Figura 6. Representação esquemática do teste sorológico de rastreio da Leptospirose: técnica de
aglutinação macroscópica sobre lâmina, cujo resultado se obtém em cerca de 4 minutos. (fonte: protocolo da ULBL/IHMT).
8.2.2. Técnica de referência (Teste de Aglutinação Microscópica)
A Técnica de Aglutinação Microscópica (TAM) é considerada a técnica de referência para o diagnóstico da Leptospirose, sendo o único método de rotina que permite, por si só, a identificação do sorogrupo presuntivo da estirpe infectante. Consiste, tal como a técnica
28 aglutinação, mas apenas visível em microscopia de fundo escuro. É efectuada em microplacas de fundo plano, utilizando soros diluídos numa ou duas diluições iniciais, na fase de rastreio e, posteriormente em diluições seriadas ao dobro com os antigénios “vivos” de referência reactivos (culturas com 4 a 14 dias de idade e densidade aproximada de 108 bactérias/ml). A amostra problema é considerada positiva quando 50% ou mais das leptospiras estão aglutinadas, em regra, a partir da diluição mínima de 1:100 (Figura 7). Além dos sorogrupos de referência, é conveniente incluir na bateria de antigénios a utilizar, estirpes isoladas localmente, de modo a aumentar a sensibilidade da técnica. Embora sejam feitos esforços no sentido de substituir esta técnica por um teste de diagnóstico mais rápido, não dependente de uma resposta imune, e que não implique a manutenção de um elevado número de estirpes em cultura, esta continua a manter-se como a técnica de referência para o diagnóstico da Leptospirose.
Figura 7. Técnica de aglutinação microscópica (TAM). A-Testemunha; B1-B5 intensidade crescente
de aglutinação: B1 (75% livres); B2 (50% livres); B3 (25% livres); B4-B5 ( 0% livres) (adaptado de Collares-Pereira22).
Em virtude do aparecimento de imunogloblulinas IgM, na fase inicial da doença, seguido do aparecimento mais tardio de imunoglobulinas IgG, mais específicas, é conveniente basear
B2 B3
B5 B1
B4 A
29 o resultado da sorologia em amostras séricas emparelhadas, colhidas com um intervalo mínimo de 10 dias, sendo a primeira colheita efectuada de preferência na fase inicial da doença, de modo a poder analisar-se a cinética dos anticorpos específicos e, consequentemente, confirmar o sorogrupo presuntivo da estirpe infectante. Com efeito, a interpretação da sorologia no ínicio da doença pode ser dificultada pela existência de reacções cruzadas, paradoxais ou residuais, inerentes à detecção de antigénios comuns aos diferentes sorovares (ditos “específicos de género”)22,23.
9. Tratamento e prevenção
A antibioterapia deverá ser iniciada após confirmação laboratorial do diagnóstico clínico ou, imediatamente, no caso de forte suspeita clínica e/ou epidemiológica de um caso grave de Leptospirose, através da administração preferencial de penicilina G por via endovenosa. Além deste fármaco, outros antibióticos como o ceftriaxone, a cefotaxima e a doxiciclina poderão ser utilizados69,88. A doxiciclina poderá ser administrada com fins profilácticos em grupos de risco em áreas onde existe elevada prevalência da doença ou como prevenção em situações de visita a áreas problemáticas82,99,101. Além do uso de antibióticos, deve assegurar-se o reequilibro hidroelectrolítico dos doentes e, em casos de insuficiência renal aguda, deverá proceder-se ao controlo dietético e à hemodiálise101.
Como medidas de prevenção “ambiental” destacam-se a identificação das áreas e grupos de risco, as campanhas de desratização, o melhoramento das condições sanitárias e dos hábitos de higiene, o uso de vestuário protector como luvas e botas de borracha em indivíduos expostos a possíveis fontes de contágio, a realização de campanhas de sensibilização junto das populações, e o tratamento e vacinação dos efectivos pecuários.
30 No que se refere à Leptospirose humana, já foram implementados com sucesso, na China, Japão e Vietname, programas de vacinação em grupos populacionais mais susceptíveis de contrair a doença1,19. A aplicação destas vacinas é contudo bastante limitada, dado que, para apresentarem resultados satisfatórios têm de ser altamente específicas para os sorovares predominantes em cada região, implicando elevados custos de produção e de investigação epidemiológica, nem sempre rentáveis do ponto de vista económico100.
As vacinas contêm, em regra, dois ou mais sorovares, predominantes numa determinada área, sendo a revacinação anual recomendada para a manutenção da imunidade pois, tal como na infecção natural, a imunidade vacinal é restrita no tempo e aos sorovares envolvidos1. Embora seja possível a manutenção prolongada da imunidade específica (i.e., ao mesmo sorovar), verificou-se ser possível a reinfecção pelo mesmo ou por um sorovar distinto37.
Actualmente, a única vacina com licença para uso humano está a ser produzida em Cuba99,56. No entanto, a China, a par da França, já esteve envolvida na produção e utilização de uma vacina com esse fim102. Vacinas comerciais “anti-Leptospirose” estão globalmente disponíveis para os bovinos, suínos e canídeos domésticos. Contudo, tal como no caso dos humanos constata-se que a vacinação é apenas parcialmente efectiva e deverá ser efectuada periodicamente de acordo com as indicações do médico veterinário.
A existência de um elevado número de sorovares, com diferenças em termos de abundância relativa e distribuição geográfica, tem dificultado o desenvolvimento de uma vacina eficaz a nível mundial100. Por outro lado as leptospiras desenvolveram meios altamente específicos de evasão aos mecanismos de defesa imunitária do hospedeiro. Até à data a investigação vacinal tem vindo a basear-se no estudo de lipopolissacarídeos (LPS), lipoproteínas, proteínas da membrana externa, potenciais factores de virulência e mais recentemente, no desenvolvimento de vacinas de DNA99,100. Contudo, os avanços na produção
31 de uma vacina eficaz dependerão da compreensão exacta dos mecanismos envolvidos na imunidade adquirida59,100.