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: ANNEXES

Dans le document RAPPORT D ACTIVITÉ 21 (Page 52-56)

Nesta subseção, abordo o que urbanamente chamamos de ritos de passagem dos corpos jovens.

O corpo jovem, também chamado de adolescente, e que é foco desse estudo, visto que as crianças observadas têm entre 09 e 14 anos, é um corpo em transição com o qual o jovem faz suas experimentações e é marcado em muitas sociedades pelos ritos de passagem usados por muitas tribos/religiões/culturas; seja dos aborígenes, seja dos militares ou dos vestibulandos no mundo todo. Dependendo da cultura a que pertence, ao atingir certa idade, o indivíduo deverá diferenciar-se do restante do grupo, por meio de seu corpo. Isso pode ser feito com pinturas, com adornos, adereços ou mesmo com testes físicos que atestarão sua capacidade de resistência à dor, ao jejum, às noites sem dormir, à reclusão, aos cortes na pele ou às feridas abertas e reabertas. Essa “sabatina” a que são

submetidos esses jovens corpos é feita visando a sua iniciação em determinada fase da vida e em determinadas culturas, obedecendo a rituais impostos em idades diferentes, mas com objetivos quase iguais, embora os lugares e as crenças não sejam as mesmas.

A aprovação nesses testes físicos e psicológicos lhes garantirá acesso à categoria posterior pretendida, pois assim subirão um degrau na escala social. Tanto rapazes como moças são submetidos a exibições de pertença, força, habilidade e maturidade perante a comunidade que, depois disso, lhes assegurará a filiação a determinado grupo social, como um ser que deixou a infância para trás. Muitos povos em toda aldeia global, usam o corpo dos jovens para marcar esses instantes de transição, de “vir-a-ser” e do devir.

No Brasil não se foge à regra. Entre nós, os jovens que passam no vestibular ou que são alistados no Exército, raspam a cabeça marcando no corpo esse momento de passagem de uma fase à outra de sua vida e passam por brincadeiras chamadas “trotes”. Essas brincadeiras, aliás, estão sendo revistas em muitas instituições de ensino, quando da aprovação no vestibular; dada a violência com que são usadas entre os pares e as humilhações a que são submetidos os jovens em nome desse sucesso alcançado. Em algumas culturas existem ritos (dignos) semelhantes. Na religião judaica, por exemplo, há o bar mitzvah quando os meninos completam treze anos, e o bat mitzvah, para as meninas de doze anos. Julga-se que esses adolescentes, já maduros nessas idades, são capazes de contribuir para a sociedade à qual pertencem. Na igreja católica, existe a Crisma que apresenta um desafio semelhante e exige certa preparação para esse evento.

Na sociedade contemporânea ocidental em que vivemos e diante do enfraquecimento das figuras ideológicas referenciais tradicionais como o Estado, os pais, os padres e os professores; e diante das vicissitudes cotidianas e do desamparo de um mundo regulado pelo capital, busca-se uma superfície corpórea que dê a esses jovens um sentido de territorialidade. Pelo corpo, e com o corpo, o jovem tenta mostrar quem é e procura uma identidade visual que o incorpore a algum grupo de iguais, pois necessita encontrar primeiro a si mesmo e após, seus pares.

A juventude/adolescência é palco de passagens simbólicas doloridas e inquietantes, em que aquele corpo de criança, que vestia roupa de criança, que brincava com coisas de criança, que fazia programas de criança com toda a família,

já não encontra um porto seguro onde se reconheça. É como se a criança que anteriormente habitava aquele corpo fosse uma entidade sem sexo definido, sem vontades, nem quereres. Parecia um ente assexuado. Era um “ser” criança e pronto! Mas agora o espelho mostra mãos e pés enormes, seios crescendo, cabelo espigando, espinhas nascendo, nariz espichando... O próprio cheiro do corpo mudou, a voz desafinou, o quadril alargou, a coxa engrossou, o humor desandou... A travessia da imagem apavorou...E o jovem se pergunta: De quem é esse corpo que se modifica? Tão grande! Tão desajeitado! Lembrando Cecília Meireles: “onde ficou perdida a minha face?”

Desse modo, para transpor o período que o psicólogo Içami Tiba em Simpósio realizado em nossa cidade em 2001, chama de “luto” pelo corpo infantil perdido, os jovens cometem alguns desatinos, como marcar-se com tatuagens definitivas incrustadas em seus corpos juvenis, cortes de cabelos ousadíssimos/estranhíssimos, gravidez não planejada, bebedeira além da conta, tentativa de afirmações de poder ao volante, experimentações com drogas e uma série infindável de “testes” para tentar provar que aquela criança assexuada que idolatrava os pais e os encantava ao menor movimento, não existe mais; deu lugar a um ser em trânsito que procura identificação junto ao seu habitat. O que existe agora é um corpo que cresceu e perdeu sua identidade infantil e que anda à procura de referências que digam quem ele é, quem são seus pais, em que porto ele pode atracar com segurança. Mas, também os pais daquela criança segura que ficou lá atrás na infância não são mais os mesmos pais que assistiam às peças de teatro da escola e que achavam a maior gracinha, aqueles pais que participavam das reuniões na escola, aqueles pais que organizavam os torneios de futebol entre os coleguinhas. Os pais também deram “alta” para aquele filho-criança e se desligaram como se o filho não precisasse mais desse “olhar” coruja, deixaram-no perdido nesse “hífen” que é a transição entre ser criança e ser adulto. Esse hiato entre a infância com suas travessuras tão aplaudidas e a adolescência com suas experimentações tão inconseqüentes carece de suportes mais consistentes. E a imagem corporal é um desses suportes.

Mas, aquele corpo infantil foi tomado por outro corpo desengonçado que fervilha de hormônios e de desejos inconstantes, ora muito eufórico, ora quase depressivo... E aquele corpo infantil tão útil outrora, vez ou outra sente falta daquela

identidade infantil. Agora esse corpo aí está: desproporcional, desconhecido, desarticulado. Esse ser que emerge precisa provar que tem aceitação em seu grupo social nem que para isso precise se valer dessas escrituras corporais que alguns adultos acham tão estranhas. Sua assinatura visual diante da massificação das imagens, tenta dar-lhe uma singularidade, uma portabilidade, uma pontualidade. Aqui e agora, uma instantaneidade. Como ser “um” entre tantos?

Na adolescência, inaugura-se um tempo de experimentações longe do olhar familiar, um tempo de escolhas que se registram muitas vezes por meio das estruturas corporais rompidas em nome de uma transgressão que testa momentaneamente os limites impostos. Os piercings no nariz/boca/orelhas com que os aborígines, os indígenas, os nativos e tantos outros povos marcam orgulhosamente sua etnicidade, escolheram hoje pontos inusitados para se incrustarem no corpo urbano jovem contemporâneo: na língua, nos órgãos sexuais, nos dentes, nas unhas, nas sobrancelhas - reinventando rituais primitivos que beiram a aberração muitas vezes. Só que agora a urbanidade é que faz uso deles em larga escala. As tatuagens, herança dos piratas, antes tão marginalizadas e evitadas por ser indicativo de má índole, hoje habitam os corpos sem distinção de raça ou classe social. Ao contrário, dão ao seu dono “status” de pertencimento e identidade e o classificam como “da tribo”, expressão usada por MAFFESOLI (2007). Já existem concursos mundiais em emissoras de TV internacionais para ver quem tem mais tatuagens pelo corpo. Em alguns casos, os concorrentes não têm nenhum espaço livre na pele para fazer mais inscrições por menores que sejam, nem no rosto. Essas marcas são carimbos que atestam um pertencimento, uma participação societária em alguma “tribo”, de indivíduos engajados em um grupo que tem em comum algo a ser compartilhado: idéias, religião, música, esporte, gostos e, infelizmente, até drogas ou roubos. Esse adolescente com seu corpo incerto é um ser humano que transita por locais onde é exigida certa unidade, uma tentativa de homogeneidade, como a escola; onde em algumas escolas se exige o uso de uniformes, ou se proíbe o uso de cabelos compridos, ou o uso de bonés. O estudante, na escola, não pode se desfazer de sua identidade, já que ele é um ser que é biológico e cultural, mas esta sua concepção “artística” impregnada no corpo termina por gerar uma desacomodação por parte da entidade e seus dirigentes, nesses espaços antes tão afeitos ao cumprimento de regras, tão disciplinador e por vezes, castrador. Urge a necessidade de reestruturação das relações didático-

pedagógicas no processo de educação deste “novo” sujeito inserido em tal momento histórico-cultural. (BIRMAN, 2008, p. 49).

Em grande parte das escolas, com suas “marcas” corporais pessoais ele é tachado de “estranho” e, muitas vezes, malvisto pelos professores e incompreendido por muitos colegas que não comungam das idéias do corpo “vitrine” dos novos lançamentos visuais. Advém daí o desejo por parte dos jovens de que o conceito de educação deva ser ampliado para além de uma relação cognitiva com o conhecimento, comportando também uma dimensão física, afetiva, emocional, estética, moral. Dessa forma, a escola passaria a significar e reafirmar-se como um lugar de interação intencional e planejada no qual as novas gerações receberiam e aceitariam o aprendizado relativo às mudanças nas tradições culturais, produto da interação do homem com o meio onde circula, cujo elemento intermediador configura-se na corporeidade humana. Afinal, o aluno vem à escola acompanhado de seu corpo; moderno ou não, estimulado ou não, aceito ou não. Assim, toda manifestação/produção cultural humana é intermediada pelo viés corporal, além de representar uma de suas dimensões de linguagem comunicacional, há que se trabalhar o indivíduo como um todo que fala pelos gestos, pelas vestes, pela pele, pela musicalidade e a escola atual não pode se eximir de fazer parte desse contexto, pois afinal a vida passa também pela escola (...)

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