Shirley Brice Health após uma década de estudos, concebeu o que conceituamos de eventos de letramento (1982,1983), apresentados pelos NLS como instrumentos de estudo e como unidades básicas do fenômeno do letramento, constituindo-se enquanto lados de uma mesma moeda, de uma mesma realidade interacional (SANTOS, 2008)
A discussão sobre o evento de letramento vai na direção de procurar descrever um acontecimento mediado pelo texto escrito (HEATH, 1982). A referida autora fez um estudo no qual a unidade de análise foi o evento de letramento, definido por ela como situações em que a língua escrita é parte integrante da natureza entre os participantes e seus processos interativos. Barton & Hamilton (1998, p. 8) conceituam assim:
[...] eventos de letramento são atividades em que o letramento desempenha um papel. Geralmente existe um texto escrito, ou textos, que é central para a atividade e falas em torno do texto. Eventos são episódios que emergem das práticas e são definidas por elas.
As práticas de letramento dizem respeito à maneira como um grupo faz uso da língua escrita e revelam as suas concepções, valores, idéias, crenças a respeito da escrita, têm, portanto, um sentido mais amplo do que eventos, pois
54
englobam os comportamentos exercidos pelos participantes do evento e também as suas concepções sociais e culturais. (MARINHO, 2010, P. 78)
Aqui também percebemos que a distinção entre os dois termos enquanto “ferramenta conceitual”, pois ambos estão interligados, deste modo, o uso do conceito de práticas de letramento é que permite a interpretação dos eventos. Não existe eventos de letramento sem práticas, da mesma forma que só se pode inferir as práticas de letramento associando-as aos seus eventos. Para Terzi (2007) o conceito de práticas de letramento está em um nível mais alto de abstração, enquanto que o evento de letramento é um conceito mais descritivo.
Cardoso (2005) afirmar serem as práticas sociais de leitura e de escrita (e aqui incluímos as práticas ocorridas no cotidiano escolar), isto é, as
experiências em eventos de letramento, construídas ao longo da nossa
trajetória de vida, o fator determinante na formação de leitores e produtores de texto. Barton (1998) afirma serem os usos culturais da escrita e os significados que adquire em cada grupo, que delineia o letramento dos sujeitos, referindo-se ao fato de o letramento ser historicamente situado, num dado tempo histórico e espacial.
Desse modo, é interessante advertir que a abordagem histórica pessoal ou da comunidade, a origem social, as tradições, as experiências são elementos que vão marcar a condição de letramento17 do indivíduo. De fato, HEATH (1983) aponta em sua pesquisa, que o desenvolvimento da leitura na criança estará sempre recebendo influências da orientação de letramento da sua família, da própria sua comunidade (SANTOS, 2008). Partindo deste pressuposto é que concebemos o letramento como múltiplo, pois são diversas as práticas sociais e culturais que tivemos e temos contato. Sendo o letramento um fenômeno multifacetado não podemos admitir hierarquizações provindas de valorização cultural, onde uma cultura parece ser mais ‘rica’, ‘desenvolvida’, porque não, mais urbana, de que outra.
Em vista disso, corroboramos que nas práticas sociais de leitura e escrita na perspectiva dos letramentos, devem ser observados os padrões de seus
17 Torrês (2009) admite que conhecer a situação ou condição de letramento do professor significa conhecer as práticas de leitura e escrita que fizeram parte de sua história de letramento, ou seja, é o conhecimento dos modos particulares com que esse professor se relaciona com a leitura e a escrita, considerando-se que foi exposto, ao longo da vida, a usos e funções da escrita próprios dos contextos sociais em que se socializou desde a infância até o momento presente.
55
atores, isto é, a sua concepção, sua valorização, relação de afetividade e inclusive a sua própria história de letramento. Este paradigma foi indicativo das escolhas metodológicas da pesquisa e está amplamente coligado ao que Barton (1988) chama de ecologia da escrita.
A metáfora da ecologia pretende tomar o letramento integralmente no seu contexto, ou seja, permeado a relação do homem com o meio ambiente, concebendo que este faz parte deste ambiente e, portanto, recebe influência e é influência ao mesmo tempo. Esta abordagem procura ratificar o quanto o letramento é um fenômeno essencialmente social e, portanto não pode, de maneira alguma, ser isolado do seu contexto. Nesse sentido, “entender o que o letramento significa na vida dos seres humanos é fundamental pra entender como usamos a escrita em nosso cotidiano” (HACK E TOMAZONI, 2014, P. 33) Barton e Hamilton (1998) propuseram a metáfora da ecologia a partir de seis proposições, traduzidas por Carvalho (2006, p. 26-27):
1) Letramento é melhor compreendido como um conjunto de práticas sociais: estas inferidas de eventos que são mediados por textos escritos;
2) Existem diferentes letramentos, associados a diferentes domínios da vida;
3) As práticas de letramento são padronizadas pelas instituições sociais e relações de poder, e alguns letramentos são mais dominantes, visíveis e influentes do que outros.
4) As práticas de letramento têm um propósito e estão firmadas em metas sociais mais amplas e nas práticas culturais.
5) O letramento é historicamente situado;
6) As práticas de letramento mudam e novas práticas são frequentemente adquiridas por meio de processos de aprendizagem informal e de produção de sentido.
Os autores ainda explicitam que o letramento está alicerçado em um tripé, composto por: eventos, práticas e textos, associados às teorizações de que existem “diferentes letramentos” vinculados às diversas esferas da vida social; e nestas, as relações de poder se fazem presente; portanto o letramento é dotado de intencionalidade; e por isso é historicamente situado; adquirindo assim um caráter dinâmico (BARTON e HAMILTON, 1998). Por conseguinte, assim como afirma Batista (2009, p. 7):
os traços socioculturais de um povo se transformam, a forma como usam e atribuem sentidos à escrita é sujeita à mudança ao longo do tempo. Por isso, a importância de investigar o letramento em
56 comunidades onde essa prática exista. Para que se possam observar essas práticas, faz-se necessária uma pesquisa etnográfica com o objetivo de observar questões imperceptíveis aos olhos de quem está fora do processo.
Algumas destas pesquisas serão apresentadas no próximo tópico.