Após longa negociação com seus acionistas privados e autorização do Congresso Nacional, em 1905, o governo passou a deter 50% do capital da instituição financeira, que passou a ser chamada novamente de Banco do Brasil, nome que mantém até os dias de hoje. Iniciava-se neste momento, a terceira e atual fase jurídica do Banco do Brasil. Nesse renascimento, havia apreciáveis vantagens para o banco ao optar por uma linha de continuidade, assumindo o que já havia de estrutura, de tradição, de clientela, no Banco da República.
A estatização do Banco do Brasil e sua gradual transformação em banco central – de fato, mas não de direito – trouxeram mais segurança às instituições bancárias, estimulando a criação de novos bancos. Nesse período, começou a emergir um autêntico sistema bancário no Brasil, já que, até então, os bancos atuavam isoladamente e tinham caráter estritamente local, à exceção do Banco do Brasil e dos bancos estrangeiros (CAVICCHINI, 2007, p. 94).
O ingresso do governo como acionista, com metade do capital, reforçava o seu poder de interferência nas assembléias gerais, às quais os acionistas particulares compareciam, geralmente dispersos, com limitado poder de voto. O novo Banco do Brasil, como era de se prever, enfrentou dificuldades, pois o sistema de continuidade ao Banco da República transmitia-lhe o legado de uma crise prolongada. Desde 1906, as ações ordinárias da Empresa são transacionadas publicamente nas bolsas de valores. Passada a crise que culminou no fechamento de diversos bancos em 1900, e a reorganização do Banco do Brasil em 1905, os bancos sobreviventes adotaram posturas mais cautelosas, restringindo suas atividades àquelas típicas de bancos comerciais, concedendo crédito de curto prazo e abandonando suas aplicações em ativos reais e investimentos de longa maturação.
Costa Neto menciona em sua obra o gradual crescimento dos interesses da União em relação à maior instituição bancária do país na época.
Tal processo de conexão, ao passo que correspondeu às ações do governo no sentido de evitar o aprofundamento da crise do sistema bancário, à busca por sua solução e também ao reconhecimento da maior importância de algumas
instituições bancárias frente a outras, evidencia que a decisão pelo controle administrativo e do capital do novo BB, em 1905, correspondeu não só aos declarados interesses pela regulação do câmbio e desenvolvimento do crédito, conforme as justificativas apresentadas pelo governo, como também ao interesse do Estado pela preservação e pelo desenvolvimento sistêmico das instituições de crédito (COSTA NETO, 2004, p. 22).
Nos primeiros anos após a criação do novo Banco do Brasil, agora instituição oficial, as atenções de sua diretoria estavam voltadas para sanear a carteira de ativos (PACHECO, 1979). O Banco recebera o monopólio dos recebimentos e pagamentos do governo no exterior e a exclusividade da conta do Tesouro Nacional. Em 1910, vários bancos já mantinham depósitos voluntários no Banco do Brasil. Neste mesmo ano, por orientação do governo e pressão das Associações Comerciais, o Banco comprometeu-se, no prazo de três anos, a abrir agências em todos os estados. A presença de um banco estatal trouxe também mais segurança aos bancos privados nacionais, o que se refletiu na diminuição gradual da proporção de encaixes mantidos por esses bancos em relação aos depósitos, algo que possibilitou a expansão do crédito nos períodos de normalidade econômica.
A primeira indicação encontrada sobre o comprometimento excessivo de recursos do Banco do Brasil com empréstimos ao Tesouro refere-se à ocasião da crise gerada pela retração do mercado de crédito internacional diante dos primeiros movimentos bélicos na Europa, entre 1913 e 1914, antecedendo a Primeira Guerra Mundial (COSTA NETO, 2004).
Topik (1979) afirma que em 1912, ao Banco do Brasil cabia a participação de 50% sobre o total de depósitos, 40% do total de dinheiro em caixa nas instituições bancárias, 44% sobre o valor total de notas descontadas, mostrando uma posição de supremacia. O Banco alcançava, em 1919, um total de 37 agências no país. Em 1923, já estavam em operação setenta agências em todo o território nacional (PACHECO, 1979).
A partir de 1917, realizaram-se tentativas para restabelecer o crédito agrícola no país. O Banco do Brasil chegou a ser cogitado, graças às suas agências no interior, para se encarregar dessa atividade. Na verdade, antecipava-se o que realmente viria a ocorrer anos depois com a criação da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial.
3.2.4 Aperfeiçoamento do sistema monetário
No ano de 1921, foi criada a Carteira de Redesconto (CARED) e as Câmaras de compensação do Banco do Brasil, o que permitiu a expansão da moeda escritural e a redução dos encaixes, trazendo maior segurança ao sistema. Foram impostas regras claras de acesso a esse recurso, o que significava a oficialização do maior banco público brasileiro como emprestador de última instância. A criação do CARED contribuiu para que os bancos de capital nacional, em épocas de normalidade econômica, pudessem manter menor proporção de reserva, sem que isso os tornasse mais frágeis. A Carteira dera ao Banco do Brasil uma certa posição de prestígio e a faculdade para operações de rendimentos considerável, que logo se refletiram nos lucros, elevados a uma soma nunca antes vista.
Depois que começou efetivamente a funcionar a partir de sua instalação em 1º de fevereiro de 1921, a Carteira foi bastante elogiada. Com ela, implantou-se a tranqüilidade na vida econômica; dotou-se de maior elasticidade o sistema monetário; tornou-se possível restituir à circulação uma soma calculada em mais de 400 mil contos, que se conservava improdutiva nas caixas do Banco; aumentara a eficiência do capital, preparando-se para mais tarde uma redução considerável na taxa de juros. Conferira-se, por fim, ao governo federal, o poder de influir diretamente na economia nacional, fomentando a produção ou reprimindo a especulação através de modificações oportunas na taxa de juros das quantias que fornecesse (MAGALHÃES, 1988, p. 156).
A criação da Carteira de Redesconto foi influenciada também pela idéia de fortalecer a posição competitiva dos bancos nacionais frente aos estrangeiros. Costa Neto (2004, p. 45) define que “a ausência do redesconto havia sido apontada como causa da vulnerabilidade daqueles às crises monetárias e preferência do público pelos bancos estrangeiros, cujas matrizes os socorriam prontamente durante emergências”.
Outro marco institucional mencionado acima, a criação da Câmara de Compensação de Cheques do banco, começou as operações no Rio de Janeiro e estimulou o uso de cheques e, portanto, a participação dos bancos no sistema de pagamentos. Embora até 1945 não houvesse uma instituição no país que cuidasse da política monetária de modo unificado, o Banco do Brasil operou “frequentemente como importante canal de transmissão das políticas monetária e creditícia, tendo assumido,