Por meio da narrativa tecida por Carolina Maria de Jesus – mulher, negra, migrante, mãe, solteira, catadora de lixo e escrito- ra por opção (dentre outros qualificadores possíveis) –, propõe-se uma reflexão sobre outras semânticas de liberdade que a perspec- tiva interseccional assinala, para além dos parâmetros conceituais dos feminismos hegemônicos.
A condição transgressora de sua vida e de seus escritos, a despeito da adesão a uma ou outra norma social, desafia o monolo- gismo do racismo, do patriarcado e do colonialismo.
Dadas as condições de vida, existência, produção e reprodu- ção de seus textos, defendo que suas representações – como mu- lher, cidadã subalternizada, mãe, escritora – funcionam como re- tórica e como persuasão. Carolina se debate de dentro contra um
mundo que tenta encarcerá-la de fora: pela raça, pelo gênero, pela classe. Desse modo, ela busca compreendê-lo e traduzi-lo com os recursos engendrados por sua existência menosprezada.
O “deslocamento” como conceito e como “metáfora” cons- tituirá o pano de fundo de minha discussão. Nesse sentido, enfa- tizando a perspectiva diaspórica que os deslocamentos evocam, intentarei romper com as referências epistemológicas que operam por meio de discursos estruturados em dicotomias e no fetiche das origens e essências.
A centralidade do corpo para os estudos sobre cultura é evocada por uma variedade de vertentes das Ciências Humanas e Sociais (Fanon, Mauss, Bordieu, Bhabha, Lorde5 são apenas algumas referências), mas o que aqui me diz respeito é o corpo feminino e racializado, e, sendo assim, minhas indagações consideram a subje- tividade como intrínseca à corporeidade.
Assim, ao perscrutar a sensibilidade de Carolina, relativa às suas percepções sobre as mais variadas experiências (de precon- ceito, racismo, estigmatização e intolerância), tal perspectiva torna- -se fundamental.
Ora, Carolina reúne em si as condições que investem seu re- lato/testemunho de um pioneirismo naquilo que hoje convencio- nou-se designar como feminismos contra-hegemônicos, tendo em vista que aquilo que de sua vida ficou registrado (gravado, entalha- do, escrito, inscrito) revela um discurso pioneiramente emancipa- tório e perturbador da ordem e do status quo.
A postura contestadora e rebelde de Carolina contrariou e superou as expectativas que a situação de mulher negra, pobre, sol- teira e favelada lhe impunha e lhe imputava. E aqui uso o termo
emancipação como denotativo de um exercício sempre crescente
5 Refiro-me especificamente a Franz Fanon, Marcel Mauss, Pierre Bourdieu,
de expansão de fronteiras que se insurgem em relação às relações de poder instauradas.
Carolina Maria de Jesus, mineira de Sacramento, vive, hoje, postumamente, seu apogeu. No ano em que comemoraria 100 anos (2014) foi homenageada com documentário sobre sua vida, com inúmeras palestras e seminários. Enfim, a mulher negra, pobre, mi- grante que – por ato deliberado – decidiu não ser empregada do- méstica, preferindo ser catadora de lixo, moradora do Canindé, em época em que ali se instalou uma das primeiras favelas da cidade de São Paulo, eternizou-se pela “escrita”.
A vida e a obra literária de Carolina – semialfabetizada, mas nem por isso menos expressiva em sua literatura – tornam-se re- levantes porque, ao mesmo tempo em que anunciam os aspectos desumanizantes da existência que compartilhava com outros na favela do Canindé em São Paulo nos idos dos anos 60, é também prenhe de raiva, indignação e ousadia.
Em Quarto de despejo, o diário de Carolina se inicia em 15 de julho de 1955, com o relato de que, no aniversário da filha Vera Eunice (caçula dos três filhos que Carolina teve, cada um de um ho- mem branco diferente, de acordo com seus relatos), sentia-se frus- trada por não poder dar-lhe um par de sapatos, contentando-se em dar-lhe um par remendado que encontrou no lixo. Daí em diante sua escrita intimista e errática revela os incômodos de uma mulher que analisa e faz escolhas diante das imposições que a cultura ma- chista, patriarcal e racista lhe impõe:
[...] Sei dominar meus impulsos. Tenho apenas dois anos de grupo escolar, mas procurei formar meu caráter. A única coisa que não existe na favela é solidariedade.
[...] Os meus filhos não são sustentados com pão de igreja. Eu enfrento qualquer espécie de trabalho para mantê-los.
E, elas6, tem que mendigar e ainda apanhar. Parece tambor.
A noite enquanto elas pede socorro eu tranquilamente no meu barraco ouço valsas vienenses. Enquanto os esposos quebra as tabuas do barracão eu e meus filhos dormimos sossegados. Não invejo as mulheres casadas da favela que levam vida de escravas indianas (Jesus, 2000, p.13-14).
Estão inscritos em sua narrativa o grito, a solidão e o in- conformismo de uma mulher negra que não se deixou submeter. Carolina grita, esperneia, mas não lamenta. A perspectiva intersec- cional está ali, em seus escritos, não exatamente em uma denúncia que faça menção à sua condição de mulher negra, embora ali seja revelada a subjetividade produzida pelas discriminações e pelos preconceitos pautados na cor, na classe e no gênero.
Ao abordar a questão do deslocamento, é praticamente im- possível não evocar Fanon e, por extensão, Homi Bhabha e sua cor- relata angústia para identificar e traduzir as sensações que acome- tem os seres fendidos – de fora para dentro. As ambiguidades nos fendem a todos, mas a alguns é dado o beneplácito da integridade, da pureza e da legitimidade.
Nesse sentido, a obra literária de Carolina, embora como postule José Carlos Sebe Bom Meihy (1998), não traga explicita- mente nenhuma bandeira propriamente feminista ou antirracista, revela a sua condição interseccional por meio de seu corpo – re- correntemente exposto em sua alteridade –, de expressões, olha- res e palavras que enfatizam o estranhamento e a abjeção produ- zidos alhures por não corresponder às expectativas de classe, raça ou gênero.
Seu vizinho, Seu João, por exemplo, no dia 23 de julho de
6 Aqui, Carolina Maria de Jesus faz alusão às suas vizinhas, mulheres casadas
(ou que habitavam com companheiros homens) e que, regularmente, apanhavam de seus “parceiros”.
1955 (de acordo com seu diário), bate à porta para lhe pedir um favor e, ao vê-la escrevendo, pergunta-lhe do que se trata. Ela diz: – “Meu diário”. E ele, do alto de sua visão colonizada, interpela com a maior desfaçatez:
– “Nunca vi uma preta gostar tanto de livros como você”. Na página seguinte de seu diário ela relata:
Sentei ao sol para escrever. A filha da Sílvia, uma menina de seis anos, passava e dizia:
– Está escrevendo, negra fidida! Carolina reflete: A mãe ouvia e não repreendia. São as mães que instigam (Jesus, 2000).
Negra feia, negra fedida, qual deveria ser o seu lugar? Carolina explica e justifica sua moralidade acerca dos papéis con- dizentes a homens, mulheres, idosos, crianças, ricos e pobres, sua compreensão acerca da desigualdade, das injustiças e, assim, revela as incongruências do mundo em que vive.
23 de junho. O açougueiro explicou-me que o filé é mais caro. Pensei na desventura da vaca, a escrava do homem. [...] Enfim, o mundo é como o branco quer. Eu não sou branca, e não tenho nada com estas desorganizações (Jesus, 2000, p.63).
Dado que a condição do subalterno seria o silêncio e a invi- sibilidade, por meio de sua escrita Carolina fala, Carolina grita e se faz presente e visível em sua abjeção.
Esse corpo, tornado abjeto, impuro, selvagem, primitivo, deslocado – tal qual a escrita que lhe dá suporte existencial e sub-
jetivo –, as palavras grafadas de forma incorreta, a forma fora da norma, a inconveniência de ser negra, pobre e ainda assim desejar pensar o mundo e suas próprias vivências e experiências por meio da palavra escrita nos levam à categoria da colonialidade de gênero e a seu consequente corolário, a decolonialidade de gênero propos- ta por Maria Lugones (1998).
Dentre outras possibilidades, o conceito postula articular a diferença por intermédio de um outro lócus que possa, de algum modo, implodir os essencialismos.
Ao problematizar as dicotomias hierárquicas (preto/branco, homem/mulher, macho/fêmea) legadas pela racionalidade moder- na, cartesiana e capitalista, assinala outras possibilidades para o entendimento das diferenças e, nesse sentido, para a superação das desigualdades assentadas nessa compreensão dos fenômenos.
A distinção entre comportamentos, coisas e lugares que são de homem, comportamentos, coisas e lugares que são de mulher, ou de pretos ou de brancos, enfim, foi artificialmente construída por meio de uma estrutura de poder que é necessário conhecer para questionar. Uma estrutura que deve ser problematizada porque nada tem de natural. Precisamos entender o fato de que, se a con- dição de gênero parece estar condicionada pelos papéis sexuais e sexuados, isto não é absoluto nem universal.
Sob esse ponto de vista, várias maneiras de estar no mundo, tanto sexuais quanto de gênero, serão desautorizadas e tachadas como anormais, selvagens, primitivas; adjetivos que desumanizam seres, processos e cosmovisões.
Por meio do afeto, das estruturas de sentimento e da sensi- bilidade, Carolina se coloca como sujeito de um processo que traz à tona subjetividades que, por sua vez, promovem o questionamento dos discursos e práticas calcados nas ideias de pureza, integridade e objetividade.