Este estudo, contribuindo para o aprofundamento dos estudos sobre política pública de juventude, e como uma contribuição a mais, pretende, mediante a hermenêutica dialética, analisar o discurso dos sujeitos em relação às políticas públicas de juventude. A hermenêutica, mediante a compreensão, procura o sentido do texto, evidenciando, do ponto de vista da dialética, aspectos das contradições expressas nas entrevistas como forma de complementar a percepção acerca das políticas públicas de juventude.
Tendo em vista a diversidade de procedimentos possíveis para tratamento de dados, optou-se pela hermenêutica como “metodologia de interpretação que se volta para a compreensão das formas e conteúdos da comunicação humana em sua complexidade e simplicidade” (DEMO, 1995, p.249), combinada à dialética que, como postura interpretativa e do ponto de vista histórico, “toma como centro da análise a prática social, a ação humana, e a
considera como resultado de condições anteriores, exteriores, mas também como práxis” (MINAYO, 1996, p.232).
Concordando com Minayo (1996), entende-se que a hermenêutica dialética se apresenta como um “caminho do pensamento”; e, pela sua capacidade de realizar uma reflexão fundamental que ao mesmo tempo não se separa da práxis, pode-se afirmar que o casamento das duas abordagens deve preceder e iluminar qualquer trabalho científico de compreensão da comunicação.
Inicialmente, para definir o que é a hermenêutica, busca-se o pensamento de Gadamer analisado por Demo (1995) e Minayo (1996). Demo enfatiza que hermenêutica,
[...] se refere à arte de interpretar textos e, sobretudo à comunicação humana. Parte da constatação de que a realidade social, e nela, sobretudo o fenômeno da comunicação humana, possui dimensões tão variadas, nuançadas e mesmo misteriosas, que é mister atentar não só para o que se diz, mas igualmente para o que não se diz (DEMO, 1995, p.247).
A hermenêutica se especializa em perscrutar o sentido oculto dos textos, certa de que no contexto pode haver mais do que no texto. Para o entendimento desse sentido oculto, é necessário conhecer antecedentes, o passado, a cultura construída, a forma particular de ser, a circunstância momentânea (DEMO, 1995). Para Demo, a hermenêutica utiliza como estratégia fundamental a “compreensão”, como relação dialogal que nada reduz a objeto e requer do intérprete empatia, capacidade de colocar no lugar. Nesse sentido, compreende um texto, menos pelo desvendamento de sua gramática e mais porque, imaginando-se no lugar de quem escreveu ou disse, diria da mesma maneira ou de maneira diferente.
Quanto ao entendimento de dialética, de antemão, Minayo ressalta a importância de “distingui-la e fazer sobre ela uma leitura ‘hermenêutica’, no sentido de que o conceito de dialética é historicamente construído, tomando diversas conotações tal como é usado dentro de diferentes marcos teóricos e desenvolvidos por autores diferentes” (MINAYO, 1996, p.223-224).
A autora ressalta que um estudo crítico procura um método no qual a interpretação seja transformação e vice-versa, e que assegure a imbricação entre método e coisa. Isso implica, por um lado, a recusa da totalidade metafísica e, por outro, a afirmação da noção da totalidade que se faz no processo e que é operada também no trabalho teórico. O
último aspecto enfatiza o condicionamento histórico do pensamento, da reflexão e os determinismos materiais da ideologia.
A união da hermenêutica com a dialética leva a que o intérprete busque entender o
texto, a fala, o depoimento como resultado de um processo social (trabalho e dominação) e processo de conhecimento (expresso em linguagem) ambos os frutos de múltiplas determinações, mas com significado específico. Esse texto é a representação social de uma realidade que se mostra e se esconde na comunicação, onde o autor e o intérprete são parte de um mesmo contexto ético-político e onde o acordo subsiste ao mesmo tempo em que as tensões e perturbações sociais (MINAYO, 1996, p.227-228).
Minayo observa que, apesar das dificuldades, a hermenêutica dialética constitui o método com maior capacidade de interpretação mais aproximada da realidade. No plano concreto, a interpretação apresenta duas dimensões. A primeira refere-se ao contexto socioeconômico do grupo social em estudo que compõe o referencial teórico-fundamental para a análise. Constitui a dimensão da totalidade como realidade objetiva. No momento de interpretação dos dados, o sentido da totalidade diz respeito à dimensão das determinações e do recurso interpretativo pelo qual se procura revelar as conexões que a vivência empírica mantém com o plano das relações fundamentais.
A segunda dimensão se reporta à apreensão do movimento contraditório, dinâmico, inacabado e em constante projeção. Nessa segunda dimensão interpretativa, encontra-se o marco de saída e o de chegada de um processo de investigação. Aqui,
A interpretação exige elaboração de Categorias Analíticas capazes de desvendar as relações essenciais, mas também de Categorias Empíricas e Operacionais capazes de captar as contradições do nível empírico em questão. A partir dos dados colhidos e acumulados, o investigador se volta para os fundamentos da teoria para uma reflexão sobre os conceitos iniciais, para colocação em dúvida das idéias evidentes. Assim ele constrói uma nova aproximação do objeto: o pensamento antigo que é negado, mas não excluído, encontra outros limites e se ilumina na elaboração presente. O novo contém o antigo incluindo-o numa nova perspectiva (MINAYO, 1996, p. 233).
Essa segunda dimensão é o momento hermenêutico, em que, de forma provisória, para fins analíticos, utiliza-se o material de representação social como um conjunto separado, a ser tecnicamente analisado. Para finalizar, concordando com Minayo, entende-se que qualquer processo de investigação deve vislumbrar um vínculo estratégico com a realidade e, no caso particular das políticas públicas de juventude, afirma-se que ele deve contribuir para elucidar as contradições inerentes ao sistema capitalista que se reflete no modelo de políticas excludentes.