelo autor. Aquelas que apresentam a juventude como momento de crise, de conflitos íntimos e de afastamento da família e aquelas que apresentam visão romântica que liga juventude a um tempo de liberdade e prazer, um tempo de experimenta- ções, marcado pelo hedonismo e pela irresponsabilidade. Ele acrescenta que, recentemente, emergiu uma tendência que reduz a percepção da juventude ao campo da cultura, “como se ele só expressasse a sua condição juvenil nos finais de semana ou quando envolvido em atividades culturais”. (DAYRELL, 2003, p. 41) Ao permitir que se perceba a diversidade que se inscreve nos modos de ser jovem, essas ideias nos ajudam a superar os mitos, os estigmas e os preconceitos que estão implícitos à ideia de juventude.
No entanto, não é essa a compreensão que a juventude desperta, sendo ainda vista, sob a perspectiva geracional, como um problema social, inclu- sive no âmbito familiar e escolar. (PAIS, 1990) Abramo (1997) aponta que questões sociais como a violência, o uso de drogas, a prostituição e as doen- ças sexualmente transmissíveis são muitas vezes associadas aos jovens; ques- tões estas que, levantadas sobre eles (pela ótica dos adultos), dificilmente são enunciadas por eles. Diante dessa visão que articula a juventude a tantos problemas, não é de admirar a expressiva reunião de jovens em torno de pro- testos que, ao contrário de serem isentos de objetividade e foco, articulam-se objetivamente em torno da exigência de verem cumpridos seus direitos “de consumidor ou dos que se centram em questões relacionadas com o género, a sexualidade, os estilos de vida, a qualidade da mesma”. (PAIS, 2005, p. 55) Duvidando que os problemas sociais seriam inerentes às juventudes con- temporâneas, Pais (1990, p. 144, grifo do autor) pergunta: “Mas sentirão os jovens estes problemas como os seus problemas?”. Neste sentido, como rom- per com a ideia de a juventude ser vista ainda como um problema social? O que fazer para que família, escola, igreja, partidos políticos entendam que
encarar os jovens como problema social, desconsiderando suas formas atuais de protagonismo, acaba por relacioná-los “ao tema da cidadania enquanto privação e mote de denúncia, e nunca – ou quase nunca – como sujeitos capazes de participar dos processos de definição, invenção e negociação de direitos?” (ABRAMO, 1997, p. 28)
Por que isso acontece? Porque a ideia de cidadania, relacionada original- mente com a Revolução Francesa aos direitos adultocêntricos universais, é incompatível “com direitos de segmentos de população que, como os jovens, abraçam modos de vida que reclamam pluralização, diferença, identidade, individualidade?” (PAIS, 2005, p. 53)
Estabelecendo um interessante jogo entre os termos “cara”, “careta” e “coroa”, Pais comenta que os brasileiros, ao usarem o primeiro dos termos, referem-se a “uma individualidade, com sua inerente subjetividade, sua cara própria”, dotando-a de uma positividade – “cara legal”. “Careta”, por sua vez, diz respeito à pessoa “cheia de condicionamentos e preconceitos, intérprete de valores ultrapassados, fora de moda”. quanto à “coroa” – a outra face da moeda – “designa uma pessoa de idade avançada e ideias retrógradas”. (PAIS, 2005, p. 49)
Contra o regime ‘careta’ de estar na vida (dominado pelos ‘coroas’) há jo- vens que reivindicam novas experiências de vida, implicando ser ‘desca- rado’ – isto é, actuar com atrevimento, com imprudência até, ‘metendo’ ou ‘dando cara’, ‘escancaradamente’. O lado ‘coroa’ da política não lhes interessa. (PAIS, 2005, p. 54)
Castro e Vasconcellos (2007), discutindo os dados da pesquisa “Juventu- de, Juventudes: o que une e o que separa”, realizada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) no ano de 2004, relativos ao tema Juventude e Participação, analisam que a maioria dos jovens entrevistados não necessariamente associa participação ao en- gajamento em instituições político-partidárias, o lado “coroa” da política, segundo Pais. O posicionamento pessimista ao regime democrático da alta proporção de jovens que se manifestaram favoráveis ao regime autoritário na referida pesquisa deveria, segundo os autores, ser interpretado como uma critica à percepção de democracia que lhes chega no dia a dia. (CASTRO; VASCONCELLOS, 2007, p. 99)
Se tais informações sugerem uma demanda reprimida por participação, já que democracia e participação tem nexos entre si, é importante, porém, notar que existe de fato uma forte descrença entre os jovens em relação às instituições políticas tradicionais. Sobre a confiança nas instituições políticas, verifica-se que 84,6% dos jovens declararam não confiar nos partidos políticos; 76,7% afirmaram não confiar no Governo; 82%, não confiar no Congresso Nacional e 79,9% não confiar nas Assembleias Le- gislativas e Câmaras de Vereadores. (CASTRO; VASCONCELLOS, 2007, p. 99)
Essa descrença seria motivadora da recusa dos jovens por formas de par- ticipação que interpelam o Estado, levando-os a seduzirem-se por políticas de identidades, como as de reconhecimento dos direitos das mulheres, dos negros, dos homossexuais, pela ecologia, por uma estética e arte libertária (CASTRO; VASCONCELLOS, 2007, p. 99), antagônicas às formas de parti- cipação partidárias.
Diante das questões aqui apresentadas, é justo considerar que, por não ser meramente uma etapa transitória do desenvolvimento humano, a juven- tude tem como uma de suas características o protagonismo político. Prota- gonismo que se manifesta relacionalmente à sua dimensão histórica que en- globa aspectos geracionais, sociais, culturais, étnicos, religiosos, de gênero, de orientação sexual, o que supõe sua denominação no plural, “juventudes”, como sugerem Pais (1990), Carrano (2000) e Dayrell (2003). Nesse sentido, seria indevido considerar que, contemporaneamente, juventude e partici- pação política são categorias excludentes. Os jovens de hoje fazem sim po- lítica, de modo diverso daqueles de gerações anteriores, bem como o fazem diversamente em função de seus modos diversos de ser. É o que pretendemos mostrar a seguir: o modo de fazer política de um grupo de jovens que exer- cem sua militância no Facebook por intermédio da conexão e da liberação da palavra.