A maioria das ações humanas envolve um aspecto espacial. De acordo com Norberg-Schulz (1971) o interesse do homem no espaço é existencial, vem da mesma ideia defendida por Jakob von Uexküll quando diz que, como a aranha em sua teia, o homem se conecta a objetos, e sendo estabelecidas muitas conexões são elas mesmas que definem a existência do sujeito. A tentativa de trazer significado a um mundo de eventos e ações fazem com que o indivíduo estabeleça ligações que podem acontecer de forma emocional ou cognitiva, mas nos dois casos o objetivo é estabelecer um equilíbrio dinâmico entre ele e o seu ambiente. A relação com o espaço não é a orientação em si, mas é parte do senso de orientação que o indivíduo estabelece ao longo de sua vida.
O espaço edificado, antes de ser físico, é um elemento social. Hillier e Hanson (1984, apud NASCIMENTO, 2008) teorizam acerca da lógica social do espaço, e através de um modelo edilício primordial exemplificam sua teoria. Considerando um modelo edificado primitivo, que consiste num espaço delimitado por quatro paredes ligado ao exterior através de uma abertura, e através dessa abertura é possível o acesso do ser humano, exemplificam que o ambiente interfere no comportamento a partir do momento que segrega os grupos de acordo com a relação que cada indivíduo estabeleceu com o mesmo. Distantes da abertura e do ambiente externo se dispõem os indivíduos que habitam (controlam) o edifício, enquanto que os visitantes se mantém próximos da abertura.
Essa sensação de intimidade, apropriação acontece não só pelo fato de o indivíduo possuir o espaço, a exemplo de um morador em sua casa, mas também está presente em estudantes em sua sala de aula, em cidadãos nos espaços públicos de sua cidade. A integração com o ambiente é relativa também ao senso de pertencimento, à identificação do indivíduo com o espaço. De acordo com Norberg- Schulz (1971),a "identificação e orientação são os primeiros aspectos do ser no
mundo. Identificação é a base do sentimento de pertencimento a um lugar e orientação é a função que torna este homem parte do meio”. A identificação do ser com o espaço permeia a cultura, o repertório de cada indivíduo, as premissas sociais que formam sua visão para um determinado tipo, e sendo assim, a construção de um espaço potencialmente reconhecível por seus usuários não pode basear-se modelos engessados, preestabelecidos. De acordo com Bauman (2005), o ato de projetar ambientes não pode ser visto como um quebra-cabeças, mas deve ser executado como um processo. Ainda segundo o autor “pertencimento” e “identidade” não têm a solidez de uma rocha, não são garantidos para toda a vida, são bastante negociáveis e revogáveis (e se determinam) pelas decisões que o indivíduo toma, os caminhos que percorre, a maneira como age e as coisas que absorve (BAUMAN, 2005, p. 18).
Pessoas só estabelecem relação com um ambiente quando atribuem-lhe valores, enquanto isso não acontece o espaço é apenas espaço, não é um lugar. De acordo com Tuan (1980 apud GUIDALLI, 2012, p. 49) é a importância emocional dos espaços na experiência humana que os transforma em lugar, e isto ocorre quando o usuário vivencia o espaço, adquire maior conhecimento sobre ele e mais, identifica- se com ele. Ao se definir e ganhar significado, ao ter valores atribuídos a si, o espaço torna-se familiar e se transforma em lugar. A apropriação desse lugar é um processo, e segundo Cavalcante e Elias (2011) essa apropriação compreende processos simbólicos, cognitivos, afetivos e interativos que modificam o espaço e o dotam de significados para o usuário, ou grupo de usuários. Numa sala de aula, por exemplo, a exposição de trabalhos de alunos nas paredes, a modificação do leiaute, o uso de cores em detrimento de ambientes neutros representam essa apropriação.
Segundo Azevedo (2002) a noção do espaço tridimensional ultrapassa uma mera noção geométrica, pois no mundo real não há espaço vazio e abstrato, isento Fonte: SOARES; VASCONCELOS;
VILLAROUCO (2009).
Figura 04: Exemplo de apropriação simbólica: Alunos do CAC decoram balcão da biblioteca do centro com azulejos feitos em papel imitando a azulejaria portuguesa que marca a paisagem histórica do Recife.
de significados e relações. Sua concretude vai relacionar-se com o modo como o percebemos, organizamos e nos deslocamos, ou seja, toda a dinâmica que envolve as relações que ali se estabelecem. Nesta dinâmica não existe espaço imutável, pois as novas demandas fazem com que ele vá se modificando, se reorganizando, numa troca constante entre indivíduo e ambiente, e esta relação é mais eficiente quando é possível consolidar um ambiente físico favorável, capaz de estimular e desafiar o sujeito.
A concepção do espaço impregna-se, antes de conceitos tipológicos e de cálculos estruturais, de uma série de regras de funcionamento e práticas sociais que são consideradas pelo projetista, para os indivíduos. São normas que regem a dinâmica humana, associadas ao tipo de uso que será dado àquele espaço, agregando em si um conjunto próprio de convenções a serem seguidas. A tipologia do edifício não é determinada por características tectônicas, pois estas são passíveis de grande variação, dependendo da tecnologia, materiais disponíveis e outros inúmeros fatores. O tipo é, antes, definido pelas convenções que o precedem. (HILLIER & PENN, 1991 apud NASCIMENTO, 2008).
É esclarecedora a explanação de Thomas Markus acerca do tema. O autor devota sua produção a compreender a formação do espaço, e afirma que todo edifício é fruto de um texto que o precede, é embasado em práticas sociais. Posteriormente o edifício é o próprio meio onde podem ser "lidas" essas convenções (MARKUS; CAMERON, 2002). A relação entre espaço e fatores sociais constitui-se fisicamente através de elementos físicos, que permeiam cada ação e indicam os padrões pensados para aquele ambiente. Barreiras físicas, permeabilidades aos movimentos, opacidades ou transparências, tudo comunica ao indivíduo significados específicos, indicando possibilidades de fluxos e acessos, percepção e conexão visual, restrição e presença, etc. Ao mesmo tempo, esses padrões precisam conciliar as tarefas, o tipo de trabalho a ser exercido no lugar, cumprindo a função a que destinou-se originalmente a construção, em outras palavras, guardando as conexões entre os sistemas de espaços das quais se constitui um edifício.
De acordo com Norberg-Schulz (1971) o interesse do homem no espaço é existencial, vem da mesma ideia defendida por Jakob von Uexküll quando diz que, como a aranha em sua teia, o homem se conecta a objetos, e sendo estabelecidas muitas conexões são elas mesmas que definem a existência do sujeito. A tentativa de trazer significado a um mundo de eventos e ações fazem com que o indivíduo se
conecte, o que pode acontecer de forma cognitiva ou emocional, mas nos dois casos o objetivo é estabelecer um equilíbrio dinâmico entre ele e o seu ambiente.
O ambiente físico escolar é, por essência, o local do desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem, e deve ser pensado como o resultado da expressão cultural de uma comunidade, por refletir e expressar aspectos que vão além da sua materialidade (KOWALTOWSKI, 2013).