Não é possível afirmar que ficou evidente algum tipo de metodologia completamente delimitada desenvolvida pelas iniciativas. Isso passa a ser compreensível se levarmos em consideração que a maior parte delas é iniciante na prática do crowdfunding, conforme mostrado anteriormente. O Diário do Centro do Mundo e a Agência Pública, entretanto, já realizam ações de financiamento coletivo há mais tempo e com foco em arrecadar quantias maiores de dinheiro. A Pública pareceu ser a com maior quantidade de conhecimento minimamente sistematizado sobre os processos, mas também mesmo assim readaptando bastante as práticas ao longo do tempo. Uma frase de Kiko Nogueira, ao refletir sobre os motivos que fizeram algumas das campanhas do DCM não atingirem as metas, pode resumir o sentimento desta pesquisa em relação ao conteúdo absorvido na análise sobre o estabelecimento de metodologias:
“É meio um lance de você sacar o que as pessoas estão querendo colaborar e às vezes você erra. É complicado, não é uma ciência exata. Não há mecanismo da Internet que te dê exatamente o que as pessoas vão querer pagar para ver, sabe.” (KIKO NOGUEIRA, 2017, informação oral) Alguns elementos, entretanto, foram importantes no decorrer dos processos de financiamento coletivo e durante a criação dos produtos editoriais em certos projetos. O primeiro deles é o da quebra de hierarquia entre o jornalista e o público, percebido como uma tendência por Anderson et al. (2013), que se manteve presente principalmente nos relatos de Marina da Agência Pública. De acordo com ela, esse era um objetivo do projeto Reportagem Pública e faz parte do processo de mostrar para o público que ele também pode compreender como funciona a produção.
“Acho que tem total uma quebra de hierarquias. E é isso o que a gente quer. [...] A gente entende – ou pelo menos eu entendo – que é assim que você convence as pessoas de que você merece ser financiado por elas. No projeto de 2015, nosso mote era “Ocupe a Pública” e não era à toa. A gente queria fazer as pessoas entenderem o quanto custa fazer uma reportagem da Pública, não só em termos de dinheiro, mas de tempo, de gastar sola de sapato, de ligar para trinta fontes, de não conseguir entrevista, meio por aí assim... E a gente acha que isso também convence a pessoa a financiar o projeto.” (MARINA DIAS, 2017, informação oral)
Houve também uma preocupação grande em acompanhar o engajamento do público ao longo do processo e descobrir maneiras de continuamente alimentar a comunidade de forma a estimular que ela participe. No caso da Pública, esse foi um fator que definiu a mudança do sistema de produção das reportagens de bolsas para pautas desenvolvidas pelos próprios repórteres da casa.
“Nessa terceira edição, optamos por fazer menos reportagens com mais dinheiro, também pelo fato de que a gente percebeu que, no último, nós fizemos 14 reportagens, então eram 14 meses, 14 votações, e a gente percebeu que o engajamento do público estava diminuindo ao longo do tempo. Então, dessa vez, optamos por fazer menos reportagens e ter um público mais engajado.” (MARINA DIAS, 2017, informação oral)
O participação do público foi constantemente acompanhada por todos os projetos. No caso da Agência Pública, a prática serve para entender o que está sendo bem-sucedido e o que não está.
“A gente começou as votações em março e foram até julho de 2016, se não me engano. Em janeiro, a gente tinha 200 votos em uma votação de 900 pessoas que doaram e a gente... Não, né, a gente quer que as pessoas participem. Aí nós lançamos no grupo do Facebook uma DR: “pessoal, o que está acontecendo? Por que vocês não estão votando”, aí as pessoas
falaram que muitas vezes ficavam indecisas. Sim, claro, tinha um problema do modo que se operacionalizava a votação, a gente mandava um e-mail e cada vez tinha uma senha diferente. Tinha essa questão técnica, mas tinha várias pessoas que [diziam] “cara, eu não consigo escolher as pautas, porque todas são muito boas.” (MARINA DIAS, 2017, informação oral) De acordo com Marina, esse acompanhamento constante colabora para que se gere uma pessoalidade maior, fazendo com que as pessoas conheçam a equipe e possam fazer críticas, sugestões ou elogios diretamente a eles. Ela conta que os workshops que foram realizados como recompensas pelas doações se tornaram oportunidades para esse contato.
“Teve um cara que eu achei muito bacana, que ele foi em cinco workshops e cada um era um repórter falando de uma matéria específica. [...] Ele falava “aqui eu senti falta de ter uma explicação dessas siglas”. Era uma matéria sobre Amazônia, enfim, que tem as suas particularidades. Então ele falou “acho que seria interessante não usar tantas siglas, contextualizar mais algumas coisas” e tal. E é legal a gente ouvir isso.” (DIAS, 2017, informação oral)
Marina relata que em uma certa ocasião a repórter Andrea Dip estava produzindo uma matéria sobre a atuação de pastores evangélicos no Congresso Nacional, mas que as principais fontes (como Marco Feliciano e Eduardo Cunha) não aceitaram falar. Um dos apoiadores que foram ao workshop disse que tinha uma amiga que estava estudando o tema academicamente. Ela serviu como fonte e a conversa foi tão rica que decidiram publicar uma entrevista só com ela. Algo semelhante ocorreu com uma reportagem sobre a despoluição do Rio Tietê, em que um apoiador comentou que, apesar de a matéria não ter sido a mais votada do mês, um parente trabalhava na entidade responsável pelo tratamento de esgotos de São Paulo e sabia tudo sobre o tema. Neste caso, a fonte também foi ouvida e contribuiu para deixar a matéria mais rica.
“Acaba sendo uma forma de a gente criar uma comunidade, mesmo, em torno da Pública, e uma comunidade que está ali, que acompanha o que a gente faz, que opina. [...] Uma das recompensas, enfim, eu diria que a principal, é a possibilidade das pessoas escolherem participar desse processo de produção e de publicação das reportagens. Então elas votam e, ao mesmo tempo que elas votam, elas participam de um grupo no Facebook em que elas podem conversar com os repórteres. Às vezes, o repórter foi fazer uma entrevista, sei lá, foi fazer uma matéria na Amazônia, vai lá, posta uma foto e fala “hoje entrevistamos tal pessoa”, “a matéria está ficando bacana”, “encontrei tal dificuldade”, e as pessoas podem acompanhar esse processo. E aí quando a gente publica a matéria, eles
são convidados a compartilhar, a comentar e a falar o que eles acharam.” (MARINA DIAS, 2017, informação oral)
O limite da participação do público não foi um consenso em todas as iniciativas. No caso de Carla, o Contributoria era a plataforma que mais abria possibilidades de participação no conteúdo do texto em si, ao possibilitar que se submetesse rascunhos e que o público pudesse opinar inclusive diretamente no texto. No caso de Carla, não foram submetidos rascunhos, apenas as propostas iniciais e as versões finais. O contato maior foi com os editores do The Guardian, que faziam sugestões em relação ao formato do texto. A jornalista infere que um dos motivos pode ter sido o fato de que as matérias eram relativas a outros países e bastante complexas. Ela também convida à reflexão sobre o quanto a participação do público pode, de fato, ser útil em alguns casos:
“Não sei, talvez por ser um tema tão internacional, fico pensando no que eles poderiam contribuir sem conhecer nada sobre o tema. Se eu que sou brasileira tive que pesquisar e investigar um monte... [...] A gente está falando de pessoas reais, não um personagem de ficção. Pessoas que tiveram familiares assassinados dos dois lados do conflito. É uma história muito séria. Por exemplo, eu entrevistei a filha de um indígena que foi morto com um tiro na cabeça, e ela me mostrou onde o pai dela está enterrado. Quando a gente faz jornalismo, a gente está falando de histórias reais e verídicas, é um assunto muito sério, por isso que a gente estudou, fez faculdade, por isso que a gente tenta entender o máximo possível das histórias, fazer as entrevistas, escrever sobre o tema. Então [é necessário refletir sobre] o quanto tu levas em consideração essas ideias, opiniões e sugestões...” (CARLA RUAS, 2017, informação oral)
No Diário do Centro do Mundo também há um esforço para levar em consideração a participação dos leitores, mas o contato se dá de uma forma menos pessoal e mais baseada nas publicações feitas nas caixas de comentários das matérias. Kiko reconhece a dificuldade de atender um número grande de pessoas, caso queiram fazer sugestões.
“As sugestões são sempre bem-vindas. É uma coisa colaborativa. A gente atende na medida do possível, claro. Também não dá para você [...] ficar ouvindo mil sugestões. Aí não tem salvação, mas o leitor é atendido, sim, e as sugestões são levadas muito em conta. [...] É um diálogo permanente. Por exemplo, como eu te falei, a gente monitora e modera os comentários, e ali tem muito feedback. [...] Inclusive para a gente ter ideias de crowdfundings.” (KIKO NOGUEIRA, 2017, informação oral)
Uma questão que se mostrou como parte relevante de todos os projetos analisados foi a percepção de que os jornalistas precisam trabalhar muito antes de começar a fazer a reportagem quando realizam as campanhas para financiamento coletivo. Essa questão será abordada também pelo viés de administração da precariedade nas relações de trabalho e da necessidade de realização de investimentos. Para Carla, a necessidade de investir grande quantidade de tempo antes de começar de fato a reportar é algo que gera desmotivação nos jornalistas. Ela descreve que faz parte do processo realizar a pesquisa, escrever um texto argumentativo convencendo as pessoas a doarem, pedir as doações (ou votos, no caso dela) durante meses e não ter certeza se no fim das contas o resultado será positivo. Esse elemento apareceu também nos relatos de Roberta:
“O acúmulo de horas e de esforço que você faz para conseguir um financiamento [é grande]. E a gente conseguiu uma quantia que era de 900 ou 1000 reais para cada uma, então a gente já tinha trabalhado muito para [esse valor].” (ROBERTA FOFONKA, 2018, informação oral)
Lidar com a motivação do público enquanto caridade é outro elemento que faz parte do processo, conforme percebeu Aitamurto (2011) e se confirmou nas experiências relatadas pela maior parte dos jornalistas. Nesta intepretação do apoio do público, a autora citada argumenta que em muitos momentos o público pode ajudar não com o objetivo de consumir o produto final gerado em um processo de crowdfunding, mas por entender que a causa é importante e querer que o projeto seja executado. Marina foi uma das pessoas que não reconheceu essa tendência de forma clara, mas conta que no caso da Pública ficou evidente o quanto o pedido de ajuda está relacionado, sob a ótica do público, enquanto um pedido de “salvamento”. Isso fez com que diversos apoiadores entendessem que a agência estava pedindo socorro quando iniciou os pedidos, como se eles estivessem em situação de fechamento das operações, o que não era o fato.
Já Carla percebeu que era muito frequente a colaboração de outros jornalistas próximos, como se quisessem apoiar o trabalho independente do colega. Ela também acredita que muitas pessoas mais próximas colaboram não por que querem consumir o conteúdo, mas por que acreditam na causa ou querem ajudar de alguma forma, como membros da família que em alguns momentos sequer entendem o trabalho que está sendo feito.
“Eu acho que tem grupos diferentes que votaram por diferentes maneiras, por diferentes motivos. Por exemplo, família, que não tem ideia do que tu faz. [...] Vota por tu ser sobrinha, neta... Eles não sabem o que é, mas vão lá votar. Só para tu ter ideia, minha tia tem um escritório de advocacia. Eu mandei o link para ela por e-mail, aí depois de um tempo ela veio me dizer: “Carlinha, não só votei, como fiz todo o escritório votar”. Ela não sabia o que era. “Eu não sei o que é, me pediu, eu pedi para todos os meus funcionários. Eu fiquei “meu Deus, ela é a chefe... ‘Pedir’ não é bem ‘pedir’... Ela deu uma ordem, mas tudo bem”. Da família é por isso. Dos jornalistas é porque acreditam, porque apoiam, porque querem te ajudar, enfim, porque são teus amigos... tem essas redes que votam por diferentes motivos, mas nem sempre por causa do conteúdo. Não sei quantos que leem a matéria.” (CARLA RUAS, 2017, informação oral)
A participação de familiares e amigos será mais aprofundada nos próximos itens em uma reflexão sobre a participação dos primeiros círculos mais próximos de contatos do jornalista no financiamento coletivo.
Ainda no campo dos processos, é importante perceber a importância das plataformas enquanto elementos não-humanos que interferem diretamente nas potencialidades que se abrem de financiamento das ações. No caso do Catarse, possibilita-se um contato e atualização constante com o leitor e acompanhamento da meta que modifica a forma como se gera expectativas no interagente. No Apoie.se, a possibilidade de financiamento recorrente diretamente no cartão de crédito faz com que em muitos momentos o público possa até mesmo esquecer que está colaborando com um projeto. Daí a importância das estratégias de comunicação para garantir o engajamento e o acompanhamento das entregas dos produtos.