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O mundo do trabalho tem vindo a sofrer mudanças bastante importantes, tal como acontece noutras esferas do nosso quotidiano. O que há bem pouco tempo era permanente, seguro, linear e presumível, hoje tornou-se bastante instável e é impensável concebermos o nosso emprego para toda a vida. A empregabilidade constrói-se, hoje, em interação com o meio onde as pessoas habitam e nas oportunidades que vamos

19 conseguindo aproveitar. A ideia de construir aprendizagens resultantes das experiências diárias do trabalho está subjacente às recomendações comunitárias em matéria de valorização e validação das aprendizagens não formais e informais, numa perspetiva de aprendizagem ao longo da vida. Destaca-se, neste âmbito, a Declaração de Copenhaga (2002) que aponta para a necessidade de investigação sobre o modo como poderão ser promovidos a transparência, a comparabilidade, a capacidade de transferência e o reconhecimento das competências e/ou qualificações entre diferentes países e a diferentes níveis, desenvolvendo níveis de equivalência e princípios comuns de certificação, e medidas comuns, incluindo um sistema de transferência de créditos na educação e formação vocacionais. Também salienta o facto de se desenvolver um conjunto de princípios comuns para a validação da aprendizagem não formal e informal, com o objetivo de assegurar maior compatibilidade entre abordagens de diferentes países e diferentes níveis.

Costa (2005), a partir da sua reflexão sobre o trabalho realizado por Alonso et al. (2000) para a Agência Nacional de Educação e Formação de Adultos (ANEFA), conclui que

“o conceito de competência no currículo escolar emerge […] na sequência e por influência da sua utilização noutros campos, nomeadamente o da educação/formação de adultos, em que a necessidade de tornar esta formação relevante para a vida e para a profissão, num contexto de formação ao longo da vida, como paradigma nuclear da

sociedade do conhecimento, leva a colocar como foco central da formação a aquisição

de competências-chave para a cidadania e a empregabilidade” (p. 149).

Neste sentido, os dispositivos concebidos para o reconhecimento e a validação das competências adquiridas através das aprendizagens formais, não-formais e informais vêm acentuar a rutura com o paradigma tradicional educativo que privilegia a testagem de conhecimentos científicos e tecnológicos e não as aprendizagens realizadas através das experiências pessoais, profissionais e socioculturais. Já não se validam somente aprendizagens formais mas também as não-formais e informais, adquiridas no trabalho e no lazer, ultrapassando os limites tradicionais dos sistemas de educação e formação institucionalizados.

Estas práticas foram recentemente introduzidas através dos Centros de Reconhecimento, Validação e Certificação de Competências (CRVCC) e através dos Centros de Novas Oportunidades (CNO).

É num quadro paradigmático de Aprendizagem ao Longo da Vida que a valorização das aprendizagens adquiridas no exterior dos sistemas formais de

20 educação/formação se constitui como um novo campo de práticas educativas e como objeto de estudo científico, particularmente relevante no domínio da Educação. O reconhecimento e validação de aprendizagens experienciais tem-se vindo a constituir como um novo campo de práticas educativas, pondo em relevo a necessidade de conceber e desenvolver sistemas de reconhecimento e validação em diferentes níveis de qualificação, e concomitantemente, desenvolver a formação dos formadores, professores, orientadores e acompanhadores que participam neste processo (Pires, 2007). Esta autora refere que experiência e aprendizagem não são sinónimo se que não são as experiências que são reconhecidas e validadas, mas sim as aprendizagens e as competências que resultam de um processo de aprendizagem experiencial. Só poderá ser aprendizagem se a experiência for “refletida, reconstruída e conscientizada” (Pires, 2007:10). Quando a pessoa faz o balanço das suas aprendizagens, faz uma retrospeção na sua vida, identificando os conhecimentos e as competências que resultaram das experiências vividas. Trata-se então de um projeto que abrange o passado, o presente e perspetiva o futuro cujo recurso principal para a pesquisa é a própria vida. O professor/formador revela-se aqui como um orientador da realização das etapas desse processo de reflexão e de reconstrução do saber, que pode ser trabalhado individual ou colaborativamente, elaborando e re-elaborando, avaliando para reformular e reavaliar, perspetivando a realidade presente ou futura. Este processo desencadeia uma dinâmica de auto-formação e realização pessoal que envolve o formando, reforçando a sua autoestima e auto-confiança, despertando nele o sentido de continuar a aprender e a valorizar as suas aprendizagens.

O produto final deste processo é concretizado num portefólio – O Portefólio Reflexivo das Aprendizagens (PRA) - que é um documento síntese da reconstrução dos seus saberes e é este o documento apresentado para a validação das competências formais, não-formais e informais do formando/adulto. A metodologia é a das Abordagens Biográficas ou Histórias de Vida. Avalia-se o resultado desta abordagem através do instrumento PRA, o que é pouco compatível com a avaliação que recorre a aplicação de testes, exames ou outros instrumentos de avaliação tradicionais.

Na abordagem biográfica, os formandos adquirem e aperfeiçoam competências necessárias à sociedade em que vivemos, ou seja, as capacidades de observar, pesquisar, selecionar, julgar, agir, produzir, avaliar, etc. E não é necessariamente as pessoas que viveram mais situações e experiências que atingem maior conhecimento e capacidade de intervenção e de sucesso na vida pessoal, familiar, social, profissional e cívica.

21 “Porque não basta viver, é preciso refletir sobre o que se vive, é preciso saber aprender com o que se vive” (Duarte, 2003:22). E ao professor/ formador exige-se aceitar este novo conceito de escola, de educação/formação e de aprendizagem ao longo da vida e conceber os instrumentos necessários à sua implementação.

Para Alcoforado (2003), atualmente nenhuma escolha é definitiva e nenhum diploma nos condiciona para sempre. Tão importante como entrar qualificado no mercado de trabalho é saber que devemos aprender em todas as situações e em todos os momentos da nossa vida, devendo cada um de nós estar preparado para dar sentido e potenciar estas aprendizagens, fazendo-as, se for caso disso, reconhecer socialmente. Igualmente importante é percebermos que podemos e devemos retomar e prosseguir percursos formais, tendo como ponto de partida o certificado atual que possuímos (2003:11).

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