O livro informativo, assim como qualquer livro que conte- nha ilustração, apresenta inúmeras possibilidades de técnicas de representação, que segundo Van der Linden (2011), vem se diversificando desde 1990. As técnicas descritas pela autora foram sistematizadas com o intuito de exemplificar algumas possibilidades e elenca-as, desde as mais utilizadas até as que são pouco frequentes como a presença do traço simples, que geralmente é feita por meio de lápis, pena ou carvão, ela requer bastante virtuosidade e foi bastante utilizada pela Gabrielle Vincent em livros como Ernest e Celestine: O Nascimento de Célestine (2012) (Figura 14).
Há também o retorno do lápis de cor, que às vezes é utili- zado no traçado ou até mesmo para colorir de modo grosseiro, como se observa em La Visite de Petite Mort (2005) e Veo Bichos (2015) (Figuras 15 e 16).
Figura 14: Livro ilustrado com traço simples. Ernest e Célestine: O Nasci-
mento de Célestine (2012).
Tintas também são bem difundidas em trabalhos que são geralmente destinados para crianças pequenas. Tanto são usadas tintas que são diluídas em água, como tinta acrílica (Fig. 17), aquarela e guache, como tinta a óleo (Fig. 18). Mas essa última é mais difícil de secar, sendo menos utilizada do que as outras, que podem ser manuseadas de várias maneiras, como texturas lisas ou pinceladas sucessivas.
Figura 15: Livro ilustrado por meio de lápis de cor. La Visite de Petite Mort (2005).
Fonte: Pinterest.com
Figura 16: Veo Bichos (2015), exemplo de livro ilustrado com lápis de cor. Fonte: domestika.org
Figura 17: La route du vent, livro ilustra- do com pintura acrílica (1997). Fonte: Para ler o livro ilustrado (2011).
Figura 18: Bestiaire, livro ilustrado com pintura a óleo (2002).
Também são utilizados pastéis oleosos, que dão um efeito espesso e rugoso, apreciado principalmente por jovens ilustra- dores franceses; colagem e assemblage, que se trata de uma composição tridimensional (Fig. 19).
Uma das mais propagadas atualmente é a mistura de um traçado, que é feito geralmente por lápis, pena, caneta, nanquim, com uma cor, normalmente aquarela ou tinta.
E outro recurso bastante comum, que se difundiu ainda mais depois do ano 2000 é o uso dessa técnica sendo mesclada também com colagem (Fig. 20).
Contudo, também há as que possuem um espaço menor no livro infantil, como a utilização das imagens fotográfi cas, princi- palmente em obras não narrativas.
Com a disseminação do uso de softwares de desenho digital e o aperfeiçoamento deles, também foram desenvolvidas novas técnicas para as ilustrações por meio do computador, que se tornou um instrumento muitas vezes essencial para pessoas que o dominam e desenvolveram um estilo próprio (Fig. 21). Entre- tanto, face às novas tecnologias digitais, muitos ilustradores apreciam o retorno às técnicas mais antigas, que são também mais físicas, como a gravura.
Figuras 19 e 20: Au Boulot !
(Ao trabalho!, 1997), livro ilustrado pela técnica de assemblage e A ogra aos
prantos (1996), ilustrado com técnica
mista.
Existe inúmeras possibilidades de representação uma imagem, que será melhor explicada na segunda fase deste trabalho. Assim, considera-se que independente da técnica utilizada, é essencial que a linguagem aplicada estabeleça um diálogo com o conteúdo, tanto a partir de suas cores, quanto pelo estilo de traço, enquadramento e dessa forma, criem uma mensagem mais forte, incentivadora da leitura e estimuladora da educação visual.
Figura 21: Bienvenida, Lupe (2017) exemplo de livro em desenho digital. Fonte: evapalomar.com/Bienvenida- -Lupe
Após a reunião de informações apresentadas anteriormente, teve-se o que possivelmente era necessário inicialmente para o projeto de um novo livro informativo ilustrado. Decerto, a funda- mentação teórica não se concluiu, ela persistiu na medida em que as decisões de projeto foram tomadas, buscando ampliar o conhecimento de cada item e técnica.
A construção das informações foi feita de modo visual narra- tivo, que de acordo com Garralón (2015), trata-se de uma forma de narrar não ficcionalizada, com a escrita organizada como uma história, seguindo uma ordem cronológica e geralmente com função emotiva. O livro foi planejado a partir da premissa que a imagem predominaria sobre o texto e este seria guia e ocasionalmente se dirigiria ao leitor a fim de fazê-lo refletir sobre o tema.
Apesar do grande número de obras direcionadas às crian- ças sobre animais, o que pode-se expectar para o futuro é um projeto que busque trazer novos conhecimentos a esse público sobre gatos, de modo que esse conteúdo possa exercer alguma influência na forma em que estes são tratados e, possivel- mente, agir como incentivador da prática de adoção e criação responsável.
4.1 Tema
A convivência entre animais e humanos acontece há cerca de 4 mil a 10 mil anos, continuamente trazendo benefícios em âmbitos psicológicos, sociais e fisiológicos. Porém, nem sempre a criação desses indivíduos se dá de forma adequada, podendo ocasionar maus tratos, transmissões de doenças, aciden- tes, agressões e contaminação ambiental (ARMSTRONG; BOTZLER, 2008). Segundo Dias (2001), durante todo esse tempo e até hoje, os homens sempre tiveram, com relação aos animais, a ideia de domínio e esse costume geralmente os faz agir com arbitrariedade e irresponsabilidade com os animais os quais se relacionam.
Ainda que a guarda de animais seja uma tradição no Brasil, que em 2003 já possuía 59% da população com cão ou gato como companhia (FARACO; SEMINOTTI, 2003), existem, atual- mente cerca de 10 milhões de gatos abandonados (ANDA, 2013). Esse número continua aumentando graças a diversos fatores como a rápida reprodução, as proles numerosas, a falta de orientação das pessoas que convivem ou almejam conviver com um cão ou gato, o abandono de animais, entre outros.
Esse aumento também pode ser consequência da
4. PROJETO LIVRO INFORMATIVO
O ato do abandono, além de ser cruel, segundo Paranhos et al. (1996), preocupa por pois não é um problema de fácil solu- ção, uma vez que as medidas tomadas para diminuí-lo são inefi- cientes frente ao crescimento populacional. Com isso, aumen- tam-se também os riscos para a população em termos de saúde pública, pois além de agressões, poluição ambiental, existem cerca de 1.415 organismos patogênicos ao homem que foram identificados e deles, 868 (61%) são determinantes de zoonoses, doenças ou infecções que podem ter transmitidas entre animais vertebrados e seres humanos (PLAUT, 1996 apud LIMA; LUNA, 2012).
Como tentativa de prevenção do abandono e superpopula- ção, existem recomendações oriundas do 8º Relatório do Comitê de Especialistas em Raiva da Organização Mundial da Saúde (OMS), que seriam:
Essas recomendações, quando seguidas por meio de inicia- tivas governamentais ou não, causam efeitos importantes que podem ser vistos em diferentes lugares do mundo. Além disso, promovem a consciência para a guarda responsável e o bem estar animal. Como exemplo dessas iniciativas, países da América Latina foram reunidos em 2003 no Rio de Janeiro para a realização da “Primeira Reunião Latino-Americana de Espe- cialistas em Posse Responsável de Animais de Companhia e Controle de Populações Caninas” (SOUZA, 2003 apud SOUZA 2014, p.110-132), promovida pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS), OMS e a World Society for Protection of Animals, no qual países com boas práticas propunham novas políticas públicas e mostravam resoluções contrárias às que são atualmente utilizadas no Brasil, a saber:
a) controle da população através da esterilização; b) promoção de uma alta cobertura vacinal; c) incentivo uma educação ambiental voltada para a guarda responsável; d) elaboração e efetiva implemen- tação de legislação específica; e) controle do comércio de animais; f) identificação e registro dos animais; g) recolhimento seletivo dos animais em situação de rua. (SANTANA; OLIVEIRA, 2006, p. 9)
1º) Captura e eliminação não é eficiente (do ponto de vista técnico, ético e econômico) e reforça a posse sem responsabilidade; 2º) Priori- dade de implantação de programas educativos que levem os proprie-
Além dessas recomendações e iniciativas desses disposi- tivos de Direito Internacional, existem ainda grandes ONGs em lugares da Europa e Estados Unidos como a Sociedade Britâ- nica pela Prevenção da Crueldade contra Animais (RSPCA) e a Sociedade Americana pela Prevenção da Crueldade contra Animais (ASPCA), que a partir de patrocínios doados por mais de 1 milhão de adeptos conseguem implementar campanhas e ainda possui autoridade legal para investigar e prender crimino- sos que atuam contra animais.
Outras instituições possuem o fim somente educativo, como a World Society for the Protection of Animals (WSPA) e a Asso- ciação Humanitária de Proteção e Bem-estar Animal (ARCA Brasil), já conseguem tornar obrigatório o uso de chips para cães e gatos, como é o caso de Portugal (ANDA – Agência de Notícias de Direitos Animais, 2011).
As recomendações encontradas nessas organizações são o ponto de partida para a construção do conteúdo do livro infor- mativo proposto. Acredita-se que tais as discussões são uma maneira de começarmos a implantar em Natal, e posterior- mente nas diversas regiões do Brasil, a conscientização sobre os gatos abandonados na sociedade. Outro ponto a ser discu- tido na publicação são as informações sobre castração de gatos, pois, de acordo com a OMS, a educação das pessoas para a guarda responsável, aliada ao controle de reprodução por méto- dos cirúrgicos são as duas estratégias que são mais eficazes na gestão da população de animais nas ruas.