Os estudos na área de saúde do trabalhador partiram da tradição biomédica, abordando o seu oposto, a doença, tratada como entidade, tomando a base biológica como causa única da doença. As relações entre trabalho e doença foram apontadas desde a antiguidade. Nos últimos séculos, diversos estudos abordaram diferentes condições de trabalho e sua relação com adoecimento: Georgius Agrícola e Paracelso no século XVI; Bernardino Ramazzini no século XVII; Percival Pott no século XVIII, William Farr no século XIX e diversos pesquisadores no século XX. A partir da revolução bacteriana predominou a abordagem monocausal com foco específico em agentes físico- químicos (arbesto, radiação ionizante, cromo e benzeno) e sua relação com certas doenças dos trabalhadores (FRANCO, 2002).
Os estudos que marcaram o nascimento da epidemiologia social (século XIX) mostraram a existência de uma relação entre saúde e condições de vida (Villermé, na França) e de trabalho (Engels, na Inglaterra). A partir da revolução industrial tornaram-se mais evidentes as relações entre saúde e trabalho, porque esta trouxe profundas modificações socioeconômicas, como o processo acelerado de urbanização, a mudança estrutural da organização do trabalho e a criação dos pólos industriais. Neste cenário de produção as condições de trabalho eram absolutamente precárias e as jornadas extenuantes, fazendo emergir a intensificação do adoecimento nas classes trabalhadoras. Surgiram as intervenções em saúde, motivadas pela necessidade de conter a perda da mão de obra treinada para os postos industriais; organizaram-se também os movimentos de classe dos trabalhadores, ampliando sua participação política e reivindicando condições de trabalho menos insalubres (FREITAS, 2003).
Até a revolução industrial, elementos do tecido social como a doença, a sujeira e a pobreza, eram associados a grupos populacionais marginalizados, dentre os quais a classe trabalhadora. A crescente organização dos trabalhadores em países onde houve maior desenvolvimento nas relações industriais de produção (Inglaterra, França e Alemanha) fez com que as questões de saúde fossem incorporadas à pauta de reivindicação dos movimentos sociais.
Analisando a história das relações entre trabalho, saúde e doença, a dimensão política se torna evidente, posto que a rede de relações sociais urbano-industriais foi tecida no conflito de classes, revelando profundas desigualdades sociais e antagonismo de interesses. Houve avanços e retrocessos nas lutas por melhores condições de trabalho, iniciadas no século XVIII. As questões específicas de saúde e segurança tomaram maior impulso no século seguinte, tendo a Inglaterra como ponto de partida e conquistando espaço crescente em outros países europeus e EUA, avançando até meados do século XX, em contínuas lutas por melhores níveis salariais, redução de jornada, restrição ao trabalho de menores, regulamentação de horas extras, trabalho noturno, adicional de insalubridade e periculosidade (FRANCO, 2002), favorecendo a noção de cidadania da classe trabalhadora e conduzindo à constituição do Estado de Bem Estar Social, que entrou em declínio com a crise do fordismo.
Os estudos tradicionais em saúde ocupacional partem do modelo positivista e seguem a ideologia do capitalismo industrial, abordando a doença como um fenômeno biológico individual, abstraindo as condições sociais, inclusive de trabalho. A maior parte dos estudos se baseia em práticas convencionais da medicina do trabalho e da engenharia de segurança, buscando a ação isolada de agentes patogênicos ou, no
máximo, a multiplicidade e interação de grupos de agentes, com ênfase na proteção contra os riscos (RIBEIRO et al, 2002).
A visão da doença como fenômeno biológico individual foi absorvida pelo operariado, para o qual a saúde é buscada principalmente como possibilidade de trabalhar, conforme estudos de Adam e Herzlich (2001) que mencionam pesquisas realizadas em classes populares, na Inglaterra e na França, nas quais a saúde é associada à capacidade para o trabalho.
Todavia, as interfaces socioeconômicas que integram a situação de trabalho demonstram a insuficiência dos modelos teóricos tradicionais, que apresentam carências epistemológicas e metodológicas para situar as questões de saúde para além da concepção da ausência de doença, abrangendo aspectos econômicos, sociais e psicológicos (ASSUNÇÃO, 2003). Ultrapassando os limites da visão biomédica tradicional, abordagens mais abrangentes, oriundas das ciências sociais em saúde, têm construído um espaço crescente ao considerar a complexidade e as múltiplas dimensões (sociais, econômicas, biológicas, psicológicas e ambientais) que envolvem as questões de saúde-doença.
Um importante elemento socioeconômico que afeta a saúde dos trabalhadores está relacionado à transformação das bases técnicas da sociedade e dos ambientes produtivos (DOWBOR, 2004). Contrariando o discurso segundo o qual as novas tecnologias eliminam o sofrimento no trabalho, Franco (2002) destaca que o desenvolvimento da tecnologia dentro das formas organizacionais subordinadas às leis da acumulação refaz a dinâmica de produção social excludente, a partir dos padrões de produção onde se instalam formas de trabalho alienado processados em novos patamares tecnológicos. Quer seja na manufatura ou na automação, o trabalho
dominado se manifesta na separação entre gestores e executores, criando novas formas de controle que podem aumentar a tensão e o sofrimento, como se constata no Pólo Industrial de Manaus.
Nas últimas décadas houve uma melhoria incontestável nas condições físicas do trabalho industrial, que se tornaram menos insalubres e com menor risco de acidentes, embora ainda exista o trabalho penoso. Em contrapartida, surgiram novos fatores de risco (biotecnológicos, químicos) e novos arranjos organizacionais, relacionados às novas formas de organização do trabalho, associadas ao modo de acumulação flexível do capital, que acentuam os riscos de maior nível de estresse, bem como a manifestação de patologias psicossociais (CRUZ, 2005; MENDES, 2007b). Lancman (2004) sintetiza a atual configuração dos riscos à saúde: “O avanço tecnológico e as novas formas de organização do trabalho não trouxeram o fim do trabalho penoso; ao contrário, intensificaram as desigualdades e trouxeram formas de sofrimento qualitativamente mais complexas e sutis, sobretudo do ponto de vista psíquico“ (p. 31).
Os estudos contemporâneos da psicodinâmica do trabalho resgatam a importância do trabalho para a saúde, a partir da afirmação da centralidade do trabalho73,
questionam as novas formas de organização do mesmo e apontam seu caráter patogênico. Dejours (2004e; 2007a) provoca o debate acerca do papel fundamental do trabalho na realização do sujeito: situa o trabalho como mediador privilegiado entre o subjetivo e o social. A mobilização subjetiva requerida no trabalho coloca em questão a estrutura da personalidade, a própria identidade e, mais além, tem uma ação
73 A centralidade do trabalho é uma das grandes contribuições da psicodinâmica do trabalho à teoria psicanalítica, por situar o trabalho como categoria tão importante para a saúde quanto a demanda de amor (DEJOURS, 2004e; 2007b).
transformadora sobre o sujeito. O trabalho pode atuar como promotor da saúde, ao fortalecer a identidade e contribuir para a ampliação da subjetividade.