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Dans le document Praise for Practical Common Lisp (Page 87-91)

Gostaria de arguir, primordialmente, que não é minha intenção esgotar, tão pouco aprofundar a discussão sobre a Alegoria ou Interpretação Alegórica, tema caro no campo da filosofia e que atravessa milênios. Importa-me apenas evocar tal conceito como intercessor metodológico e tecer alguns comentários sobre a sua chegada ao presente texto. Segundo Gagnebin (1999), a hermenêutica alegórica emerge na filosofia clássica do distanciamento histórico que separa os leitores de escritos originais. De caráter fragmentário e arbitrário, sempre foi depreciada devido a sua ausência de rigor à verdade. A interpretação alegórica era aquela que buscava no além-literal seu ponto de produção de sentido. É nesse ponto, porém, que Benjamin (1984) observa sua força e potencialidade, quando relaciona alegoria e o

ethos da modernidade.

Gagnebin (1999) continua dissertando que, frente a essa perda do sentido original, na perspectiva em que sentido literal passa a se contrapor a sentido verdadeiro, torna-se imperativo a utilização de uma leitura que busque, sob o véu sensível das palavras proferidas, o seu pensamento, algo que os estoicos denominavam Hyponoia (Subpensamento), nomeada em definitivo por Filo de Alexandria por Alegoria (do grego αλλος, allos, "outro", e αγορευειν, agoreuein, "falar em público").

Logo, da tradição clássica, evoca-se a perspectiva da alegoria como uma fala outra, uma fala que não encerre, em última instância, um sentido essencial e verdadeiro. O Alegórico é permissão de que os sentidos outros estejam presentes, que o sentido desloque-se e se produza histórico. Sobre isso Benjamin (1994, p. 165) diz:

Aquilo que é atingido pela intenção alegórica permanece separado pelos nexos da vida; é, ao mesmo tempo, destruído e conservado. A alegoria se fixa às ruínas. Oferece a imagem da inquietude entorpecida.

Na dimensão do declínio da palavra nomeadora e perda da coisa, restaria ao exercício alegórico a realização de um luto, mas luto pelo jogo, pela distensão do plano de sentido (JUNIOR, 2012). Esse luto carrega a capacidade única de devolver ao exercício de linguagem sua historicidade no ponto em que efêmero e eterno estão amalgamados. Devolve-se assim vida à linguagem a partir do deslocamento do mundo objetivo e a perspectiva é colocar o exercício de escrita e/ou fala em uma dimensão de aqui-já-outro. Ao deslocar sentidos, retirá-los de sua univocidade, a alegoria, por via de flutuação fragmentária, permite que o que é rejeito histórico possa ser atualizado, que o resíduo se coloque. O histórico de depreciação da alegoria como metodologia, tida como chula, subjetivista, também apresenta um ponto de marginalidade característico do fazer alegórico, o que acrescenta mais uma ponta de resíduo e desvio no método que apresento. O que Benjamin (1984) recoloca e talvez também o faça Nietzsche (1974) é o local da alegoria. Não é um simples deslocamento do sentido originário, mas a própria produção de sentido na língua que depende do caráter alegórico como força motriz, e quanto mais esse caráter é refreado em nome da perspectiva de linearidade das imagens históricas, mais o ímpeto criador (Erfindung) e vivaz da língua é refreado.

O exercício alegórico permite que uma crítica do real seja tecida a partir de dizer o outro de si, dessa forma não é uma crítica por contraposição, mas por composição. Sobre essa questão do luto fragmentário da alegoria, afirma Pires Junior (2012, p. 167):

Destruir e conservar, eis o atributo da crítica tal qual Benjamin a desenvolveu. Trata-se de um trabalho sobre as ruínas. A alegoria se caracteriza por ser uma fuga perpétua de um sentido último. Tal linguagem extrai sua riqueza de imagens tanto da tristeza advinda do luto provocado pela ausência de um referente último quanto da liberdade lúdica que promove o jogo que tal ausência acarreta.

De alguma forma, frente a univocidade das imagens da história o intento alegórico porta certo potencial violento de desagregação de harmonias (BENJAMIN, 1994) monadais forçadas que produzem a história como imagens únicas. Esse

processo de silenciamento que cria uma pretensa harmonia das formas históricas esconde a opressão de onde ele emerge. (BENJAMIN, 1987c).

Nesse quantum de destrutividade, a alegoria corrompe a totalidade presumida do símbolo (GAGNEBIN, 1999), expõe a morte do significado único, mas realiza o luto ao propor outros sentidos possíveis. Ainda nesse campo, Benjamin (apud Junior, 2012, p. 173) afirma que “se é a fantasia que oferece à memória as correspondências, então é o pensamento que lhe dedica as alegorias. A memória conduz umas às outras”.

Versando sobre temática da relação verdade-coisa-linguagem, Nietzsche nos lembra:

Esse impulso a formação de metáforas, esse impulso fundamental do homem, que não se pode deixar de levar em conta nem por um instante, porque com isso o homem mesmo não seria levado em conta, quando se constrói para ele, a partir de suas criaturas liquefeitas, os conceitos, um novo mundo regular e rígido como uma praça forte, nem por isso, na verdade, ele é subjugado e mal é refreado ( NIETZSCHE, 1974, p.58).

A linguagem metaforiza, perfomatiza, modula, constitui e destrói. Essa característica da linguagem é tão familiar, que se pode observar certa alotropia23 de termos muitas vezes habitando o mesmo espaço físico, a mesma língua, os mesmos agrupamentos humanos. Nessa Alotropia linguística, o mesmo significante, no confronto com os fluxos encontra/produz outras imagens. Nietzsche (1974) afirma que a teia conceitual e estanque que forma os contratos silenciosos em que se edificam as verdades deve ser rompida para que surjam novas composições, dando vida ao mundo da palavra. Nesse ponto que o alegórico-artístico surge como possibilidade de equívoco de imagens cristalizadas e rompimento dessa teia que arrebanha os participes da linguagem.

Considerando o referencial de história que fora trazido para compor a presente dissertação, acredito que há duas tarefas essenciais a serem feitas no campo de estudo das Drogas ilegais – de um lado a constituição de um olhar genealógico sobre a temática do uso de substâncias psicoativas, de outro, a

23 Alotropia é certa característica físico-química que têm alguns elementos químicos

de se apresentarem com características físicas diferentes, como: organização espacial, quociente de condutividade, densidade, etc. Um exemplo clássico é o grafite e o diamante que são formas alotrópicas do carbono.

composição de deslocamentos dos afetos e das moralidades instituídas. Nesse segundo ponto me insiro, utilizando a alegoria como máquina-ferramenta de acesso ao residual dessa história.

A perspectiva de uma Alegotropia ou uma Alegoria Psicotrópica é de utilização da dimensão de Hyponoia e de deslocamento do intento alegórico como motor, como mola de propulsão (entspringt) de questionamentos no campo do uso de psicoativos ilegais. O que não implica dizer que não se aposta na produção de juízos a respeito, ou seja, não se trata do domínio irrestrito de Hyponoia, mas a utilização dessa dimensão como porta de acesso. Pelo contato com alegorias do campo da substâncias psicoativas, convoco o leitor ao exercício de um acesso pré- reflexivo e intensivo com a questão. Dessa forma, almejo alcançar uma certa alotropia dos significados constantes no campo do uso de psicoativos ilegais.

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