80 Ressalvamos isso, por haver todo um debate que questiona se a interpretação semântica das teorias seria a
mais apropriada, ou não, para lidar com as teorias e a atividade científicas. Uma alternativa à visão semântica seria a pragmática da investigação, a qual apenas faremos menção no presente trabalho. Para o leitor interessado, confira-se Dutra (2008a; 2008b).
Ab initio, a abordagem semântica coloca os modelos (semânticos) em primeiro plano, ao partir da ideia de que “os conceitos relativos aos modelos serão mais fecundos na análise filosófica da ciência.” (VAN FRAASSEN, 1989, p. 217, tradução nossa). Por isso, a concepção semântica também é chamada de ‘modelo-teorética’ (model-theoretic). Donde, a imagem semântica contrapõe-se à ‘imagem sintática das teorias científicas’, de viés eminentemente linguístico, conforme a qual se especificava “uma linguagem exata, algum conjunto de axiomas e um dicionário parcial, que relacionava o dialeto teórico com os fenômenos observáveis que são relatados.” (VAN FRAASSEN, 2007a, p. 121; 1980a, p. 64). O retrato semântico, por outro lado, estabelece que as teorias não são um conjunto de enunciados, ou um sistema dedutivo passível de axiomatização, da mesma maneira que a visão sintática. De molde que as teorias passam a ser concebidas, prima facie, como conjuntos ou famílias de modelos, de acordo com a visão semântica.
No tocante à abordagem sintática ou axiomática, convém assinalar que esta foi a posição esposada pelo empirismo lógico – por este motivo, a designação de ‘visão recebida’ para a imagem sintática81 - consoante o qual, as teorias científicas seriam mais bem entendidas como sistemas formais dedutivos, em que é possível destacar um vocabulário observacional e outro teórico, em função de a interpretação das teorias não ser literal. Outrossim, segundo Patrick Suppes (1979, p. 112-113), a concepção sintática é dividida esquematicamente em duas partes: primeiro, o cálculo lógico abstrato ou sintaxe pura, baseados na lógica de primeira ordem, incluindo os símbolos primitivos da teoria, de sorte que sua forma lógica é firmada pelo conjunto de axiomas ou postulados. Depois, em algumas teorias, os símbolos primitivos são os termos teóricos ou entidades postuladas. Segundo, estipula-se um conjunto de regras que são definidas como a classe das consequências lógicas do conjunto de axiomas da teoria. Ou seja, essa classe atribui conteúdo empírico ao cálculo lógico, por onde, surgem as ‘definições coordenadoras’ ou ‘interpretações empíricas’, para correlacionar os enunciados observacionais e os enunciados teóricos.
Com efeito, identificar uma teoria, do ponto de vista sintático e axiomático, requer a construção de uma linguagem simbólica ou formal, na qual se pode expressar, com a maior precisão possível, aquelas leis da teoria que foram eleitas como axiomas. Isto é, aproveitando a terminologia da teoria hempeliana da explicação - ou do próprio modelo nomológico- dedutivo, decorrente dessa concepção de teoria -, o explanandum é logicamente deduzido do explanans. Tal operação era necessária para a aplicação das regras de transformação e para
haver o máximo controle da derivação das consequências lógicas. Depois, fixar-se-ia um conjunto de regras de correspondência que interpretam parcialmente a linguagem formal da teoria, relacionando o vocabulário teórico com o vocabulário observacional (PÉREZ RANSANZ, 1985, p. 5).
Assente isso, tais teses eram sustentáveis em uma filosofia da ciência de natureza linguística, cuja ideia de teoria, no sentido mais forte, identificava-se com um conjunto de enunciados que deveriam ser completamente formalizados (em linguagens de primeira ordem) e axiomatizados, na acepção de Hilbert. Claro, também seria perfeitamente possível que as teorias não fossem completamente formalizadas em linguagens de primeira ordem (versão mais fraca do enunciado anterior), a fim de realizar o programa linguístico em filosofia da ciência. Então, tal caráter linguístico das teorias foi continuamente demolido pelos realistas científicos, pelas teorias da ciência pós-positivistas, e pelo próprio van Fraassen (2007a, p. 109; 1980a, p. 56) que pontificou peremptoriamente que: “a principal lição da filosofia da ciência do século XX pode bem ser a seguinte: nenhum conceito que seja essencialmente dependente da linguagem possui qualquer importância filosófica.”
Em que pese a pressuposição da abordagem semântica em considerar a linguagem amplamente irrelevante para o tratamento de um tema, van Fraassen (1989, p. 222) faz a seguinte reserva ao comentário anterior: apresentar uma teoria implica, evidentemente, recorrer a uma linguagem como meio eficiente de comunicação – salvante os casos em que a apresentação da teoria seja através da amostragem direta do objeto. Ademais, o autor declara que a linguagem da ciência não pode ser ignorada, em particular, na fenomenologia da atividade científica e sua relação com a incursão da pragmática.
Ora bem, o filósofo canadense assevera que a abordagem sintática não enfrentou de forma apropriada o problema da interpretação da linguagem e das teorias científicas, por considerar os termos teóricos (i) não plenamente compreensíveis, embora soubéssemos como os usar em nossos pensamentos, sem prejuízo ao sucesso da ciência. Ou, (ii) os termos teóricos fariam parte da linguagem natural, de jeito que seriam mais inteligíveis do que outras seções daquele idioma. Sinoticamente, van Fraassen (1989, p. 221, tradução nossa) afirma que “o erro [da abordagem sintática] foi ter confundido a teoria com a formulação de uma teoria em uma linguagem particular.” Por fim, os exemplos clássicos da imagem sintática estão em
Carnap (1969, 1975, 2000[1937]), em Reichenbach (1959), e a versão mais madura está em Hempel (1981)82.
Para encerrar esse tópico, van Fraassen sumariza o conjunto de teses neopositivistas sobre a ciência, com a finalidade de defender que o retrato sintático das teorias, em face da abordagem semântica, é inapropriado para a atividade científica:
O que temos encontrado na abordagem semântica é a forma de descrever estruturas relevantes no sentido de que estas são diretamente relevantes, e devem parecer ser relevantes, em relação ao assunto. [Então,] as distinções escolásticas e formais que a tradição do positivismo lógico produzira – [a distinção entre] o vocabulário observacional e teórico, os teoremas de Craig, as sentenças de Ramsey, as teorias axiomatizáveis de primeira ordem, os predicados projetáveis, as sentenças redutivas, os termos disposicionais, e todo o nefasto resto disso – afastou-nos para milhares de
quilômetros de qualquer centro científico [habitation scientifique]. [Assim, o
neopositivismo ficou] isolado em seus próprios sonhos abstratos. Desde a convocação de Suppes para retornarmos a uma orientação não linguística, agora cerca de trinta anos atrás, lentamente temos recuperado o contato [com a atividade científica]. (VAN FRAASSEN, 1989, p. 225, grifos do autor, tradução nossa)83.